A outra volta do parafuso, de Henry James

A grande questão de A outra volta do parafuso  (The turn of the screw), conto escrito por Henry James em 1898, não diz respeito a qualquer impenetrabilidade do assunto ou da linguagem, mas se resume a perguntar-nos se a história é essencialmente fantasmagórica vista por uma ótica psicológica, ou se é essencialmente psicológica sob um disfarce fantasmagórico.

Dito isso, o Classicista adotará a postura de não defender quaisquer lados da polêmica. Antes trabalhará ambas as hipóteses. Logo, adianta sua conclusão: Henry James é um exímio autor de tramas psicológicas e um inepto como autor de histórias. Espera o Classicista apresentar argumentos suficientes para as duas afirmações.

Não faltará ao leitor textos dedicados à obra, todos bastante exaltados na defesa das próprias ideias. Para ter-se uma noção dessa longa pendenga, fica como sugestão este sítio, bem como este outro.

A outra volta do parafuso se resume a: uma senhorita (sem nome), criada sob forte influência religiosa e de origem humilde, é contratada por um cavalheiro de bom porte para cuidar de seus sobrinhos com a condição de jamais incomodá-lo. Cativada pelo charme do tio, ela parte para uma mansão no campo onde encontra a Sra. Grose – uma cozinheira e sua confidente –, além de Flora e Miles, estas duas as crianças. Aparições de fantasmas para cá, paranoia para lá, ninguém sabe exatamente o que acontece e o fim é trágico.

Por que interpretar a história como um mero conto de fantasmas? Porque o autor assim o disse, ou deu indícios de o ser. Segundo James, The turn of the screw não tinha a intenção de ser mais do que um Código da Vinci de nossa época, um entretenimento barato. Ademais, e justamente por ser um tipo de entretenimento barato, nenhum personagem possui um nível de profundidade suficiente para que separemos quem está são ou não. Se nos fiarmos somente nos fatos, então os fantasmas são reais.

E por que interpretar a história como uma trama psicológica? Por dois motivos principais: o histórico de Henry James e a forma como foi escrita, que permite essa leitura. Henry não por acaso compartilha o sobrenome de um dos fundadores da Psicologia moderna, William James. Quanto à escrita, basta dizer que os acontecimentos são narrados pela personagem que afirma ver os fantasmas, sem que ninguém dê certeza às suas visões. A narrativa em primeira pessoa é mãe de todas as desavenças entre os estudiosos de literatura.

A confusão é tamanha que o próprio Classicista imaginara a seguinte teoria: devido à sua cultura religiosa e arrebatada por um homem que não tornará a ver, a senhorita adquire essa psicose na qual aparecem “demônios” para atormentarem seus “anjinhos”, seus “inocentes”, em Bly. No entanto, esses “demônios” são só uma parte de suas projeções mentais. O menino Miles e o fantasma de Peter Quint representam a dualidade do tio, encantador porém mulherengo. A senhorita sente-se presa ao tio, mas depois de abandonada quer ora prendê-lo também.

Já a menina Flora e a fantasma de Miss Jessel seriam representações de si. Uma é aquilo que ela gostaria de ser, outra é aquilo no que ela teme tornar-se. Quando a segunda passa a apossar a primeira, a senhorita trata de desfazer-se de Flora. Isso porque, de acordo com essa teoria maluca, a senhorita deseja ficar a sós com o homem que ama e deseja ficar com ele para sempre, sem correr o risco de ser novamente abandonada. Dispor-se-ia assim o fantasmagórico como projeção inconsciente, influenciado por um terceiro e importante fator, o religioso.

Agora, por que exímio e por que babaca? Exímio, pois se sua intenção era de fato constituir um drama psicológico, acertou em cheio na estruturação do texto. Se não aceitamos os fantasmas como reais, ficamos tão perdidos quanto a protagonista. Essa é uma leitura perfeitamente aceitável do modo como o conto foi escrito. E inepto, sim inepto, pois se o objetivo era escrever algo que não psicológico, Henry James deu-nos o que havia de pior em toda a história e silenciou seus detalhes mais interessantes, como as origens dos demais personagens, suas motivações, a verdadeira natureza das relações de Quint com Jessel, dos porquês da liberdade de Quint e como foi a morte desse homem, se natural ou criminosa, enfim, tudo aquilo que nos questionamos ao ler A outra volta do parafuso e ficamos sem resposta. É como se o autor tivesse uma envolvente história em suas mãos, mas na pressa de publicá-la revelou um simples resumo da mesma.

Se o conto serviu de algo, pelo menos resultou num dos melhores filmes de suspense que o Classicista já teve o prazer de ver. Mais do que recomendável é Os inocentes (The innocents, de Jack Clayton, 1961), com Deborah Kerr no papel da senhorita.

E o leitor o que pensa de A outra volta do parafuso? É inclinado a tomar algum partido na polêmica ou prefere abster-se? Sobretudo, gostou da obra?

Sugestão: A outra volta do parafuso, tradução de Paulo Henriques Britto, pela Penguin Companhia das Letras, 200 pg. O posfácio é bastante instrutivo.

3 comentários Adicione o seu

  1. ahm…. pra que esta vontade de rotular antes para decidir se é bom ou não depois?

    1. Leonardo,

      Nada decido senão no âmbito pessoal. Assim, é minha opinião que esta obra não faz jus ao seu status, mas ficarei muito contente se surgirem opiniões diversas. Para mim a leitura transcorreu sem problemas, tanto quanto permitiu a temática, e não considero um tempo perdido. Um texto que suscita reflexões nunca é um tempo perdido, concordas? Minha única decisão foi a de não levar o conto tão a sério.

      E dize: diferes das minhas ideais ou não aprecias o modo como as expus? Como te expressas a respeito dA outra volta do parafuso?

  2. Regina Celia Gomes disse:

    Estou de total acordo com o Sr Christian von Koening, o autor tinha uma história e tanto nas mãos,mas, deixou escapar detalhes preciosos para tanto. Ficou para nós, os leitores e/ou os espectadores escolher a interpretação do mesmo. Agora, que é uma obra que nos prende é verdade. Deixou-me um pouco sem sono tentando interpretá-la, como também com medinho hahahaha.

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