A Sétima Vítima, de Mark Robson

Um bando de garotas desce as escadas do colégio. Na contramão, outra garota sobe as escadas. Ela é Mary Gibson (interpretada por Kim Hunter, então com 21 anos na vida real, muito antes da sensualidade bestial de Um Bonde Chamado Desejo [A Streetcar Named Desire, 1952, de Elia Kazan]), que em breve receberá a notícia do desaparecimento de sua irmã, Jacqueline (Jean Brooks).

The Seventh Victim (opening)

A Sétima Vítima (The Seventh Victim, 1943), dirigido por Mark Robson e produzida por Val Lewton, é uma obra cheia de simbolismos, como se vê logo na abertura. Mary não poderá mais ser como as outras garotas, ela precisará amadurecer na busca por sua irmã e por isso ela se encontra numa contramão delas.

A garota parte para Nova York e começa a descobrir as peças desse quebra-cabeça. Todo o primeiro ato do filme é dedicado a apresentar os aliados de Mary, seus possíveis inimigos e, principalmente, criar o suspense em torno da personagem de sua irmã. Onde andará Jacqueline Gibson? E por que está com essa peruca estranha?

The Seventh Victim (Jacqueline)

E a situação torna-se ainda mais sombria quando Mary descobre um quarto alugado por sua irmã. Nele, encontra apenas uma cadeira e uma corda com laço de forca; de Jacqueline, nada.

The Seventh Victim (rope)

Seus próximos passos a levam a detetives enxeridos, homens ameaçadores, psiquiatras de moral duvidosa e até a um culto satânico comandado por pessoas próximas a ela. No meio disso tudo ainda sobre tempo para um quinteto amoroso digno de um poema drummondiano (Jason ama Mary, que ama Gregory, que ama Mary e era casado com Jacqueline, que fugiu com Dr. Judd, que roubara a amada de Jason).

De forma diferente de O Sangue da Pantera (Cat People, 1942) e A Morta-viva (I Walked with a Zombie, 1943), ambos de Jacques Tourneur, mais voltados para o terror, The Seventh Victim é um suspense sutil. Há poucas cenas de verdadeira adrenalina, ainda que boas, e a trama se desenvolve mais em torno da expectativa do que do perigo.

O diretor presta grande atenção aos detalhes para realçar determinados contextos da narrativa. Citarei aqui quatro exemplos, além do inicial.

Primeiro: numa das cenas de maior inquietação do filme, uma sombra é projetada contra as costas da protagonista. Essa sombra é na verdade um símbolo cuja importância será revelada ao longo da projeção. Toda a cena é interessante: as batidas do relógio quais batidas do coração, o tempo arrastado, a iluminação expressiva, as falas atrevidas, tudo isso contribui para a tensão.

The Seventh Victim (symbols)

Segundo: embora lute para ser aceita no mundo adulto, Mary ainda é vista como indefesa. Na lanchonete, enquanto Gregory (Hugh Beaumont) bebe seu café, ela fica com um copinho de leite.

The Seventh Victim (milk)

Terceiro: a seita satânica dos paladistas amontoada atrás de um cálice com veneno, como se atrás dele se escondesse, enquanto esse pequeno objeto separam esses indivíduos de Jacqueline.

The Seventh Victim (paladists)

Quarto: por fim, a perseguição a Jacqueline. Ela foge de seu perseguidor pelas ruas da cidade nos moldes da perseguição a Alice em Cat People. Sua fragilidade é reforçada em closes muito eficazes de seus passos, de pés pequenos e salto alto, e os do homem que vem logo atrás, com passadas largas e pesadas.

The Seventh Victim (chase)

Esse é o tipo de emoção em A Sétima Vítima, algo mais sutil e envolvente. Até porque, mesmo com um final capaz de surpreender os espectadores, o roteiro ainda opta por resoluções fáceis. Com uma simples menção ao pai-nosso, o “bem” consegue fazer o “mal” curvar suas cabeças. Pelo lado positivo, esse mesmo roteiro é cheio de falas certeiras e desafiantes.

Ficha técnica:

Título: A Sétima Vítima / The Seventh Victim;
Direção: Mark Robson;
Elenco: Kim Hunter,Jean Brooks, Tom Conway, Hugh Beaumont, Erford Gage, Isabel Jewell, Evelyn Brent…;
Roteiro: Charles O’Neal, DeWitt Bodeen;
Cinematografia: Nicholas Musuraca;
Edição: John Lockert;
Música: Roy Webb;
Produção: Val Lewton;
Ano: 1943;
País: Estados Unidos;
Gênero: Suspense.

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