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Exercício de Tradução: Emily Dickinson

Emily Dickinson

Hoje faremos um estudo de tradução por meio do poema How lonesome the Wind must feel Nights –, de Emily Dickinson.

Primeiro analisaremos uma versão em português já existente, depois apresentaremos uma alternativa àquela com base no que acreditamos ter se perdido na passagem. O original é este:

“How lonesome the Wind must feel Nights –
When people have put out the Lights
And everything that has an Inn
Closes the shutter and goes in –

“How pompous the Wind must feel Noons
Stepping to incorporeal Tunes
Correcting errors of the sky
And clarifying scenery

“How mighty the Wind must feel Morns
Encamping on a thousand dawns
Espousing each and spurning all
Then soaring to his Temple Tall -“


Eis a tradução, de acordo com Ivo Bender para a edição da L&PM:

“À noite, como deve sentir-se solitário o vento
Quando todos apagam a luz
E quem possui um abrigo
Fecha a janela e vai dormir.

“Ao meio-dia, como deve sentir-se imponente o vento
Ao pisar em incorpórea música,
Corrigindo erros do firmamento
E limpando a cena.

“Pela manhã, como deve sentir-se poderoso o vento
Ao se deter em mil auroras,
Desposando cada uma, rejeitando todas
E voando para seu esguio templo, depois.”

É uma boa tradução, pelo menos boa o suficiente para o leitor que não domine o inglês possa entrar em contato com o sentido dos versos, no entanto a técnica não anima. Embora suas escolhas sejam justificadas, como o tradutor aponta em sua Introdução, não somos obrigados a concordar com elas. Por exemplo, podemos discordar da supressão do ritmo, das rimas e da subjetividade do texto original. Outro ponto que incomoda é a dessimbolização de palavras como ‘Winds’ ou ‘Temple Tall’, a dar lugar meramente a ‘vento’ e ‘esguio templo’.

Com relação ao ritmo, o poema segue uma estrutura bastante demarcada, apesar do contexto modernista da escritora. Por exemplo, as sílabas poéticas da primeira estrofe são divididas da seguinte maneira (se não estás familiarizado com o ritmo em poesia, esta página será de muita utilidade):

How / lone* / some** / the / Wind / must / feel / Nights
When / peo / ple / have / put / out / the / Lights
And / e / very*** / thing / that / has / an / Inn
Clo / ses / the / shut / ter / and / goes / in

*, ** e *** lêem-se: lôn, sôm e vri (pronúncias aproximadas), ao invés de lô-ne, sô-me e vé-ri. Desculpa-me se já sabes isso.

E isso segue nas duas estrofes posteriores. Repara que cada linha tem oito pés e que são compostos em geral de um acento tônico, acompanhado de um átono, um tônico, um átono e assim sucessivamente. Essa é uma característica marcante do verso inglês, o famoso ta-dá: um som forte, outro fraco. ‘Al-guém cha-mou vo-cê a-qui’, teríamos em português. Shakespeare escreveu de modo similar, através dos pentâmeros jâmbicos, que são versos com cinco pares de ta-dá – cinco sílabas tônicas entre cinco átonas – em um total de dez pés. Como ilustração, tomemos a fala clássica de Hamlet:

“To be, or not to be, that is the question”

Se a dividirmos como já foi ensinado aqui no sítio, veremos isto:

To / be / or / not / to / be / that / is / the / ques-tion

Ou seja, acabamos de descobrir o ritmo do Bardo; desvendamos a música por dentro do texto. A propósito,  essa marcação fixa sempre foi uma maneira dos atores decorarem suas falas mais facilmente. Basta pensarmos na facilidade que temos de memorizar certas canções, por mais que procuremos esquermo-nos delas.

De volta à tradução: Bender, portanto, embora mantenha alguma sonoridade, faz perder uma porção da musicalidade. Quanto aos dois outros aspectos mencionados acima, eles reduzem a experiência do leitor diante da obra dickinsoniana. É certo que o tradutor torna os poemas mais acessíveis ao aproximar os versos da sintaxe brasileira e preencher as lacunas deixadas pela autora, mas isso distancia o público das intenções de Emily, quaisquer que elas fossem.

Como proposta de solução, apresento esta tradução:

“Quão só se sente à Noite o Vento –
Depõem-se as Luzes num momento
E tudo aquilo que tem Lar
Veda a entrada ao se guardar.

“Quão ostentoso, pelas Tardes
Compassa incorpóreos acordes
E o firmamento retifica
E o horizonte purifica.

“Quão poderosos são os Ares
Nas Manhãs, entre mil raiares,
Esposam cada um e então
Erguem-se ao Templo d’Amplidão –” (Por Christian von Koenig)

Não só mantive a formatação original, como também adaptei o ritmo o quanto pude. Os versos mantiveram a mesma extensão (oito pés) e as sílabas poéticas ficaram divididas assim:

“Quão / só / se / sen/ te à / Noi / te o / Ven-to
De / põem / -se / as / Lu / zes / num / mo / men-to
E / tu / do a / qui / lo / que / tem / Lar
Ve / da a / en / tra / da ao / se / guar/ dar

De modo que em português os pentâmeros jâmbicos são verdadeiros sacrifícios de se compor, optei por colocar as âncoras rítmicas sobre as quartas e oitavas sílabas. Esse foi o jeito que encontrei de preservar a consistência original. Além disso, incorporei o lirismo vago típico de Dickinson à tradução, por isso ‘put out the Lights’ e ‘Temple Tall’ passam como ‘depõem-se as Luzes’ e ‘Templo d’Amplidão’.

Essa é, claro, minha forma de traduzir e minha forma de entender a obra da poetisa em questão. Outras pessoas preferirão outras alternativas, o que não é um problema. Emily Dickinson precisa mesmo de muitas variações, porque seus escritos são tão abertos que se relevam diferentes a cada um.

Se quiseres apresentar tua tradução, ou a tradução de um texto distinto, por favor manda-a ao Clássicos Universais para que apareça a todos os interessados. Não te esqueças de que construímos juntos este espaço. Um abraço!

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2 Comments Post a comment
  1. cristina carvalho #

    Excelentes soluções. Só penso (talvez erroneamente) que a tua tradução “sofisticou” a Emily,
    deixou o texto dela um tantinho mais perto de Olavo Bilac, quando ela está mais pra Adélia Prado – digamos assim. Mas não há dúvida que prefiro a tua tradução à Bender.

    07/07/2012
    • Olá, Cristina. Muito obrigado pelo comentário. Concordo que seja um pouco “sofisticada”, mas essa foi a solução que encontrei para o problema do laconismo de Dickinson. Ou talvez porque eu ainda seja incapaz de reproduzir o mesmo efeito no Português. Bem, de todo modo continuarei a trabalhar nas traduções. Quem sabe posso chegar mais perto da verdadeira Emily. Até mais!

      15/07/2012

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