Qual foi a última vez que você viveu a magia do cinema em um filme? Mais que passar o tempo, quando teve gratidão pela experiência de assisti-lo?

Esse foi meu caso com A Chegada (Arrival), em outra direção impecável de Denis Villeneuve. Já era fã dele e com este drama de ficção científica ele passa uma tremenda confiança de que Blade Runner 2049 pode ser excelente, e não só mais uma sequência caça-níquel.

Para você ter uma ideia, nos últimos 5 minutos levantei-me do sofá e terminei o filme colado na tela. Eu simplesmente não me aguentava com o que via, tomado de emoção.

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É isso que nos faz humanos, certo?

Arrival tem esse forte apelo emocional porque explora o lado humano de um conceito científico. Assim como Story of Your Life, o conto premiado de Ted Chiang que inspirou o longa, a história aborda a relação entre a linguagem e a percepção da realidade, por meio da hipótese de Sapir-Whorf.

Bastante discutida, ela se refere à capacidade de um idioma predispor ou de pelo menos influenciar nosso modo de entendimento geral. Nesse sentido, cada língua teria ferramentas específicas de percepção e expressão. Heidegger ficaria feliz com essa hipótese, autor famoso por escrever que só é possível filosofar em grego e alemão.

Então, o que acontece quando a linguista Louise Banks (na ótima interpretação de Amy Adams) precisa aprender uma língua alienígena em meio a uma invasão global?

Como especialista em sua área e conhecida da CIA, Louise é convocada para resolver um mistério surreal. Doze naves extraterrestres pousaram em diferentes pontos da Terra e os governos mundiais precisam descobrir o objetivo dessas criaturas. “Por que eles estão aqui?” é a pergunta dos pôsteres do filme, mas logo veremos que Arrival vai muito além disso.

“In fact, “Arrival” is far more about human understanding, memory, love and fortitude than it is about an alien invasion.” (Rowan Hooper – The Washington Post)

a chegada denis villeneuve efeito kuleshovLogo na abertura já nos deparamos com um emocionante poema visual sobre a vida e morte da filha de Louise. A montagem à la Terrence Malick é seguida por uma cena da protagonista chegando para dar aula na universidade. E aí, sem que saibamos, começa a genialidade do conceito do filme.

O que vemos é o uso do efeito Kuleshov (lembre em outro post), tendo papel fundamental sobre a nossa experiência. Basicamente, após a montagem da morte da filha pela ótica de Louise, interpretamos desde a sua chegada cabisbaixa à universidade até as ações posteriores, já em contato com os alienígenas, como decorrentes do trauma pós-perda.

Magia e construção de sentido

Essa é a magia do cinema. É a arte usar roteiro, edição, trilha sonora e atuações para criar um sentido na mente do espectador, ainda que a relação das partes não seja explícita.

Não à toa, as telas em Arrival têm função narrativa. Por elas os personagens descobrem a notícia da “chegada”. Por elas, Louise assiste aos primeiros sinais de paranoia generalizada e à dificuldade de as nações se comunicarem.

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E por elas vemos apenas de relance a dimensão das naves nos 17 minutos iniciais.

Então Villeneuve mostra por que é um diretor sensacional. Enquanto Louise chega a Montana, onde está a base extraterrestre nos EUA, somos apresentados à nave em clima de suspense crescente. Sem afobação.

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Da panorâmica entrando na névoa, a reação de Louise, outra tomada da névoa até o espanto da protagonista, o mistério estende-se por 44 segundos. A surpresa é construída com paciência.

De repente, um plano-sequência de 1 minuto e 5 segundos revela toda magnitude da nave com relação ao acampamento militar. É para devorar com os olhos!

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Palavras-chave: monolito, 2001, odisseia no espaço, Kubrick.

Esse é o conhecimento de Villeneuve sobre o poder da grande tela, a do filme, para a construção de sentido. Sabe o que mais lembra a tela do cinema? O cenário onde os humanos tentam se comunicar com os alienígenas, ou seja, onde tiram um sentido de tudo isso.

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O tempo é circular

Louise e Ian (Jeremy Renner), um físico que a auxilia, correm contra o tempo para descobrir o propósito da visita, enquanto nações como a China se armam para o pior. Essa Guerra Fria com os visitantes não existe no conto original, mas serve para ilustrar a própria dificuldade de nos comunicarmos e trazer mais tensão ao filme, pois nunca sabemos do que os aliens são capazes.

Por isso acho desnecessária a subtrama dos soldados americanos que tentam sabotar a missão de Louise. Primeiro, a expectativa de a China entrar ou não em conflito já resolve essa lacuna. Segundo, o ato não tem maiores consequências no roteiro.

Até então, Louise conseguia avançar consideravelmente no aprendizado da língua alienígena, graças à sua expertise e ao contato mais próximo com eles.

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Com isso, ela confirma a hipótese de Sapir-Whorf ao ter sua percepção do tempo alterada pela nova ferramenta linguística. Agora vê passado, presente e futuro como um círculo: sem começo nem fim, acontecendo simultaneamente.

Isso é traduzido na escrita dos alienígenas. O roteirista Eric Heisserer pegou o conceito temporal desenvolvido por Chiang e outros elementos da história, como o nome Hannah, filha de Louise, que pode ser lido de traz para frente, ao propor uma escrita circular.

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Nela, frases inteiras são compostas num só instante, sem ordem definida, exigindo um entendimento integral de espaço e tempo por parte da protagonista. Daí o brilhantismo dos flashes que permeiam a edição. O que é passado, presente e futuro nesse contexto? Somente a arte para construir e reconstruir significados, conduzindo lentamente o espectador à revelação final de algo que precisa ser intuído para ser entendido.

“Nenhuma outra forma de arte é capaz de consertar o tempo como o cinema faz.” (Andrei Tarkovsky)

Merece destaque a identidade visual dessa nova língua. Proposta por Heisserer, foi criada de fato pela artista Martine Bertrand, que trouxe uma linguagem circular funcional para a equipe de design de produção. Arrival contou com um dicionário de 100 logogramas para as filmagens!

Por outro lado, o filme tem seus defeitos. O papel de Ian não tem uma função definida nos dois primeiros atos e a narração nos poemas visuais do começo e do fim são redundantes. A montagem e a belíssima música On the Nature of Daylight, de Max Richter, expressam melhor a profundidade desses momentos, sem mastigar palavras para o público.

Além disso, algumas pessoas podem achar irresoluta a trama alien. Eu mesmo esperava um pouco mais do objetivo da visita – até os incríveis 5 minutos finais.

Porque Arrival, no fim, não é sobre alienígenas. É um drama extremamente humano que tem alguns alienígenas no roteiro. E é um ótimo exemplo de arte que vive o mistério sem medo, como Louise quando pergunta:

“If you could see your whole life from start to finish, would you change things?”

Aí reside a alma do filme. Todos nós sabemos em maior ou menor grau o futuro. Nossas vidas são marcadas por perdas, conflitos, mortes… Mas ainda conseguimos esperar o porvir de braços abertos, porque também sabemos que a vida reserva uma porção imensurável de alegria e beleza.

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Ao comunicar essa beleza, Arrival merece, portanto, toda a gratidão.

Créditos:
Título: A Chegada / O Primeiro Encontro / Arrival;
Direção: Denis Villeneuve;
Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker…;
Roteiro: Eric Heisserer, Ted Chiang (história);
Cinematografia: Bradford Young;
Edição: Joe Walker;
Música: Jóhann Jóhannsson;
Produção: 21 Laps Entertainment, FilmNation Entertainment, Lava Bear Films, Xenolinguistics;
Ano: 2016;
País: Estados Unidos;
Gênero: Drama, Ficção científica.

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