A Bela e a Fera, de Jean Cocteau

Muito antes de a Disney levar o conto clássico de A Bela e a Fera às telonas, seja na versão animada de 1991 ou na mais recente, estrelada por Emma Watson, a adaptação de Jean Cocteau já despontava como um marco do cinema fantástico em plena Europa pós-guerra.

Pontos principais:

  1. Dirigido com maestria e uma variedade surpreendente de recursos que vão desde a exibição ao revés à sobreposição de imagens;
  2. Os sets do castelo, projetados pelo próprio Cocteau, são maravilhosos;
  3. A iluminação foi um desafio muito bem superado;
  4. A caracterização de Besta é assustadora e fascinante;
  5. Bela é realmente bela;
  6. O subtexto sexual do filme.

Muitos cineastas ainda se preocupam em situar seus filmes dentro dos limites da realidade, tentando explicar tudo o que seja mais fantasioso. Esse é um tipo de cinema cuja única ilusão é fazer a ação parecer retilínea e ininterrupta no espaço-tempo. Mas são raros os títulos verdadeiramente retilíneos e ininterruptos – Arca Russa (Russian Arc / Russkiy kovcheg), de Alexander Sokurov, é um ótimo exemplo disso. Todos os demais apenas simulam essa condição.

Outros cineastas procuram outra ilusão cinematográfica: abraçar o irreal. Jean Cocteau foi um destes. É inútil discutir uma obra dele como Sangue de Um Poeta (The Blood of a Poet / Le Sang d’Un Poète) em termos de realidade, porque seu conteúdo orbita fora da esfera do palpável e sua mensagem, intocada pelos padrões no real, passa diretamente a um nível inconsciente de compreensão.

A Bela e a Fera (1946) é um desses filmes que habitam em um universo próprio e revelam-se diferentes para cada espectador. E o tema não poderia ser mais propício: baseado no clássico de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, o conto versa sobre uma bela donzela perseguida pela maldade de suas irmãs, um homem-besta que na verdade é um príncipe encantado, um castelo assombrado, um amor impossível e todas essas características às quais já estamos acostumados em histórias fantásticas.

O objetivo de Cocteau não fora o de adaptar a fantasia, de torná-la plausível, mas o de revivê-la pela experiência cinematográfica. Eis as palavras que aparecem logo após os créditos iniciais:

“As crianças acreditam no que se diz a elas. […] Elas creem em milhares de coisas bem ingênuas. É um pouco dessa ingenuidade que eu vos peço e, para dar sorte a todos nós, deixai-me proferir estas três palavras mágicas, o verdadeiro “abre-te, Sésamo” da infância: Era uma vez…”

O diretor com isso pede ao espectador que se desamarre da realidade e permita que a fantasia se desenrole diante de seus olhos. E a Cocteau não faltaram recursos de criação, ainda que os recursos para a criação impuseram certas limitações à filmagem. A Europa nesse período acabara de sair de uma guerra catastrófica e ainda demoraria muito para se recuperar.

No entanto, a França superou as dificuldades e produziu filmes sensacionais no período da Segunda Guerra Mundial. A Regra do Jogo (The Rules of the Game / La Règle du Jeu), dirigido por Jean Renoir em 1939, e especialmente O Boulevard do Crime (Children of Paradise / Les Enfants du Paradis), por Marcel Carné em 1945, são destaques do cinema de courage dos franceses.

Em A Bela e a Fera não foi diferente. Várias cenas foram registradas com tipos diferentes de filme, resultando em nuances na textura. Os sets também são poucos e só mostram o essencial; mas de nenhum modo isso é um defeito. Aliás, os cenários são belíssimos e trazem uma iluminação marcante.

Como ilustração, no castelo da Besta (Jean Marais) só conhecemos quatro aposentos: o salão de jantar, um corredor deslizante, o quarto de Bela (Josette Day) e o pavilhão de Diana. Nada comparado à suntuosidade das versões da Disney.

Corredores deslizantes deveriam ser uma norma.
Corredores deslizantes facilitam bastante a vida.

E por falar em Disney, esta tem muito a agradecer pela visão de Cocteau. Na animação de 1991 encontram-se várias homenagens: a aparência de Besta, os arredores do castelo, os objetos animados e até o personagem do bonitão que ao tentar conquistar a mocinha planeja contra o príncipe. Mas tudo isso parece aceitável em uma animação feita no ano de 91. 46 é o verdadeiro marco para a fantasia bestial.

Um bom ano para se ter pesadelos com égides também...
Um bom ano para se ter pesadelos com égides também…

Agora, não nos enganemos ao pensar que por se tratar de um filme fantástico as filmagens foram um mar de rosas. Pelo contrário, foram até bastante cruéis.

O diretor precisou ser internado devido a uma grave doença de pele que o fazia descascar e sangrar pelos poros afora, enquanto Marais sofria o seu quinhão no papel de Besta. A caracterização demorava 5 horas diárias e envolvia a colagem de pelos de animais (sim, pelos de verdade) direto em sua pele. Imagine-se o quão doloroso era desgrudá-los dia após dia – para então ter de colá-los de novo.

Beauty and the Beast 2

Todo esse trabalho não se tratou de um mero capricho dos idealizadores. A aparência de Besta precisava ser animal porque muito de sua relação com Bela se dá em um nível instintivo, quase animalesco, enquanto homem e uma mulher. Essa tensão sexual é mostrada por olhares e, com menor sutileza, por sensações.

Vejamos o exemplo da cena do jantar: Bela está no salão de refeições, onde espera Besta à mesa. A câmera mostra os rostos na lareira, mostra um relógio, depois faz um movimento para a esquerda e vemos a donzela, que tem um sobressalto. Ainda não sabemos o porquê. Em seguida, a câmera continua à esquerda e ao fundo avistamos a chegada da Besta. Ou seja, ela sentiu a presença do outro antes de o ver de fato. Bela é atraída pela sua presença feroz.

Continuando: ele se aproxima devagar. Ela se contorce na cadeira; suas feições se contraem, sua respiração é ofegante – seus lábios estão abertos, seus olhos fecham-se… A Besta fez Bela atingir o orgasmo com sua simples presença!

E ele sabe do que é capaz de afetar nela. Demora a alcançá-la, admira-a pelas costas. Então Bela, mais tranquila, alisa com calma uma faca que representa mais do que uma faca. Críticos como Roger Ebert já apontaram o falicismo envolvido no gesto.

Beauty and the Beast (dinner scene)

Inconscientemente ou conscientemente nos interessamos mais pela relação de Bela com a Besta do que dela com o príncipe encantado. Talvez nós nos atraiamos pelo aspecto animalesco da criatura, e não pelo humano que há nela. De qualquer forma, o desapontamento é geral quando a Besta enfim se livra do feitiço e vira um nobre cavalheiro. Cocteau, ciente do efeito que causaria, apresentou-nos um príncipe meio afetado, um tanto bobo e vestido de um branco reluzente, ao contrário das sombrias vestes negras que a fera usava.

Some-se a isso o fato de que muitas das prerrogativas do enredo não se concluem no final. O espectador sabe da importância da rosa e da chave, só que na conclusão esses elementos parecem não mais importar. Sequer os personagens maus recebem sua vingança. É um pouco decepcionante o fim abrupto do filme, como se o diretor quisesse encerrá-lo às pressas.

Assim, a decepção está estampada no rosto de Bela e nós compartilhamos seu sentimento. Mas, como no fim de todo conto de fadas, o mocinho e a donzela partem com a promessa de viverem felizes para sempre. Ou até que ela canse dele.

 

Ficha técnica:
Título: Bela e a Fera, A / Beaty and the Beast / Belle et la Bête, La;
Direção: Jean Cocteau;
Elenco: Jean Marais, Josette Day, Marcel André, Mila Parély, Nane Germon, Michel Auclair…;
Roteiro: Jean Cocteau, Jeanne-Marie Leprince de Beaumont;
Cinematografia: Henri Alekan;
Edição: Claude Ibéria;
Distribuição: Lopert Pictures;
Ano: 1946;
País: França;
Gênero: Fantasia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *