A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares

Ainda há muito para o público brasileiro em geral descobrir da literatura dos nossos vizinhos sulamericanos. Pelo que vejo, o que mais se conhece aqui no Brasil é o nome de Borges, os quadrinhos de Quino e os romances de García Márquez.

Hoje falarei de um tesouro argentino pouco difundido: o thriller surreal A Invenção de Morel (The Invention of Morel / La Invención de Morel, 1940), de Adolfo Bioy Casares (1914–1999).

A Invenção de Morel é o relato pouco tradicional de um fugitivo venezuelano a procurar refúgio numa ilha misteriosa. Informado da existência dessa ilha quando em Calcutá, ele é precavido de que assola sobre o lugar um estranho mal, capaz de matar um homem sem que se saiba o porquê. Sob o risco de voltar à prisão, o foragido decide arriscar-se a esconder-se na ilha abandonada.

Essa escolha denota o primeiro paralelismo das prisões na vida do protagonista: solto no mundo ele corre o risco de ser preso novamente, então ele decide escapar a essa sorte ao confinar-se nessa ilha aonde ninguém vai. Ou pelo menos é isso que ele pensa.

Depois de passar mais de uma centena de dias por lá, a impressão de que não está a sós na ilha é cada vez mais forte. O lugar contém uma igrejinha, uma piscina e uma grande casa, capaz de abrigar numerosos convidados, como fora informado em Calcutá. Esses vultos fazem o protagonista então suspeitar de sua sanidade.

“Mas aqui não há alucinações nem imagens: são homens de verdade, ao menos tão de verdade quanto eu”.*

Esse tom de dúvida pelo que realmente está a acontecer é acentuado pelos comentários de um editor bastante cético. Aliás, a primeira palavra desse editor com relação ao manuscrito do foragido já é “duvido”. Isso só aumenta o mistério do livro, principalmente quando o personagem passa a interagir com certas figuras que habitam a ilha e descobre algumas máquinas escondidas na casa.

Com relação às máquinas, a ideia da tecnologia é bem explorada ao longo da narrativa. Sugere-se um mecanismo possível de gravar a vida, não como uma cópia, mas completo o bastante para reproduzi-la em todos os seus detalhes – cores, sons, odores… Um mecanismo que a perpetue.

O que nos remete ao segundo paralelismo da história, pois o homem acaba por apaixonar-se por uma figura de mulher que passa a avistar todos os dias na olha. Ele é confrontado com o dilema de prender-se ao passado e abrir mão de qualquer futuro, ou ter um futuro sem a memória que deseja.

Novamente, não há escapatória. Ou, como diria F. Scott Fitzgerald: “E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado”.

E a saída que o personagem escolhe é dita muito cedo no livro, muito cedo pelo menos para que entendamos as consequências de tais palavras:

“Creio que perdemos a imortalidade porque a resistência à morte não evoluiu; os aperfeiçoamentos insistem na primeira ideia rudimentar: manter vivo todo o corpo. Só deveríamos buscar a conservação do que interessa à consciência.”

Falar mais a respeito seria entregar demasiadas pistas do intrincado mistério que é A Invenção de Morel. Sobrenatural e ciência, suspense e paixão fundem-se numa trama breve e surpreendente.

À parte disso, o livro serviu de inspiração para o filme O Ano Passado em Marienbad (Last Year at Marienbad / L’Année dernière à Marienbad, 1961), dirigido por Alain Resnais. Preciso revê-lo, porqu ainda não sei se gosto ou não dele. Por ter lido antes A Invenção… entendo ao que o filme se refere, mas se não o tivesse feito talvez o achasse deveras maçante, o que o livro não é.

 Last Year at Marienbad

* A Invenção de Morel (The Invention of Morel / La Invención de Morel), de Adolfo Bioy Casares, em tradução de Samuel Titan Jr. para a editora Cosac Naify.