1984, de George Orwell

A escritura de 1984 foi quase tão dramática para George Orwell quanto a batalha pessoal de Winston Smith, o protagonista desta história, contra um regime totalitarista em uma distopia já ultrapassada. Orwell teve de enfrentar as próprias decepções políticas, os temores de um mundo pós-guerra e pós-nuclear, além de seus demônios físicos e psicológicos. Pressionado por seu editor para terminar logo a obra, o escritor dedicou-se exaustivamente a ela, a ponto de esquivar-se ao tratamento de sua saúde fragilizada.

Lê também: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. E: Orwell versus Huxley, um duelo de distopias.

Esse clima sombrio em torno de 1984 explica muito de sua desesperança. Em 1946, um ano após o fim da catastrófica 2ª Guerra Mundial e da morte prematura de sua esposa, o escritor inglês George Orwell retirou-se à casa de um amigo, na Escócia, para trabalhar em sua próxima novela. O trabalho estender-se-ia por mais tempo do que o planejado e o consumiria sobremaneira. Em 1948 terminou a escrita. Em 1949, ano de sua publicação, o livrou ganhou imediata repercussão. No ano seguinte, nos fins de janeiro, seu autor morreu de tuberculose.

Seu legado é evidente. Palavras como “orwelliano”, “Big Brother” e “duplipensamento” extrapolam o universo literário e alcançam novas dimensões na vida cotidiana. Mais do que nomear programas de televisão de caráter duvidoso, 1984 está inserido, ainda que jamais o tenhamos lido, em nossos receios mais íntimos diante dos poderes do Estado – principalmente diante do excesso desses poderes.

A história desenvolve-se ao redor de Winston Smith, um cidadão comum facilmente identificável, mesmo em nossa realidade. Ele tem 39 anos, sofre de uma úlcera varicosa acima do tornozelo direito e logo sabemos que não concorda muito com as atitudes do governo. Até aí tudo dentro da normalidade. No entanto, somos informados da presença do Grande Irmão – “O Grande Irmão está de olho em você”, lê-se em cartazes espalhados por todos os cantos – e de que Winston parece ser o único a repudiá-lo.

Muito de seu repúdio se deve ao fato de, como em todo caso de totalitarismo, o regime mandante abole os direitos mais básicos da população para manter sua posição de superioridade. O curioso é que não há leis expressas, mas todos temem as punições. Não é proibido criticar o Partido e seus atos, mas a pena é de morte. Os cidadãos podem relacionar-se como quiserem, desde que não haja prazer envolvido. Sim, inclusive o prazer foi proibido e ninguém mais demonstra se importar com isso.

Esse Grande Irmão é a representação pública do regime na fictícia Oceânia (correspondente à atual Oceania, às Américas, ao Reino Unido e ao sul da África). Seu controle está dividido em quatro setores: o Ministério da Paz, responsável por manter a constante guerra entre a Oceânia e a Eurásia ou a Lestásia, os únicos três governos globais; o Ministério da Verdade, encarregado de adulterar dados e fatos discrepantes para que se tornem verdade; o Ministério do Amor, ao qual cabe manter a lei e a ordem, muitas vezes por meio de tortura e lavagem cerebral; e o Ministério da Pujança, que tem de lidar com os problemas de escassez devido ao desvio de recursos para a guerra.

É fácil de repararmos na ironia desses nomes, todavia os habitantes da Oceânia não o reparam por duas razões: duplipensamento e Novafala. O primeiro “significa a capacidade de abrigar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias e acreditar em ambas”, ou ainda “induzir conscientemente a inconsciência e depois, mais uma vez, tornar-se inconsciente do ato de hipnose realizado pouco antes” (na tradução de Alexandre Hubner e Heloísa Jahn). É um autopoliciamento em prol do Estado, por assim dizer.

Já a segunda diz respeito ao idioma empregado no território oceânico. Na verdade, trata-se de um idioma na contramão de todas as linguagens, pois foi criado artificialmente e, ao invés de tornar-se mais rico e expressivo com o passar do tempo, a cada revisão torna-se mais rudimentar e inexpressivo. Ou seja, “menos e menos palavras a cada ano que passa, e a consciência com um alcance cada vez menor”. Mais sobre a Novafala a seguir.

E há, claro, a presença constante do Grande Irmão. Ela é vista nos grandes cartazes, sentida através das teletelas (aparelhos usados para comunicação e vigilância por parte do Partido) e reforçada na “educação” comunitária da qual os habitantes da Oceânia devem participar. Melhor, uma pequena parcela de seus habitantes, somente aqueles que pertencem ao Partido Externo – algo como os funcionários públicos de qualquer administração. Aqui começam as complicações na construção de 1984.

As camadas sociais dessa sociedade fictícia são as seguintes: Partido Interno, Partido Externo e Proletariado. Esta última corresponde a 85% da população e vive na marginalidade, na mira dos foguetes inimigos, mas sem o controle direto do Ministério da Verdade nem das teletelas nem dos encontros comunitários. São mais de 250 milhões de pessoas (comparados aos 6 milhões do Partido Interno) que teriam certa possibilidade para organizar uma revolução social e não o fazem por inanição ou falta de ambição. E isso, para nós leitores, é difícil de compreender.

Orwell projeta uma sociedade sem ambição, e esse parece ser seu maior engano. A História não aponta qualquer revolução que tenha ocorrido por motivos puramente políticos; sempre houve o desejo de uma classe, mesmo que minoria, de ganhar mais poder e enriquecer. As nobrezas caíram na Europa não para que se formasse uma sociedade justa de cima a baixo, mas para que as classes médias pudessem ocupar seu lugar.

Ou talvez o Proletariado não possuísse tempo de rebelar-se. O livro conta-nos que o Partido teria assumido o poder em meados da década de 60, ou seja, teria então cerca de 20 anos de controle. Sabemos que mesmo em condições horríveis esse pode ser um período demasiado curto para uma transformação. Agora, uma hora se transforma. A Primavera Árabe é um bom exemplo da impraticabilidade de um totalitarismo prolongado como o do Grande Irmão. Ambição e discordância são características fundamentais da humanidade e são elas que põem as mudanças em marcha.

Um outro defeito da obra é a (justificável) falta de elaboração dos personagens secundários. Uma das explicações é que estamos sempre sujeitos à percepção de Winston; apesar do livro ser narrado em terceira pessoa, nenhuma ação corre sem a presença do protagonista. Outra – e muito boa – é que em um mundo onde o Estado controla a mente das pessoas, não é de se esperar que estas sejam demasiado profundas ou refinadas. Há personagens com contradições interessantes: Syme, Ampleforth e Julia, contudo deles pouco nos é revelado. Entende-se – só que fica aquela vontade de nos inteirarmos mais.

Entretanto, 1984 não é conhecido por seus pequenos deslizes, e sim pelas suas vastas qualidades. É tudo que se espera de uma leitura: cativante, vigorosa, identificável, perspicaz… E, sobretudo, nos importamos com o destino dos personagens diante de uma situação tão cruel. Orwell é que não parece muito desejoso de um final feliz. Aliás, distopias raramente têm finais felizes.

E ainda resta comentar a Novafala. Como comentado acima, é uma linguagem criada para que seus falantes não tenham meios de expressar seu desagrado com o G. I. É um processo minucioso pelo qual o pensamento e a capacidade de raciocínio são condicionados pelas palavras utilizadas na comunicação corrente.

Para quem gosta de linguagem, o apêndice que desenvolve os ideais e a estrutura da Novafala é de um esclarecimento ímpar sobre a nossa própria língua, seja ela o português, o espanhol, o inglês… Com ele concluímos que a nossa capacidade de organizar ideias está diretamente relacionada com as palavras que usamos para expressá-las. Posto de outra forma, o pensamento surge pelo nosso domínio da expressão; não podemos pensar algo sem palavras para descrevê-lo, ou como versaria Caetano em citação de Heidegger: “só é possível filosofar em alemão”.

Já para o leitor comum, o apêndice é o máximo de esperança que se há de encontrar na obra. É importante notar que já na quarta página (segundo a primorosa edição da Companhia das Letras) há esta importante nota de rodapé: “A Novafala era o idioma oficial da Oceânia. Para saber mais sobre sua estrutura e etimologia, ver Apêndice”. A Novafala “era”, não “é”, portanto já não se fala mais. Esse é um sutil final feliz para a história, pois o referido apêndice trata desse idioma e do Grande Irmão como caso há muito passado, apenas estudado atualmente (seja o “atual” qual for).

Essa foi a maneira que Orwell encontrou para responder a seus leitores – e a si – a questão fundamental: “Há uma saída?” Custa bastante tempo e muitas vidas, mas parece que há. Afinal, enquanto houver um pouco de Winston Smith em todos nós, enquanto conservarmos nossa humanidade, sempre haverá uma saída.

Sugestão:
1984, Editora Companhia das Letras, 2009, Tradução de Heloisa Jahn e Alexandre Hubner, 416 pág.

3 comentários Adicione o seu

  1. Lucas disse:

    Muito boa a resenha!
    Já está em meus favoritos o seu site! Parabéns!

    1. Oi, Lucas.
      Muito obrigado pelo elogio, é um grande encorajamento para mim.
      Fica à vontade para visitar e vasculhar o Clássicos. Até mais, um abraço!

    2. E Lucas, vi teu blogue. Muito bom ver um Tumblr usado para algo além de humor pueril. Continua assim, gostei bastante.

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