Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley

Admirável Mundo Novo (Brave New World) é, ao mesmo tempo, a projeção de tudo quanto somos e de tudo que não queremos ser. Neste livro, publicado em 1932, Huxley força-nos refletir para além do horror do que nos é imposto, mas daquilo que escolhemos para nós.

Lê também: 1984, de George Orwell. E: Orwell versus Huxley, um duelo de distopias.

Como distopia, Admirável Mundo Novo é muito mais complexa do que 1984; como literatura, muito mais refinada. Seu autor projeta uma sociedade profundamente hedonística e entorpecida no distante ano de 632 a.F. (after Ford, ou depois de Ford, em homenagem a Henry Ford, um trocadilho com a palavra Lord, ou Senhor, portanto Deus), que corresponderia no calendário gregoriano ao ano de 2540 d.C. Essa é uma nova era, onde o Homem evoluiu a ciência a ponto de ela o recriar.

Muito da ciência que encontramos em Huxley e não em Orwell se deve à criação daquele. A família Huxley é notória por ter sido berço de diversos cientistas e educadores; Andrew, irmão do escritor, inclusive ganhou um Nobel, em 1963, na categoria Fisiologia ou Medicina. O próprio Aldous desde cedo se interessou pela ciência, sobretudo pela Biologia e por aspectos da Psicologia relacionados ao condicionamento humano. Esses interesses logo refletiriam em sua carreira literária.

Admirável Mundo Novo apresenta seu universo através de um artifício bastante interessante. Antes de nos focarmos em qualquer personagem, a história se desenvolve por meio de uma visita guiada de estudantes ao Centro de Incubação e Condicionamento de Londres, local onde os seres humanos são desenvolvidos segundo o modelo de produção fordiana. Ou talvez sequer os possamos chamar de verdadeiramente humanos, posto que produzidos dessa maneira.

Portanto primeiro somos introduzidos à sociedade, para somente depois conhecermos melhor alguns de seus componentes, como Lenina, Bernard, Helmholtz… Isso nos dá uma informação importante – ademais de coerente – a respeito do funcionamento desse novo mundo: a sociedade vem antes do indivíduo e este só existe para que ela permaneça.

A visita continua e lemos, com certo espanto, que as pessoas passaram a ser feitas sem a necessidade da fecundação ou proteção familiar. Ora as máquinas se encarregam disso. E, não obstante, cada ser é produzido para ocupar uma determinada posição na sociedade, ou seja, é condicionado química e psicologicamente para tornar-se uma simples peça de reposição nas engrenagens desse Estado global.

Exato, não há mais Estados, há um único que controla o mundo inteiro. E como conseguiu essa façanha? O livro não o responde por completo, mas imaginamos ter sido um processo lógico e até benquisto pela humanidade. Afinal, nesse admirável mundo novo o Estado obteve a maior das proezas: manter seus cidadãos em perpétuo estado de felicidade, conquanto o fizesse por métodos não muito honrados.

Antes e logo após nascer, cada cidadão é condicionado para ser feliz na posição à qual foi destinado a ocupar. Se foi escolhido para trabalhar em fábricas, só se contentará com isso e nada mais desejará para si. Se foi destinado a ser líder, na liderança encontrará satisfação e desprezará as classes inferiores. Esse condicionamento se dá por interferências ainda no período de gestação mecânica e por meio de educação inconsciente, em uma extensão dos experimentos pavlovianos.

“- E esse, acrescentou sentenciosamente o Diretor, é o segredo da felicidade e da virtude – gostar daquilo que se tem de fazer. Este é o propósito de todo o condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social do qual não podem escapar” (na tradução de Felisberto Albuquerque).

Apesar desse clima de exultação, nós recuamos diante da ideia de um mundo onde as pessoas são felizes não por vencerem as adversidades, mas por permanecerem em um estado de entorpecimento diante da realidade. Toda a estabilidade do Estado global deve-se ao uso indiscriminado – e mesmo incentivado – do soma, uma substância que transporta seus usuários para um paraíso de emoções fantásticas, bem distante da vida real. “Cristianismo sem lágrimas”, como conta um dos personagens.

Além do soma, há outros dispositivos de satisfação: o cinema sensível, um exemplo da arte mais trivial e efêmera que evoca os sentidos, não o pensamento; os jogos recreativos; os passeios de helicóptero; a liberalidade sexual. Pois em uma sociedade onde a família foi abolida – as palavras pai e mãe são tratadas como obscenidades –, justamente para que o Estado mantenha a estabilidade social, vigora o imperativo da livre circulação sexual, de modo que todos se mantenham satisfeitos e não tenham a intenção de alterar o curso dos acontecimentos.

Ainda assim, como em 1984, Huxley admite a possibilidade de uma consciência política no indivíduo. Enquanto Winston Smith defende o direito de ter prazer e de poder dizer o que é certo e o que é errado, Bernard Marx, o protagonista de Admirável Mundo Novo, luta pela liberdade de ser infeliz e de afirmar que o certo e o errado são muito mais complicados do que parecem. Somente depois descobrimos que suas motivações são menos nobres e menos revolucionárias do que as de Winston. Seu desajuste é mais físico do que psicológico.

Quando já nos inteiramos de todos os meandros dessa distopia, ocorre a grande virada da história e o autor passa a impor-nos mais perguntas e a fornecer menos respostas. Bernard e Lenina, sua parceira sexual do momento, visitam uma aldeia selvagem (lar dos últimos humanos, onde se reproduzem como hoje nos reproduzimos, onde ainda existem laços como família, casamento, paternidade… enquanto vivem em meio à miséria, à imundície e a doenças) e encontram Linda, acompanhada de John, seu filho.

Linda há muito fora uma cidadã do mundo igual a Bernard e Lenina, porém em uma expedição à reserva dos selvagens ela se acidentara e acabara por ficar ali presa por quase vinte anos. Nesse meio tempo dera a luz a John, com o auxílio de um dos selvagens, à moda antiga. Seu filho é talvez a criatura mais exagerada e fascinante do livro, porque surge como um último elo entre a velha humanidade, quase primitiva, e a nova, bastante surreal.

Tudo que John aprendeu sobre a sociedade, sobre a vida e as pessoas veio das obras de Shakespeare, tanto porque na reserva era considerado um forasteiro, quanto por ter aprendido a ler com as peças do Bardo. Ele e sua mãe são então trazidos à modernidade com a ajuda de Bernard. Suas primeiras palavras de espanto diante desse novo mundo são em citação a A Tempestade (The Tempest):

“Ó, maravilha!
Que adoráveis criaturas aqui estão!
Como é belo o gênero humano!
Ó admirável mundo novo
Que possui gente assim!”

É claro que, do mesmo modo que a fala de Miranda na peça é extremamente irônica, há bastante ironia na declaração do Selvagem (John, como seria divulgado pelos noticiários). O que de fato ele encontra no novo mundo? Uma sociedade entorpecida, sem sentimentos ou qualquer indício de paixão, sem respeito pelos vínculos afetivos que se possa ter entre uns e outros, inculta, cega às questões metafísicas, enfim, uma humanidade desumanizada.

Ele deixa claro seu repúdio ao soma – e de uma forma muito mais decisiva que a de Bernard, que se tornara uma celebridade pela amizade tida com o Selvagem e por isso abandonara todos os seus antigos ideais. E repudia sobretudo a perda da identidade dos indivíduos nesse Estado. Os cidadãos das classes mais baixas da sociedade são gerados a partir de um óvulo exclusivo, semelhante à fecundação de gêmeos, mas em potencial tanto mais elevado. Cada óvulo pode gerar até 96 seres idênticos, física e psicologicamente, que estão destinados a trabalhar como operários, limpadores, mecânicos…

“Um ovo, um embrião, um adulto – normalidade. Mas um ovo bokanovskizado tem a propriedade de germinar proliferar, dividir-se. De oito a noventa e seis germes, e cada um deles crescerá até tornar-se um embrião perfeitamente formado, e cada embrião, um adulto completo. Fazem-se noventa e seis seres humanos crescerem onde somente um crescia antes. Progresso.”

Ou seja, pelas ruas John via multidões de seres completamente iguais, vestidos de maneira idêntica, com os mesmos hábitos, os mesmos pensamentos, a mesma falta do antigo pudor. Todos sem identidade própria, a servirem apenas de peças em um sistema artificial. Huxley admite em seu prefácio que com isso possibilitou apenas dois caminhos ao Selvagem, “uma vida insana na Utopia, ou a vida de primitiva numa aldeia de índios”, em outras palavras: “a insanidade de um lado e a demência de outro”.

John então optou pela demência, pelo primitivismo social e religioso, com requintes de autopenitência, para ressaltar, ainda que exageradamente, sua individualidade diante da massificação das personalidades ao seu redor. Huxley, se reescrevesse o livro, daria ao Selvagem a oportunidade de retirar-se a uma das longínquas ilhas aonde eram levados aqueles que demonstravam um pensamento não-ortodoxo, aqueles que ainda defendiam o direito de sofrer, de raciocinar, de amar e desprezar, pois isso os tornavam únicos, portanto humanos.

A advertência final é a mesma de 1984: somente poderemos enfrentar o que o futuro nos reserva, e com isso garantirmos o destino seguro da humanidade, se acima de tudo nos mantivermos humanos. Contudo aqui a mensagem é ainda mais íntima: é preciso que mantenhamos nossa humanidade, mesmo que soframos, mesmo que não tenhamos tudo quanto queiramos, porque essa vontade não satisfeita está inserida em nosso âmago desde o princípio de nossa evolução. Isso é o que nos faz humanos. Não podemos permitir que a nossa busca por prazer nos aniquile.

7 comentários Adicione o seu

  1. Costumo dizer que este é o “melhor livro mal escrito” que já li; o conceito do mundo de Huxley supera a simplicidade narrativa e desenvolvimento quadrado dos personagens.
    Gostei muito do filme Brave New World (TV 1998) porque corrige a principal falha, em minha opinião, do livro; ao invés de selvagens e do esteriotipo do Bom-Selvagem, o mundo não-civilizado é exatamente como nosso mundo atual, o que torna a comparação ainda mais impactante. Ah, e o filme melhora em muito o final também ;O

    1. Distopias realmente não são muito simpáticas quanto a construção dos personagens. Mas ainda acho que a narrativa tem alguns méritos, em especial com relação ao humor. Não esperava rir tanto com o livro. E tem uns poucos parágrafos no qual Huxley dá um salto temporal para mostrar as conseqüências de uma ação presente que li com bastante interesse também.
      E procurarei dar uma olhada no filme. Tenho em mente uma terceira postagem sobre distopias, desta vez um comparativo entre Admirável… e 1984, e de que maneira eles se relacionam com nosso mundo atual.
      Muito obrigado pelos comentários. És praticamente meu único visitante. Até mais!

  2. hahaha, capricha nas Tags que acaba chegadno mais gente no blog. vc posta com uma frequencia impresionante – isso acaba chamando atenção.

    Sobre distopias, não deixe de falar sobre Farenheit 451 – é meu livro favorito deste Trio

  3. Marcos Melo disse:

    Concordo com o Leonardo, se faz necessário falar do Farenheit 451 por aqui também. Parabéns pelo site!

    1. Leonardo e Marcos,
      Infelizmente tenho de admitir que nada li do Bradbury ainda. Sequer o possuo em minha biblioteca, mas considero a idéia de fazer algumas compras nesse sentido. Incluiria algo de H. G. Wells e Ayn Rand também. Conto com 600 livros em casa, mas livro nunca é demais. Vocês têm mais alguma indicação de compra essencial?

      1. Aproveita então que o Farenheit é minusculo e pega ele logo 😉
        Ayn Rand nunca li… só conheço pelas polêmicas e do disco do Rush… mas são livros enormes.
        Do Wells eu não saberia o que recomendar, mas se for pra ficar na ficção cietífica tem a trilogia Fundação de Assimov, que pode não ser a maior maravilha, mas diverte e faz pensar ;D

      2. Boa pedida, Leonardo! O cartão de crédito que se cuide, haha.

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