A Trégua, de Mário Benedetti

A Trégua (La Tregua, 1960), do escritor uruguaio Mário Benedetti (1920–2009), é o retrato pungente de um homem que se tornou espectador da própria vida. Ao contemplar em seu diário o tempo que terá de sobra quando se aposentar, Martín Santomé encara o desespero do nada.

Martín tem quarenta e nove anos. Faltam-lhe poucos meses para que se aposente de seu trabalho burocrático; mesmo assim não vê o futuro com alegria, pois é justamente nessa vida pacata e monótona que estão as suas pequenas alegrias.

Fora do serviço ele é um homem solitário. Viúvo, é pai de três filhos (Blanca, Jaime e Esteban), mas com eles a sua relação é bastante conflituosa. Sua vida social consiste em dar voltas pela cidade e em observar o movimento nas ruas através das vitrines dos cafés. Esse vazio que ele sente é discutido ao longo da obra. A trégua a que o título se refere é uma trégua à falta de sentido e à falta um propósito que desperte a vontade.

“Tenho a horrível sensação de que o tempo passa e eu não faço nada, que nada acontece, que nada me comove de verdade. […] Me sinto com uma grande disponibilidade de energia, e não sei no que empregá-la, não sei o que fazer com ela.”*

Em seu diário, é constante a busca de Martín por algo mais. Seja nas suas reflexões sobre Deus, como:

“Talvez Deus tenha um rosto de crupiê e eu seja apenas um pobre-diabo no vermelho quando sai o preto, e vice-versa”,

e:

“Não posso admitir um Deus que seja uma grande Sociedade Anônima”,

ou seja em seus mergulhos no passado, na esperança de reconstituir sua vida com Isabel, a falecida esposa e mãe de seus filhos.

No entanto, a sua vida passa a ter sentido não ao reviver o passado, mas ao esperar algo melhor para o futuro. Tal mudança ocorre quando Martín se envolve com a intrigante Laura Avellaneda, vinte e cinco anos mais nova do que ele.

A Trégua é uma narrativa cruel sobre a falta de sentido que pode apossar-se das nossas vidas e, ao mesmo tempo, é uma introspecção espirituosa e cheia de sutilezas. Por fim, é a jornada de um homem no caminho da redenção de tudo quanto deixou de fazer. Porém, não é uma história convencional e vai além do “viveram felizes para sempre”, o que faz de A Trégua um livro triste, emocionante e bel como poucos.

*Tradução de Pedro Gonzaga para a edição da L&PM.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *