A gramática da emoção em The Sandman e Daytripper

Uma das vantagens de se ter um blog, especialmente um que ninguém lê, é poder escrever o que se quer, sem compromissos senão consigo. Daí este artigo tão pessoal. De uns tempos para cá tenho visto a arte mais que uma expressão do Eu, mas como um campo de estudo para o aprimoramento desse Eu.

Nós somos criaturas emotivas e as emoções, embora confusas muitas vezes, estão entre os elementos da existência mais fortes que podemos experimentar. Reconheço seu poder e por isso me atento à sua gramática. Dentro dessa gramática da emoção há uma ferramenta para refinar e intensificar o que sentimos. Por falta de termo melhor, chamarei esse método de “Regra de Três”.

Como exemplos dessa Regra de Três, usarei à frente duas fantásticas histórias em quadrinhos: The Sandman e Daytripper. Porém não é preciso ir longe para que notemos sua presença, porque a regra funciona de um jeito simples, mesmo em nosso cotidiano.

Primeiro, percebemos determinada situação (em nós ou no mundo exterior) que resulta em certa emoção. Então, vemos a situação repetir-se e ter resultado idêntico ao da primeira vez. Por fim, assim que presenciamos a situação em sua terceira incidência, não precisamos de uma explicação detalhada nem sequer esperamos sua conclusão para sentirmos aquela mesma reação inicial, pois sabemos intuitivamente aonde essa história nos levará.

Isso ocorre o tempo todo, ainda que não reflitamos a respeito. Sabemos o que as pessoas mais próximas de nós estão sentindo por uma palavra ou por um olhar. Uma amiga arfa e diz que está cansada; noutro dia, ela arfa de novo e você pergunta se ela está cansada, para confirmar; na terceira ocasião o mero arfar já explica tudo. Ou certo apaixonado tem um olhar característico ao dizer à sua amada que a ama; depois de várias declarações semelhantes, o simples olhar revela tudo – e de uma forma muito mais intensa.

Mas para que a intensificação seja alcançada, alguns quesitos precisam ser preenchidos dentro dessa gramática da emoção:

  1. O número mínimo de passos é 3, divididos entre descoberta, confirmação e intuição;
  2. A descoberta deve ser o passo mais longo e mais explicado do processo;
  3. A confirmação pode ter quantas repetições desejar-se, no entanto leva sempre ao mesmo resultado. Não é o caso, por exemplo, de um filme como Groundhog Day (de Harold Ramis), porque cada repetição leva a um resultado diferente, tornando-o imprevisível;
  4. A intuição deve ser o menos explicada possível. Sua função é apenas a de contextualizar a cena para que possamos sentir a emoção resultante em seu estado mais puro;
  5. A forma como ocorre a intuição também interfere no impacto emocional (os exemplos a seguir deixarão isso evidente). Se o apaixonado lançar o olhar em um momento feliz, isso tem um peso; se, contudo, ele o lança na hora do adeus, quando nenhuma palavra faz jus àquele instante, o peso é diferente. Maior, digamos.

Vamos agora aos exemplos visuais: The Sandman.

The Sandman (1984) é fenomenal, não só no âmbito dos quadrinhos, mas da literatura como um todo. É uma das narrativas mais ricas dos nossos tempos, incorporando milênios de histórias em algo único e atual. Ela é tão boa que até os episódios que fogem aos arcos mais longos são excelentes, como se Neil Gaiman aproveitasse os breves encontros com Hob Gadling e Shakespeare para cristalizar conceitos presentes na série como um todo.

O volume 8, The Sound of Her Wings, é um desses intervalos entre arcos narrativos. Em termos de ação, pouco acontece. Dream (Morpheus) encontra sua irmã, Death, e os dois saem para coletar algumas almas de pessoas que morreram, daí eles se despendem e fim.

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Parece chato? Não é. Este volume é incrível, com falas inesquecíveis, uma revelação que tem tudo a ver com a série e um momento de profunda comoção. Vejamos como isso funciona, desde o princípio.

Depois de uma rápida conversa no parque, a cena muda para a primeira coleta de alma. Essa passagem dura quatro páginas, da chegada ao local, o diálogo com Harry (prestes a morrer), a contemplação do falecido, o som das asas da morte até a saída para outro ambiente.

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Essa é a fase de descoberta. Ela é longa para que saibamos como funciona todo o processo e qual é o seu resultado.

A segunda coleta dura menos, três páginas, porque já não há a necessidade de detalhes do funcionamento, e tem um fim idêntico ao da primeira. Com isso se estabelece a confirmação: quando a morte chega a um lugar, paira a certeza de ouvir o bater de suas asas.

Por fim, a intuição atinge-nos como um raio no encontro seguinte, que dura apenas uma página. A mãe deixa o bebê no berço. Dream e Death entram no aposento. Você sabe o que está prestes a acontecer.

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Metade da página é dedicada exclusivamente à reação da mãe: um grito, uma mamadeira quebrada, uma mulher contorcida no chão, envolta pela escuridão deixada pelo fato recém-ocorrido. Infelizmente, ainda temos outra morte para cobrir neste artigo, também de uma criança.

Daytripper…

Daytripper (2010) é a obra-prima dos irmãos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá. Os dez volumes da série contam a história de Brás de Oliva Domingos e suas diversas mortes. Isso mesmo, em cada capítulo o protagonista morre em diferentes idades (ou versões) de sua existência.

O mais curioso é que a premissa funciona. Logo no primeiro volume já temos a descoberta de que ele morre. Mas os autores desenvolvem a história de um jeito tão honesto e envolvente que acompanhamos Brás em cada uma de suas vidas.

Isso até chegar ao volume 5. Ou seja, já houve a descoberta e pelo menos três confirmações, mas minha expectativa era outra. Nos capítulos anteriores, Brás morria com 32, 21, 28 e 41 anos. Agora, ele só tem 11. Como falei acima, a forma atribui um peso a mais à emoção e a morte de crianças nestes dois exemplos de intuição é devastadora.

Diferentemente da única página de intuição em The Sound of Her Wings, acompanhamos a infância de Brás por 20 páginas e talvez você, igual a mim, comece a pensar que tudo pode acabar bem desta vez. Ou pelo menos roga “por favor, não matem o menino”.

E parece que vai dar certo, porque chegamos às últimas páginas. É mais um dia normal para o pequeno Brás.

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Em seguida há esse momento brilhante criado por Moon e Bá. Uma página inteira sem textos, sem qualquer explicação. Uma página inteira focada apenas nas expressões das personagens. Uma página inteira de emoção pura e intensificada. Um rosto descontraído, um semblante preocupado, uma lágrima que cai dos olhos da mãe.

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Em silêncio, sabemos o que aconteceu e somos forçados a contemplar, emocionados, aquilo para o que não temos palavras.

Pessoalmente sou atraído por essa forma de intensificar a emoção. Talvez porque, como escritor, meu desejo seja o de encontrar a expressão mais concentrada. Talvez eu queira expressar algo tão grande que vá além das palavras.

 

[Créditos das imagens: The Sandman é uma obra escrita por Neil Gaiman, desenhada por Mike Dringenberg e Malcolm Jones III e publicada por Vertigo/DC Comics. Daytripper é uma obra escrita e desenhada por Fábio Moon e Gabriel Bá e publicada por Vertigo/DC Comics.]

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