A Paixão de Joana d’Arc, de Carl T. Dreyer

La Passion de Jeanne d’Arc, com a magnífica Maria Falconetti no papel principal, é um filme para se ter fé… em filmes.

Pontos principais:

  1. Dreyer atingiu a perfeição artística algumas vezes ao longo de sua carreira – a primeira ocasião foi com esta obra;
  2. O roteiro é baseado nos registros verídicos do julgamento;
  3. As lágrimas de Maria Falconetti;
  4. Se visto acompanhado por Voices of Light, de Richard Einhorn, é como viajar para outra dimensão.

Joana d’Arc não precisa de uma introdução extensiva. Todos sabemos que com uma existência de apenas 19 anos esta francesinha entrou para a história como guerreira, heroína nacional e santa. Sua trajetória foi adaptada aos vários meios artísticos, pois é muito natural que os artistas se apropriem de uma personagem assaz interessante e contribuam com as próprias visões para os fatos. Dessas adaptações a que mais chama atenção é La Passion de Jeanne d’Arc, filme dirigido por Carl Theodor Dreyer e lançado em 1928.

O que faz desta versão tão especial é o enfoque aplicado por Dreyer. Na Paixão jamais chegamos a ver Joana em seu traje de guerra, ou sequer seus feitos são mencionados ao longo da trama. Dreyer concentrou-se na dramatização dos episódios ocorridos no tribunal de Rouen e é aí que toda a ação acontece.

Esse foco na batalha pessoal – e espiritual – de Joana contra seus inquisidores é transmitido através da focalização das lentes, aqui conduzidas por Rudolph Maté, em uma das maiores concentrações de close-ups e reaction shots do cinema. A câmera raramente se afasta dos rostos dos personagens, mas também não permanece focada neles durante muito tempo. As tomadas apontam para muitas direções e não permitem que o espectador se identifique por completo com qualquer das figuras representadas, porque é disto que trata o filme: da dificuldade das pessoas compreenderem-se em questões que vão além da compreensão humana, tanto mais quando elas não concebem outras verdades além das suas.

Nesse ambiente sombrio somos apresentados não à Joana heroína nem à Joana santa, mas à jovem – pequena e frágil – perseguida por aqueles que não entendiam sua crença (até porque eram inimigos dela e dos Armagnacs na Guerra dos 100 anos). A ideia de confinamento é reforçada com a inclusão de quadros dentro do quadro cinematográfico.

Confinada entre as lanças inimigas.
Confinada entre as lanças inimigas.

No decorrer do julgamento conhecemos um pouco mais da fé de Joana e vemos os modos como seus opositores tentam derrubá-la. Esperar-se-ia que Dreyer ressaltasse a grandeza da protagonista ao focá-la com ângulos bem abaixo da vista, porém ele não se deixou cair em tais truques baratos. É comum que os cineastas mostrem seus personagens de baixo quando querem engrandecê-los. Não aqui; Joana acima de tudo foi humana e por isso o diretor limitou-se a mostrar seus close-ups apenas um pouco abaixou ou acima da linha dos olhos, conforme o momento do filme.

De outro modo, os cardeais são sim mostrados em um ângulo bastante inferior, porque estes detêm poder sobre a acusada.

Ângulo - A paixão de Joana D'Arc

A mártir ganha seu momento de grandeza justamente quando está prestes a completar seu martírio, já postada sobre o palco de sua morte.

Martírio - A paixão de joana d'arc

Contudo, a linearidade constante com que a protagonista é avistada tem um efeito sensibilizador sobre o público, porque olhamos diretamente nos olhos de Joana, compartilhamos seu sofrimento e bebemos cada uma de suas lágrimas. E porque, além da melhor atuação de todos os tempos, a sua beleza e jovialidade contrastam com a gasta carranca dos oponentes.

 Expressões - A paixão de joana d'arc

Para concluir, um primeiro aspecto digno de ser notado é o detalhamento das expressões faciais e a qualidade de imagem das mesmas. Isso foi possível graças ao desenvolvimento de uma nova tecnologia de filme, a pancromática, que continha uma maior sensibilidade às variações de luz. Compare-se a representação das atrizes em A Paixão e o excelente Aurora (Sunrise), de F. W. Murnau; uma é de fato uma pessoa, a outra mais parece uma boneca.

Jeanne d'Arc em comparação com A esposa, em Sunrise.
Jeanne d’Arc em comparação com A esposa, em Sunrise.

O outro aspecto é a atenção que Dreyer deu ao envolvimento popular (ou a ausência dele) durante o processo. Antes da execução, o povo é representado como simples cidadãos em uma feira a céu aberto, com direto a apresentações de equilibristas e engolidores de espadas. Depois é visto atônito e lamurioso quando as chamas engolem o corpo de Joana. Só depois de sua morte (“Vous avez brûlé une sainte!”, esbraveja um dos paisanos) é que se revolta e parte para cima dos ingleses, mas logo é violentado e escorraçado da praça pública.

 A paixão de joana d'arc povo

A mensagem final é clara: o que fazemos em vida, enquanto há tempo, é o que nos define; afinal, nós somos aquilo pelo que lutamos.

Após só restam os pós.
Após só restam os pós.

Dica: assistir a este filme com a trilha sonora composta por Richard Einhorn é uma experiência indescritível. Aliás, vale a pena escutar Voices of Light em qualquer ocasião.

Ficha técnica:
Título: A Paixão de Joana d’Arc / The Passion of Joan of Arc / La Passion de Jeanne d’Arc;
Direção: Carl Theodor Dreyer;
Elenco: Maria Falconetti, Eugène Silvain…;
Roteiro: Carl T. Dreyer, Joseph Delteil;
Cinematografia: Rudolph Maté;
Edição: Marguerite Beaugé, Carl T. Dreyer;
Ano: 1928;
País: França;
Gênero: Drama.

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