A Montanha Sagrada, de Alejandro Jodorowsky

A Montanha Sagrada (La Montaña Sagrada / The Holy Mountain, 1973), de Alejandro Jodorowsky, é um dos filmes mais atípicos que o espectador terá oportunidade de ver. E é também Cinema em sua mais pura forma, realizado através do poder da imagem, do mesmo modo que 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968, de Stanley Kubrick) deixa de ser uma história e transforma-se em algo maior, numa experiência quase sobrenatural.

Depois de conseguir a atenção do público alternativo com El Topo (1970), Jodorowsky contou com o apoio de figuras notáveis como os beatles George Harrison e John Lennon nesse seu projeto espiritual-cinematográfico, além do suporte financeiro de Yoko Ono e do próprio Lennon. O filme, de um modo geral, é sobre purificação, descoberta da verdade por trás das aparências e, por fim, a constante busca pelo aprimoramento do espírito.

O filme é estranho, muito estranho, e isso não negarei. Especialmente porque pouco nele é explicado, o mais é choque, livre associação e reflexão. A Montanha Mágica é riquíssimo em simbolismo das mais variadas origens; a quem quiser se aprofundar no assunto, recomendo esta série de postagens (em inglês), pois aqui não pretendo entrar em detalhes.

Posso afirmar que sua estranheza recompensa, nem que seja pela experiência. Garanto que muitas das imagens ficarão gravadas durante um longo tempo na memória, gostes ou não da obra. Jodorowsky tem o mesmo zelo de criar imagens marcantes que em seus estudos de exoterismo, zen budismo, alquimia e tarot. Inclusive, ele é responsável por ajudar na restauração imagética do Tarot Camoin.

Esse sentido de purificação é abordado já na abertura do filme, quando são mostradas duas mulheres vestidas como Marilyn Monroe. O alquimista, o próprio Jodorowsky, então as despe, remove a maquiagem e as joias, e raspa seus cabelos. Tudo isso feito como um grande ritual e cheio de simbolismo.

The Holy Mountain (opening)

Depois dos créditos iniciais encontramos o protagonista (Horacio Salinas), um ladrão sósia de Cristo. Junto a ele estão duas cartas do Louco (Le Mat em francês, ou The Fool em inglês), o primeiro dos arcanos do Tarot. A sequência desses arcanos pode ser vista como o roteiro para uma jornada espiritual, que começa com o Louco, o indivíduo completamente desvinculado do mundo, até o arcano do Mundo (Le Monde, The World), que representa a perfeita união dos aspectos espirituais, intelectuais, emocionais e sexuais no ser humano.

E o ladrão aparece com uma rosa branca em sua palma, como é representado no tarot de Rider-Waite, portanto podemos dizer com alguma segurança que esse personagem é como o Louco que terá de enfrentar uma jornada de conciliação com o universo. Isso acontecerá quando ele escalar a Torre (La Maison Dieu, The Tower, outra referência aos arcanos), um lugar de mudança e revelação.

The Holy Mountain (tower)

Antes, o ladrão percorre um longo caminho pelas ruas da cidade, onde se depara com cenas que o diretor usa para criticar alguns males de nossa civilização: o esvaziamento de sentido da religião, a violência e banalização da mesma, etc. São tantas cenas chocantes que fica difícil escolher aquela que melhor represente esses minutos iniciais de projeção, mas creio que o momento mais provocante é aquele em em que manifestantes são executados pela polícia, para o deleite dos turistas presentes, então um dos policiais estupra uma das turistas enquanto seu marido filma tudo com grande divertimento. Além disso, é por aí que acontece também a icônica encenação com sapos e camaleões da conquista espanhola da América.

The Holy Mountain (toad)

Em seguida enfim ocorre o encontro do ladrão com o alquimista, de novo interpretado por Jodorowsky. Lá ele passa por vários processos de purificação, entre eles um em que suas fezes são transformadas em ouro, para ensinar-lhe uma lição:

“You are excremet. You can change yourself into gold.”

The Holy Mountain (purification)

O ladrão é aceito como discípulo junto com um grupo de pessoas, descritas como as pessoas mais poderosas do mundo. Elas são mostradas uma a uma em seus ambientes de origem, cada uma relacionada a um planeta e com características próprias de seu planeta. Por exemplo, Isla (Adriana Page ) tem Marte como planeta e sua ocupação é fabricar armas. E Axon (Richard Rutowski), de Netuno, tem a minha fala favorita:

“Your sacrifice completes my sanctuary of one thousand testicles”.

The Holy Mountain (testicles)

Essa segunda parte do filme muda bastante o tom do filme, pois antes o choque das imagens era dramático, enquanto agora torna-se até cômico. O grupo é instruído a destruir suas posses e destruir a imagem que cada um tem de si próprio para que todos possam se tornar um e assumirem a imortalidade na Montanha Mágica.

The Holy Mountain (burning)

A terceira parte é o trajeto deles até a Montanha. No caminho eles participam de vários rituais a modo de alcançarem a sabedoria e são confrontados com as tentações de todos que abandonaram o objetivo e com seus maiores medos.

The Holy Mountain (rituals)

O final, contudo, é para mim o momento verdadeiramente desapontador do filme. A construir dentro do espaço cinematográfico uma jornada espiritual, Jodorowsky não tem como terminar um filme de forma que seja coerente com toda a mensagem anterior da obra. Não há como cumprir a promessa porque descobri-la impraticável faz parte do aprendizado dos personagens e dos espectadores, que acompanhamos e fomos instruídos durante todo o percurso. O que resta, afinal, é a vida que vai além dos 114 minutos de projeção.

Muitos classificam A Montanha Sagrada como cinema surrealista, porém não a consideraria plenamente como tal. É certo que tem sua inspiração e aparência surrealistas; ainda assim, parece mais o resultado de reflexão do que apenas de imaginação. Ali os símbolos têm sentido, embora nem sempre compreendidos, enquanto boa parte do surrealismo volta-se para o estranhamento pelo estranhamento.

Não é um filme para todos. Aliás, imagino que a maioria das pessoas a quem eu indicasse desistiria antes da metade. De todo modo, fica aqui minha recomendação caso queiras ter uma experiência única em cinema.

Ficha técnica:
Título: A Montanha Sagrada / La Montaña Sagrada / The Holy Mountain;
Direção: Alejandro Jodorowsky;
Elenco: Alejandro Jodorowsky, Horacio Salinas, Adriana Page, Richard Rutowski, Juan Ferrara…;
Roteiro: Alejandro Jodorowsky ;
Cinematografia: Rafael Corkidi;
Edição: Federico Landeros;
Música: Alejandro Jodorowsky, Don Cherry, Ronald Frangipane;
Produção: Robert Taicher;
Ano: 1973;
País: México, Estados Unidos;
Gênero: Drama, Experimental.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *