A “boa” música e a “má” música

Com muita frequência ouvimos expressões tais “já não se faz boa música” ou “música boa é música antiga” e às vezes chegamos até a concordar com elas. Contudo, o problema desse tipo de generalização, conforme consta no próprio significado da palavra generalização, é a falta de especificidade. Portanto será útil darmos uma olhada cuidadosa neste assunto.

É verdade que não se faz a mesma música de antigamente; isso porque hoje estamos em uma outra época, do mesmo modo que a música antiga não se fazia igual àquela ainda mais antiga. Por isso temos o período Barroco, o Clássico, o Romântico… E ainda há mutações dentro de um único gênero musical. Dentro do Punk, por exemplo, tem o Post-Punk, o Hardcore-Punk, o Anarcho-Punk, e por aí vai.

Mais importante é o serviço que o tempo presta à seleção do merece ser preservado e do que não merece. Agora estamos atulhados de informação e esse excesso de fontes cria uma barreira entre nós e o que poderíamos considerar uma “boa” música (“boa”, ou seja, aquela de que gostamos), pois quanto maior for o número de possibilidades à nossa disposição, mais difícil encontraremos aquilo que apreciamos. Parece estranha e até ilógica uma afirmação assim, mas pensemos que com o aumento das opções as distrações também aumentam.

Logo, é muito mais fácil encontrarmos uma “boa” música da década de 70 do que de agora, pois ela se fixou em um público que a preservou por seus méritos e filtrou-a de tudo quanto a acompanhava. E, naquela época, alguém que poderia gostar dela deve ter dito “não se faz mais música boa”; como no caso da ascensão do Rock and Roll, por volta dos anos 50, para desespero dos ouvintes de música erudita, enquanto compositores da qualidade de Stravinsky, Prokofiev e Villa-Lobos permaneciam ativos.

Porém não são todas as “boas” músicas que sobrevivem. São duas as causas; primeira: seus artistas, sejam compositores, músicos ou produtores, todos eles em algum dia morrem. São os entusiastas que guardam as partituras ou gravações. Segunda: enquanto o tempo refina a parte estética de uma obra, desgasta a parte física dela. Recordemo-nos de quantas criações maravilhosas se perderam por descuido ou em acidentes ao longo da história. A Última Ceia (The Last Supper / L’Ultima Cena), de Da Vinci, é um exemplo de arte que em muitas ocasiões quase foi destruída.

Vamos aos casos práticos: quantas boas obras feitas entre 1600 e 1650 são conhecidas hoje no Brasil? Afirmar que a ópera L’Orfeo (SV 318), publicada em 1607 por Monteverdi, enquadra-se na categoria “produções amplamente repercutidas” seria um exagero e é a única alternativa que me ocorre. Isso não quer dizer que por meio século só existiu esta obra. Existiram muitas outras, no entanto foi Orfeu que se destacou na filtração dada pelo passar dos séculos. Havia ainda a música popular, mantida somente pela tradição oral, e desaparecida quando morreram aqueles que se interessavam por ela.

Outro caso, desta vez mais recente: quantas grandes bandas de Rock dos anos 60 nós conhecemos? Inúmeras, posso citar aqui algumas: The Beatles, The Beach Boys, The Animals, The Who, Cream, Creedence Clearwater Revival, The Rolling Stones… Podemos até considerar que naquela época só tocavam grupos excelentes, mas uma pesquisa mais detalhada revela algumas surpresas. Quem de nós conhece The New Vaudeville Band? Em 1967 a música Winchester Cathedral ganhou o Grammy de “Melhor Gravação Contemporânea de Rock and Roll em cima de concorrentes como Eleanor Rigby e Good Vibrations, e ocupou o topo da lista Hot 100, da Billboard, no mesmo ano. E o que restou desse sucesso? Pouco…

Caberiam aqui muitas outras bandas caídas no esquecimento: The Association, The Knickerbockers, Manfred Mann, The Cookies, The Fugs, The Limon Pipers… Mesmo que algumas delas fossem “melhores” do que as outras, ficaram todas à sombra dos grandes nomes que marcaram a década. Com isso vemos que, para cada “boa” banda, existiram centenas de outras não tão agradáveis assim.

O mesmo acontece na atualidade. Temos milhares de artistas ao nosso dispor e apenas alguns “bons” espalhados por aí. Por isso é tão árduo achá-los e por isso que alguns de nós apegam-se tanto a eles quando finalmente os descobrem. Daí surge o fanatismo, o sentimento de posse, a obsessão dos fãs, as discussões entre eles para decidir qual artista é o “melhor” e tantas outras situações às quais nos acostumamos (como a guerra nos comentários da maioria dos vídeos musicais no YouTube).

Enfim, por maior que seja a tentação, devemos ter cuidado com as expressões que usamos. Por serem práticas e de rápida aceitação elas escapam sem lhes prestarmos a devida atenção e, em qualquer instante, podem virar-se contra nós. Como escreveu Schopenhauer em A Arte de Ter Razão (tradução de Alexandre Krug): “poucos sabem pensar, mas todos querem ter opiniões: o que mais lhes resta a não ser, ao invés de criá-las por conta própria, aceitá-las totalmente prontas de outros?”.

Entre discutir e não discutir é melhor que não discutamos; cada um tem o próprio gosto, a própria verdade. Sobre isso pensou Schopenhauer, de novo: “aquele que disputa, de maneira geral, não luta pela verdade, mas em defesa da própria tese”. Em último recurso, para sabermos se uma música é “boa” ou não, basta esperarmos pelo tempo e escutarmo-la se tivermos vontade, independentemente dos demais. Como Metallica já pregava (para mim uma “boa” música):

Never cared for what they do
Never cared for what they know […]
Life is ours, we live it our way […]
And nothing else matters”. – James Hetfield, Lars Ulrich

2 comentários Adicione o seu

  1. pois é, o unico juiz é o tempo

    e já começamos a ver resultados dessa ‘ filtragem ‘ com bandas dos anos 90, que as vezes nem consideravamos boas – mas ao ouvir vemos que continuam com frescor enquanto outras mais populares dizemos “que musica velha”

    1. É verdade. De momento consigo recordar alguns discos dos anos 90 que ainda soam surpreendentemente novos, como algo de R.E.M., Weezer, Cake, Radiohead, Garbage etc. Enquanto certos ícones Pop e algumas boy-bands já não servem nem para chacota.
      Abraço! E vê se considera a questão que fiz em teu blogue, é algo que tenho pensado a respeito.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *