A métrica e o ritmo em poesia

Já decorrido muito tempo da ebulição do Modernismo, uma geração inteira de poetas surge sem conhecer seu trabalho. “Abaixo às regras!”, eles pregam, mas que regras são essas eles não sabem. Aliás, em poesia nunca houve tal coisa. O que sempre existiu, é certo, foi um processo natural de adaptação entre o conteúdo e a forma. De um autor que creia em “regras”, mesmo que não as siga, não devemos esperar bons poemas.

A origem da poesia é diretamente relacionada com a música. Poesia era música, não havia distinção entre uma e outra. No tempo de Homero, as lendas eram transmitidas de ouvinte a ouvinte por meio do canto. A Ilíada e a Odisseia são, além de poemas, verdadeiros hinos. Como na música, é uma sucessão de sons e silêncios de acordo com determinado ritmo, organizado pelos compassos. A poesia tem assim uma organização parecida. Vejamos.

Comecemos pela palavra, elemento básico da poesia. As palavras (quando faladas) são uma sucessão de pequenos sons, divididos em sílabas. Esse som pode ser forte (tônico) ou fraco (átono). ‘Céu’, por exemplo, é composta de um som para ‘c’, um para ‘é’ e outro para ‘u’. Foneticamente seria representada por [‘sɛw], enquanto que graficamente é descrita por uma única sílaba tônica.

Já ‘sorte’ é composta por sons de ‘s’, ‘ó’, ‘r’, ‘t’ e ‘e’. Se mudássemos qualquer um de seus sons, poderíamos ter ‘morte’ ou ‘solte’, mas fiquemos apenas com o aspecto gráfico dela. ‘Sorte’ tem duas sílabas, a primeira tônica (forte) e a segunda átona (fraca) – uma paroxítona. O mesmo processo de divisão ocorre em todas as palavras.

A poesia, como a música, é marcada por uma sucessão de sons, mas enquanto os sons da música provêm de instrumentos (entre eles a voz, pois a garganta pode ser vista tal um instrumento de cordas), os da poesia vêm das palavras que a compõem. E sons poéticos também encontraram sua organização, sua estrutura: os versos, análogos aos compassos musicais, que marcam o ritmo do canto-poema.

Ilustremos com um exemplo clássico de Camões:

“Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;”

Essa é uma estrofe muito bonita e melódica, que inclusive foi cantada em algumas ocasiões (Monte Castelo, sabe?). Aqui a vemos como um todo; passemos a dividi-la em partes menores, separemos as sílabas:

A mor é fo go que ar de sem se ver
É fe ri da que dói e não se sen te
É um con ten ta men to des con ten te
É dor que de sa ti na sem do er

Agora destaquemos suas sílabas tônicas (em negrito) das átonas, marquemos seus sons e silêncios:

A mor é fo go que ar de sem se ver
É fe ri da que dói e não se sen te
É um con ten ta men to des con ten te
É dor que de sa ti na sem do er

Estamos mais próximos de entender o que é a métrica. Para isso, usemos dois hábitos da fala para concatenarmos melhor a parte gráfica do poema. Primeiro, é comum que emendemos as vogais próximas uma das outras, desde que não sejam todas tônicas nem estejam na mesma palavra. Ex.: ‘casa amarela’ ficaria ‘ca saa ma re la’, ou no caso do poema camoniano teríamos ‘fo go quear de’ para ‘fogo que arde’. Pelo mesmo motivo separamos ‘do’ de ‘er’ em ‘doer’.

Outro costume é diminuirmos a intensidade do som nas últimas sílabas, desde que não sejam tônicas. Praticamente transformamos as átonas finais em silêncios, algo como ‘não se sen’ em ‘não se sente’ e ‘des con ten’ em ‘descontente’. Empreguemos esses dois fenômenos naturais da fala na divisão do poema do seguinte modo: liguemos as vogais próximas, como descrito acima, e ignoremos as últimas sílabas de cada verso quando átonas:

A mor é fo go quear de sem se ver
É fe ri da que dói e não se sen
É um con ten ta men to des con ten
É dor que de sa ti na sem do er

Observemos, por fim, de que forma estão distribuídas as sílabas tônicas pelos versos:

Primeiro verso: 2ª, 3ª, 4ª, 6ª, 8ª e 10ª;
Segundo verso: 1ª, 3ª, 6ª, 8ª e 10ª;
Terceiro verso: 1ª, 6ª e 10ª;
Quarto verso: 1ª, 2ª, 6ª, 8ª e 10ª.

Notemos que as sextas e décimas sílabas de todos os versos são tônicas, pois são elas que seguram o ritmo do poema. Isto é a métrica: uma marcação simétrica das sílabas tônicas para configurar um ritmo uniforme pelo poema. E se as sílabas dão o ritmo, os sons individuais de cada letra compõem a melodia. Reparemos nas repetições dos motivos ‘d’, em ‘arde’, ‘ferida’, ‘dói’, ‘descontente’, ‘dor’, ‘desatina’ e ‘doer’; e ‘t’, em ‘contentamento’, ‘descontente’ e ‘desatina’; e ainda ‘em’ ou ‘en’, em ‘sem’, ‘sente’, ‘contentamento’, ‘descontente’ e de novo ‘sem’. Essa é a melodia de Camões.

E a métrica não se limita aos círculos eruditos. Sempre que houver musicalidade em um poema, com certeza acompanhará alguma métrica. Vejamos a letra Vai trabalhar, vagabundo, de Chico Buarque, um compositor popular:

“Vai trabalhar, vagabundo
Vai trabalhar, criatura
Deus permite a todo mundo
Uma loucura. […]

“Pode esquecer a mulata
Pode esquecer o bilhar
Pode apertar a gravata
Vai te enforcar.”

Se a dividirmos e marcarmos como fizemos com o soneto camoniano, teremos isto:

Vai tra ba lhar va ga bun
Vai tra ba lhar cri a tu
Deus per mi tea to do mun
U ma lou cu

Po dees que cer a mu la
Po dees que cer o bi lhar
Po dea per tar a gra va
Vai teen for car

Nos três primeiros versos de cada estrofe temos a incidência das primeiras, quartas e sétimas sílabas serem tônicas; enquanto nos quartos versos as primeiras e quartas sílabas soam mais fortes. Não podemos acusar Chico Buarque de ser um catedrático, porque ele somente usou de uma marcação orgânica da fala para acentuar o ritmo tão necessário à sua composição.

E ainda mais populares são os compositores de cordéis. Muitos deles, inclusive, têm tanto mais ritmo que os poetastros à solta pelo país. Isso prova que as ditas “regras” não são um sistema imposto, e sim uma ocorrência orgânica na composição de poemas. Desse modo podemos ver o estado atual do Modernismo com outros olhos; avistamo-lo menos como a defesa de uma poesia livre e mais como uma separação de sua origem. Pagamos hoje o preço disso: é certo que a poesia atual é livre (qualquer um pode escrever um poema e geralmente o faz), no entanto se tornou um gênero sem identidade.

Segue como último exemplo as estrofes iniciais do cordel História completa de Lampião e Maria Bonita, escrito por Rouxinol do Rinaré e Antônio Klévisson Viana. As tônicas com frequência caem sobre as terceiras ou quartas sílabas, e depois sobre as sétimas. O instinto para a métrica (o ritmo) permite aos autores saber até quando usar ‘para’ ou sua contração, o ‘pra’, nos momentos mais adequados a cada um:

“Nosso Deus Onipotente
Traga-me a luz infinita
Para buscar na memória
Minha pena precipita
E busco a inspiração
Pra falar de Lampião
Com sua Maria Bonita.

“De modo particular
Meu gênio poético quis
Nestes versos relatar
A sina um tanto infeliz
Do bravo cabra da peste
O qual viveu no Nordeste
Aqui no nosso País…”

Nos so deus ni po ten
Tra ga mea luz in fi ni
Pa ra bus car na me
Mi nha pe na pre ci pi
E bus coa ins pi ra ção
Pra fa lar de lam pi ão
Com su a* ma ria bo ni

De mo do par ti cu lar
Meu nio po é ti co quis
Nes tes ver sos re la tar
A si na um tan toin fe liz
Do bra vo ca bra da pes
O qual vi veu no nor des
A qui no nos so país

E saibamos que, a não ser que sejamos professores ou estudantes de literatura, é desnecessário atentarmo-nos para classificações tais redondilha maior (versos de sete pés – que terminam na sétima sílaba poética), redondilha menor (de cinco pés ou sílabas poéticas) e versos alexandrinos (de doze pés). Para nós leitores basta sabermos identificar o ritmo dos poemas e reconhecer o esforço dos autores.

* Sílabas compostas por uma vogal tônica acompanhada de uma átona têm separação variável conforme cada falante. Pode-se tanto falar “Ma-ri-a” quanto “Ma-ria”, porque esse ‘i’ é tônico e está seguido pelo ‘a’ átono, ou seja, pronuncia-se o ‘i’ mais fortemente do que o ‘a’.

Veja também este exercício de tradução de Emily Dickinson para saber mais.

7 comentários Adicione o seu

  1. AADÃO DE SOUSA LINA disse:

    DEUSA DAS CIÊNCIAS.
    Alguns acham que é Deus:
    Por ela ser tão perfeita,
    Semelhança, no entanto
    Só ciência rarefeita;
    Deus um ser incomparável,
    Igualar, mente estreita.

    Falando da matemática;
    Quase tudo neste mundo
    Têm base portanto número,
    Desde manhã no segundo
    Do trabalho vem dinheiro
    Com ela sou bem profundo.

    Arte, música, poesia.
    Projeto, engenharia
    E no comércio também;
    Útil na agronomia.
    Cálculos indispensáveis
    Cuidado desarmonia.

    DEMPARASO/
    ADÃO SALINA

  2. Soraya cordovil disse:

    A forma como fora explicada essa particularidade da língua portuguesa, fez com que um assunto complexo. se tornasse de fácil compreensão.Obrigada!

    1. Eu que agradeço pelo comentário.

  3. Thiago Mácimo disse:

    Há tempos eu procurava uma explicação concisa e confiável sobre o assunto. Esta me satisfez em ambos os quesitos; não poderia dizer o quanto estou grato. Parabéns.

  4. Renan Pereira disse:

    Excelente explicação. Gosto de escrever, mas consciente do meu amadorismo. Agora, seu texto deu um norte expressivo para melhorar um pouco.
    Muito bom!

  5. majotex2 disse:

    Para mim as explicações expendidas sobre o tema da poesia são completas nomeadamente quanto à rima e quanto à métrica e aos estilos. Gostei muito.
    Há por aí poetas de pacotilha insensíveis ao ritmo, à métrica e à rima…

  6. Excelente. Desde o ensino médio que eu não entendia nada disso.

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