A Noite dos Mortos-Vivos, de George Romero

Night of the Living Dead, além de primeiro longa de George A. Romero, é um paradigma para os cineastas independentes, mesmo décadas após o seu lançamento.

Pontos principais:

  1. É uma das produções independentes mais bem sucedidas do cinema;
  2. Sedimentou a base para as histórias de zumbis como então as conhecemos;
  3. Ainda é uma grande influência para os filmes de terror;
  4. Apesar da usual simplicidade do gênero, a construção da tragédia é quase aristotélica;
  5. Tem um final surpreendente e aterrador;
  6. Está em domínio público e pode ser baixado no Internet Archive ou visto no YouTube.

O diretor: George Romero (1940-) é um realizador norte-americano e um dos mestres dos filmes de terror, mais conhecido por seus trabalhos com a temática dos zumbis, ainda que inicialmente não os tenha denominado assim.

A narrativa: Em uma pequena cidade nos Estados Unidos são registrados vários ataques súbitos de mortos-vivos. Um grupo de desconhecidos encontra abrigo em uma casa abandonada e é forçado a enfrentar tanto as ameaças externas quanto as desavenças internas para, quem sabe, sobreviverem até a manhã seguinte.

O filme: O grande sucesso deste filme deve-se às dificuldades que seus realizadores encontraram ao fazê-lo. É certo que a limitação financeira dificultou a produção, mas a criatividade e a técnica nortearam o projeto e tornaram-no um marco para o cinema independente.

As primeiras soluções vieram no roteiro. Romero queria dirigir uma obra de terror, no entanto não conseguira levantar verba suficiente para estar a par com as produções da época. Sem dinheiro o bastante, cenários, maquiagens, vestes e inclusive o filme cinematográfico teriam de ser reduzidos à sua forma mais simples.

Daí surge a locação da história em um local remoto, distante dos centros urbanos e dos sets de estúdios. O que começou como uma improvisação se transformou em marca registrada do gênero: títulos como Uma Noite Alucinante – A Morte do Demônio (The Evil Dead), de Sam Raimi, e A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project), de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, são exemplos de repetição da fórmula: pessoas comuns presas em um sítio isolado enquanto assombradas por forças misteriosas.

Ainda no rol de improvisações, outras alternativas. Rodado em preto-e-branco para cortar gastos, Night… ganha com isso em clima e estética. Para a caracterização dos vivos e dos mortos-vivos foram utilizados elementos cotidianos: as próprias roupas dos atores (a maioria deles nunca atuara antes), a maquiagem básica que qualquer criança é capaz de inventar, o sangue é xarope de chocolate, até as vísceras humanas para as cenas de gore na verdade tratavam-se de pedaços de carne doados por um dos figurantes-zumbis que na vida real era açougueiro.

Night of the Living Dead 03
Com caretas e pó de arroz, qualquer um pode ser um zumbi.

A história, como resumida acima, é elementar. A projeção dá o tom de mistério já nas primeiras tomadas; enquanto a trilha sinistra toca ao fundo, acompanhamos vários planos de um carro em trajeto pelo interior dos Estados Unidos (uma bandeira bem posicionada informa-nos disso). Logo vemos dois irmãos em visita a um cemitério para deixar flores sobre o túmulo de seu padrasto, cenário por si bastante assustador.

"They're coming to get you, Barbara..."
“They’re coming to get you, Barbara…”

Em seguida um estranho ataca-os de súbito. A irmã (Judith O’Dea) consegue fugir e vai refugiar-se em uma casa abandonada. Lá ela encontra Ben (Duane Jones), um jovem casal e um casal mais velho com sua filha pequena, esta ferida. A narrativa começa, portanto, do final da tarde e estende-se até o raiar da manhã seguinte, mais ou menos segundo a estrutura de A Poética, de Aristóteles, só que ao invés de acontecer ao longo do dia, dá-se à noite.

Além disso, os três seguimentos (começo, meio e fim) são bem demarcados e seus personagens são razoavelmente aprofundados, repletos de dramas próprios, de desejos e de contradições. Não deixemos nos enganar pela simplicidade dos fatos narrados, pois eles têm significados mais profundos do que aparentam. Night of the Living Dead pode ser visto como crítica a uma sociedade alienada pela mídia e que se autoconsome; esse teor crítico foi desenvolvido pelo diretor na sequência Zombie – O Despertar dos Mortos (Dawn of the Dead). Este filme é algo mais do que um mero susto – o quê é o espectador quem definirá.

Uma massa de devoradores alienados.
Uma massa de devoradores alienados.

Nessa casa cercada por mortos-vivos a tensão cresce a cada minuto. De um lado temos uma ameaça real, de outro temos uma garota petrificada de pavor que não consegue ajudar, uma mãe temente por sua filha, dois jovens meio indecisos e dois homens em uma batalha de egos. Os conflitos internos aumentam o suspense e salvam o longa do superficialismo dos filmes de terror juvenis dos anos oitenta.

E é por meio da televisão que eles mantêm contato com o mundo exterior. Por ela descobrem a provável causa desse surto: radiação extraterrestre. Aliás, foi Romero quem definiu os zumbinismo como epidemia nas telonas, inspirado pela novela de Richard Matheson I Am Legend. Antes deles o caso era retratado somente como fenômeno espiritual restrito; exemplo: A Morta-viva (I Walked with a Zombie), de Jacques Tourneur.

Night of the Living Dead 05

Também pela televisão são informados de que para matar essas criaturas eles devem queimá-las (a palavra zumbi jamais é mencionada) e de que há centros de apoio espalhados pelo país, onde estariam em segurança. Chegar lá, no entanto, é o problema. Para isso eles precisam enfrentar os perigos externos e as divergências internas.

Mais do que terror e crítica, A Noite dos Mortos Vivos é uma sucessiva quebra de tabus. O primeiro deles recai sobre a escolha do único negro que aparece em tela para interpretar o herói, fato incomum para o cinema da época. A justificativa, segundo Romero, é lógica: Duane Jones teve melhores resultados nos testes do que os demais atores. A seguir vem a abordagem simbólica de temas desconcertantes para a sociedade: canibalismo, incesto, parricídio, entre outros tópicos inassimiláveis para os estúdios maiores. A soma das ações e do que elas podem representar fazem do filme uma experiência chocante.

Um exemplo de pai sustentando sua filha.
Um exemplo de pai sustentando sua filha.

O final é talvez a maior surpresa de toda a projeção; com certeza é a mais difícil de engolir. Não vale a pena revelá-lo aqui, mas quem tem alguma intimidade com os heróis das tragédias gregas já imagina o que o aguarda.

Ficha técnica:
Título: A Noite dos Mortos-Vivos / Night of the Living Dead;
Direção: George A. Romero;
Elenco: Duane Jones, Judith O’Dea, Karl Hardman, Marilyn Eastman, Keith Wayne, Judith Ridley…;
Roteiro: John A. Russo, George A. Romero;
Cinematografia: George A. Romero;
Edição: Brian Huckeba;
Música: Scott Vladimir Licina;
Produção: Karl Hardman, Russell Streiner;
Ano: 1968;
País: Estados Unidos;
Gênero: Terror, Ficção científica.

2 comentários Adicione o seu

  1. Jacques disse:

    E eu que ainda não assisti a esse clássico do terror universal…
    Indubitavelmente, George Romero deu ao mundo uma nova visão de um gênero até então ignorado…
    E o que o restante dos cineastas fez foi imitar sua obra até a exaustão, ao invés de aprender com ela.
    Valeu.

    1. Olá, Jacques! Muito boa colocação… E aproveita que este filme, assim como outros clássicos do terror, estão disponíveis no Youtube, inclusive em HD. Eis o link: http://www.youtube.com/classicosuniversais#p/f/5/85C2JnZOY4k. Lá tem até uma versão comicamente colorida.
      Um abraço!

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