A Caixa de Pandora, de G. W. Pabst

Não são muitos atores, mesmo entre os melhores, que conseguem imprimir uma presença tão marcante nas telas quanto Louise Brooks no papel de Lulu, em A Caixa de Pandora (Pandora’s Box / Die Büchse der Pandora, 1929). Sem desmerecer o trabalho de Georg Wilhelm Pabst, o diretor, sem Brooks o filme ainda seria bom, mas não seria o tanto que é.

Lulu já era uma personagem conhecida do público alemão, tanto nos palcos quanto no cinema, e por isso houve certa crítica ao ser chamada para o papel uma estadunidense. No entanto as críticas se dissiparam diante do magnetismo com que a atriz atrai não somente os demais personagens, de homens a mulheres – aliás, é talvez o primeiro filme com uma personagem explicitamente lésbica –, como atrai também o público.

Pandora's Box movie

No primeiro ato somos apresentados à bela personagem e a maneira como ela usa sua beleza para cativar as pessoas ao seu redor e delas receber favores. Quanto mais a conhecemos, mais encantados ficamos, apesar de todas as suas falhas. Ela é enérgica, impulsiva, temperamental, interesseira… e ao mesmo tempo aparenta tamanha inocência que é difícil condená-la. Em seu corpão de mulher madura, Lulu não passa de uma criança em sua personalidade.

A maior prova disso é quando seu relacionamento com Dr. Schön (Fritz Kortner) é ameaçado pelo casamento deste. Lulu, uma dançarina, decide não fazer o número de um espetáculo do qual Schön é patrocinador. Isso põe em risco a apresentação já em andamento. O homem tenta argumentar com ela; sem resultados, pois o comportamento desta é totalmente infantil. Desesperado e atraído, ele a beija – somente para ser flagrado pela noiva. A expressão vitoriosa de Lulu é impagável.

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Aí se abre a caixa de pandora a que o título da obra se refere, ou talvez já tenha sido aberta num período pré-narrativa. A partir daí deflagra-se uma sucessão de tragédias, todas em torno da protagonista. Como disse, é difícil culpá-la, uma vez que a própria, por causa de sua mentalidade infantil, não percebe o sofrimento que causa e é alheia ao sofrimento que lhe causam, quando é usada por aqueles que se dizem seus amigos.

A beleza e a presença de Lulu é algo além deste mundo e por esse algo aqueles que a rodeiam são capazes de arriscar tudo. A aposta é alta: há chances de se tirar uma grande infelicidade ou uma alegria sobrenatural; sugiro que o leitor veja o filme e reflita se vale a pena tal aposta.

Pabst faz de tudo para realçar as aparições de Brooks. A iluminação acentua de maneira eficiente as feições da atriz e pinta os cenários com a dramaticidade necessária. O preto e branco é aveludado e não tem o mesmo detalhamento de A Paixão de Joana D’arc, conquanto tenha muito boa nitidez. Não raro vemos a magia de Lulu expressa através do brilho de seus olhos.

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Mais do que destacar a protagonista, Pabst monta suas cenas com grande atenção. Há imagens belíssimas em todo o filme, não somente por causa de Brooks. O diretor soube trazer emoção e tensão quando preciso. Apenas achei o longa um pouco cansativo ao final, talvez por ter me deixado enganar pela indicação de começos e finais de ato que informam os intertítulos.

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Geralmente há três ou cinco atos em obras narrativas, mas A Caixa de Pandora tem oito. Quando terminou o quinto ato pensei que as duas horas planejadas de filme passaram bastante rápido, então começou o sexto ato e percebi que havia mais uma hora pela frente. Isso de alguma forma mudou minha percepção do filme.

Por falar em intertítulos, há um bocado deles, com longos diálogos. As produções alemãs, e europeias em geral, não abraçaram com tanta rapidez o cinema falado. Pandora aparece numa fase de transição do cinema alemão; em questão de diálogos incorporados ao roteiro, figura mais ou menos entre Metrópolis (Metropolis, 1927) e M, O Vampiro de Dusseldorf (M, 1931), ambos de Fritz Lang.

De A Caixa de Pandora ficam cenas e personagens memoráveis, desde a própria Lulu, a Schön, o atormentado Alwa (Francis Lederer), a Condessa Geschwitz (Alice Roberts) possivelmente como a primeira lésbica do cinema, até uma participação importante de Jack, o Estripador (Gustav Diessl). Infelizmente o único momento de ternura fica quase no fim, logo antes de…

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Ficha técnica:
Título: A Caixa de Pandora / Pandora’s Box / Die Büchse der Pandora;
Direção: Georg Wilhelm Pabst;
Elenco: Louise Brooks, Fritz Kortner, Francis Lederer, Carl Goetz, Krafft-Raschig, Alice Roberts, Gustav Diessl…;
Roteiro: Ladislaus Vajda, Frank Wedekind;
Cinematografia: Günther Krampf;
Edição: Joseph Fleisler;
Produção: Heinz Landsmann, Seymour Nebenzal;
Ano: 1929;
País: Alemanha;
Gênero: Drama.

1 comentário

  1. jc disse:

    Um grande filme, e em particular, uma grande interpretação. Concordo que o filme é Loiuse Brooks. Nunca vi personagem igual, capaz de exprimir tamanha liberdade sexual, com a mesma inocência.

    A seguir ao ciclo que agora exponho no meu blog, seguir-se-á um sobre o cinema alemão desse período, e este filme estará entre os analisados.

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