Animais Noturnos, de Tom Ford

Agora vou realizar um sonho. Há muito tempo desejava falar de Tom Ford como diretor, tamanho o meu encantamento com seu primeiro filme Direito de Amar (A Single Man, 2009). Na resenha de Shame fiz uma breve menção e só.

Se não falara mais a fundo, é porque não via muita substância para tal: homem sofre uma perda, sente o vazio, vê uma nova esperança… Já Animais Noturnos (Nocturnal Animals, 2016) é um caso bem diferente. Vamos a ele!

Vingança é um livro que se escreve a sangue frio

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O tema central é bastante identificável e Tom Ford não faz questão de ocultá-lo. O interessante da história é sua dupla camada de vingança, roteirizada pelo próprio Ford com base no romance Tony e Susan (de Austin Wright), publicado pela Intrínseca no Brasil. Para quem não viu o filme, vale uma introdução rápida.

Os créditos iniciais trazem uma montagem impactante de mulheres nuas que fogem do padrão de beleza de Hollywood. A seguir, descobrimos que elas fazem parte de uma exposição de Susan Morrow (Amy Adams), uma dona de galeria de arte que está infeliz com sua vida, obrigada a manter a fachada do casamento com um homem que a trai, da riqueza em ruínas e do sucesso sem sentido em Los Angeles.

Nas palavras Jeff Goldsmith, com quem Ford concorda entusiasticamente sobre o assunto, a ironia da cena de abertura é que Susan vende aquilo que não tem: desprendimento para ser ela mesma. Mas, como ouvimos na sequência do jantar com amigos, pelo menos a protagonista demonstra consciência da situação, só lhe faltaria uma fagulha para desencadear a busca por mudanças.

Estilo e substância em Tom Ford

O que mais me impressiona no estilista que se descobriu também diretor é seu cuidado com a narrativa. Afinal, ele é um figurão estabelecido da moda e talvez por isso mais suscetível a uma direção autocongratulatória. Ele poderia facilmente cair na armadilha do estilo pelo estilo, mas as suas escolhas visuais servem a um propósito, o que aumenta minha admiração por seu trabalho.

Por exemplo, o cabelo de Susan muda ao longo de várias cenas, dependendo da linha temporal retratada. Na sua vida atual e insatisfeita de dona de galeria de arte, uma mecha lhe cai sobre a face, simbolicamente ocultando parte de quem é.

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Por falar em linhas temporais, Animais Noturnos se divide em três tempos. Isso porque a fagulha que Susan necessita vem na forma de um livro escrito por seu ex-marido, Edward (Jake Gyllenhaal), a quem abandonou 25 anos atrás e agora a convida a se reencontrarem.

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Nesse longo período afastado, ele escreveu a tragédia de um homem que perde violentamente sua família no Texas, o que desencadeia sua jornada de vingança contra os agressores. A leitura desse romance, uma reinterpretação brutal da separação do casal, abre uma história dentro da história – e também um flashback desse relacionamento.

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Edward e Susan jovens. (Clique para aumentar.)

Quando jovens, Susan e Edward compartilhavam sonhos. Ele queria ser escritor; ela, seguir caminho oposto ao de sua mãe, em arte. Note como nessa época é possível ver todo o rosto dela, luzindo de vitalidade. Pelo menos até a razão bater à porta.

“I think that you should write about something other than yourself” – Susan para Edward, no começo do fim.

O poder de uma boa história

Um dos maiores desafios de autores, seja no cinema, seja na literatura, é criar um mundo no qual o público possa imergir. Quanto mais o espectador ou leitor é absorvido pela obra, mais ele a sente. Nesse sentido, Tom Ford é um grande diretor!

No “mundo real” de Animais Noturnos tudo é frio, embora bem executado. É no mundo interno do romance onde bate o coração do filme e cuja pulsação anima sua contrapartida na “realidade”. A paleta de cores desse novo cenário, por si só, já é muito mais viva.

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Como Susan é visivelmente afetada pela leitura do romance, na poltrona do cinema também me vi sofrendo com esse segundo nível de ficção. Se isso não atesta a qualidade de Ford ao controlar a narrativa, não sei o que mais atestará, pois a tragédia ainda impacta nessa obra dentro da obra.

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Os símbolos de ligação

Conectando essas duas camadas da história, diversos símbolos aparecem ao longo de Animais Noturnos. Os símbolos podem ser o próprio elenco, como a escolha de Isla Fischer para interpretar a Susan do romance, uma atriz muitas vezes confundida com Amy Adams. Ou personagens podem trocar de função, a exemplo de Ray (interpretado por um sensacional Aaron Taylor-Johnson), que assume a bestialidade de Susan na imaginação literária.

Ainda surgem no icônico sofá vermelho, num retirar de batom, num ajeitar de cabelo… Tudo para contar como o passado afetou Edward ao se tornar um escritor – e como sua obra impulsionou a transformação da protagonista.

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Susan lendo os primeiros textos de Edward, quando eram casados.

Ao final do romance e do filme, fica a pergunta: a vingança de Animais Noturnos valeu a pena? Por mais dramáticos que esses fins sejam, eu diria que sim. Edward provou que poderia ser um bom escritor para Susan, ainda mais escrevendo sobre si, e ela finalmente retirou toda a fachada para ser ela mesma. Agora ele pode ser escritor para si próprio e ela pode viver para si. Ambos precisavam “matar” uma parte de suas vidas para seguirem em frente, você concorda?

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Conclusão

Animais Noturnos é uma clara evolução no trabalho de Tom Ford como diretor e novamente ele obtém interpretações espetaculares de todo o seu elenco. Destaco Adams, Gyllenhaal, Aaron Taylor-Johnson e Michael Shannon, embora os demais sejam incríveis. A fotografia de Seamus McGarvey, que faz desde Cinquenta Tons de Cinza a Desejo e Reparação, aqui é digna de nota.

Para finalizar, reproduzo um comentário que fiz na página do Clássicos Universais no Facebook sobre esta segunda colaboração do compositor Abel Korzeniowski com Ford. A trilha sonora é transcendental, um soco na alma, e esse efeito devo ao que só os poloneses conseguem fazer na música — ao menos por mim. Vale ouvi-la sozinha!

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Ficha técnica:
Título: Animais Noturnos / Nocturnal Animals;
Direção: Tom Ford;
Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Isla Fisher, Ellie Bamber, Armie Hammer…;
Roteiro: Tom Ford, Austin Wright (história original);
Cinematografia: Seamus McGarvey;
Edição: Joan Sobel;
Música: Abel Korzeniowski;
Produção: Focus Features, Fade to Black Productions;
Ano: 2016;
País: Estados Unidos;
Gênero: Drama, Suspense.

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