A Última Gargalhada, de F. W. Murnau

A última gargalhada (The Last Laugh / Der letzte Mann, 1924) pode não ser um filme muito conhecido ou sequer o mais famoso de seu realizador, Murnau, responsável por obras como Nosferatu (Nosferatu – eine Symphonie des Grauens, 1922) e Aurora (Sunrise, 1927), mas certamente este filme é um marco para o Cinema e para o desenvolvimento de uma linguagem cinematográfica propriamente dita.

Em termos de história o filme é bastante simples. Conta o causo do porteiro de um refinado hotel que devido à idade já avançada é retirado da portaria para trabalhar como atendente nos lavatórios. Com isso seu mundo desaba, pois sua posição e seu uniforme lhe garantiam o respeito dos outros, em especial no conjunto habitacional onde reside. Para fingir o status de outrora, o ex-porteiro furta seu antigo uniforme; no entanto a mentira não dura por muito tempo, logo a notícia se espalha e sua moral é arrasada de vez.

Esse é um dos finais do filme, já que se dá ao luxo de apresentar ainda um segundo. No meio disso, é claro, intercalam-se outras situações: o casamento de sua filha, que o deixará só, o burburinho da cidade, as desavenças entre classes, além de todos os sonhos e pesadelos do porteiro, ou seja, seu conteúdo mental exteriorizado. E vale ressaltar que tudo isso é contado sem dizer uma só palavra, haja vista ser um filme mudo.

Se A última gargalhada limitasse-se a narrar a história, tal qual a resumi, através de um modo convencional pelo qual se fazia o cinema mudo, é provável que não resultasse em uma obra tão grandiosa. O que faz deste filme tão bom é sua capacidade de se desenvolver por meio de uma linguagem completamente imagética e fluida, distante do didatismo literário e da estaticidade da moldura teatral.

Para isso contribuem duas escolhas fundamentais: a abdicação dos letreiros explicativos (só vemos letras impressas em tela durante três ocasiões: nos créditos, em uma carta e na apresentação do final alternativo, portanto nada de diálogos transcritos) e a cinematografia ousada de Karl Freund. Murnau e Freund não foram os primeiros a utilizar os movimentos de câmera – dolly, tracking, pedestal… – mas A última gargalhada foi a primeira grande produção a transformar as lentes em personagens tão vivos quanto os atores em cena.

Muito se fala a respeito de como os realizadores teriam conduzido a câmera, em carrinhos de bebê, em bicicletas ou cadeiras de rodas, o certo é que eles fizeram um trabalho incrível. Desde o primeiro plano, uma descida pelo elevador, então um movimento para frente, até encontrarmos o protagonista, notamos o arrojo dessa produção de 1924.

Na figura abaixo temos um exemplo de quão surpreendentes podem ser esses movimentos. Começamos com um plano fechado na abertura de uma corneta (ou de um trompete ou clarim, quem conseguir identificar poderá ajudar nos comentários) e a seguir a câmera parece flutuar para trás, até chegar à posição onde cremos ser a janela de quem ouve o som desse instrumento.

The Last Laugh traveling

Outro aspecto da obra que impressiona é o cuidado na construção dos sets. Da trivialidade do conjunto habitacional à intensa movimentação nos arredores do hotel, tudo é representado com cuidado: iluminação, objetos, infraestrutura, veículos, extras… A curiosidade fica por conta dos letreiros escritos em Esperanto.

The Last Laugh sets

De volta à história, logo imergimos nela graças à mencionada fluidez da câmera e à ausência de intertítulos. Além disso, confiamos inteiramente na visão de Murnau e na interpretação do experiente ator de teatro Emil Jannings, que trabalhou em outros projetos do mesmo diretor e com este ganhou acesso a Hollywood, onde foi o primeiro ator a ganhar um Oscar em sua categoria.

Até o desfecho do primeiro final, Murnau apresenta-nos o drama com franqueza. As ações dos personagens são pensadas, os planos costumam mostrar o todo da imagem, exceto quando a tensão da cena requer que a câmera se aproxime para ressaltar uma determinada expressão ou manifestação interior, como os temores ou as ilusões do porteiro.

The Last Laugh close up

A última gargalhada é, sobretudo, um filme psicológico, posto que contenha um subjetivismo assaz evidente. Boa parte da ação se passa apenas na mente de nosso decadente herói. A certa altura da projeção, tomado de terror ele imagina um edifício desabar sobre si. Depois, quando se vê humilhado por ter perdido o uniforme – logo, sua distinção – e não poder mais desaparecer sob a fachada de uma instituição, assunto bastante sério para o público alemão do pré-guerras, então materializa risos de escárnio por todos os lados.

The Last Laugh laughs

No auxílio à narração, a montagem é ainda o maior recurso. Como ilustração, tomemos a cena na qual é espalhado pelas vizinhas o cochicho de que o porteiro agora trabalha nos lavatórios. Na imagem abaixo temos dois quadros independentes e separados por um corte seco – uma pessoa fala, outra escuta, não necessariamente o mesmo assunto. Poderiam esses dois quadros ser tirados até de dois filmes diferentes, mas no contexto da montagem desta cena eles se unem da mente do espectador: uma vizinha fala algo, a outra ouve o mesmo o que esta falou, a fofoca então passa de pessoa a pessoa.

The Last Laugh montage

O último comentário é a respeito do final, ou dos finais. O primeiro era o pretendido pelos realizadores; o segundo, pelos produtores. Murnau e seu roteirista, Carl Meyer, irritados pela imposição comercial do estúdio, decidiram inserir um final feliz completamente destoante do resto da obra, como se desejassem com isso reduzir a credibilidade deste. Esse segundo final é aparece mais como uma crítica e menos como uma solução para a história.

Se quiseres parar de assistir ao filme já no final pretendido, nada perderás. Somente te prepara: A última gargalhada está longe de terminar com um sorriso.

The Last Laugh lights

Ficha técnica:
Título: A última gargalhada / The last laugh / Der letzte Mann;
Direção: Friedrich Wilhelm Murnau;
Elenco: Emil Jannings, Maly Delschaft, Max Hiller, Georg John, Hans Unterkircher…;
Roteiro: Carl Mayer;
Cinematografia: Karl Freund;
Edição: Elfi Böttrich (nova versão);
Produção: Erich Pommer;
Ano: 1924;
País: Alemanha;
Gênero: Drama.

 

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