Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola

Poucos diretores podem se vangloriar de terem criado um punhado de filmes inesquecíveis no período de uma década. Um deles é Francis Ford Coppola; nos anos 70 ele assinou obras como Patton (1970), O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972), A Conversação (The Conversation, 1974), O Poderoso Chefão Parte II (The Godfather Part II, 1974) e, para encerrar a década – para muitos também o ápice artístico dele –, Apocalypse Now (1979).

Este último é lembrado tanto pelas suas histórias por trás das câmeras, como os desastres, as doenças e as filmagens que duraram dezesseis meses, quanto pelo conteúdo que apresenta nas telas: um épico situado na Guerra do Vietnã, repleto de considerações importantes, personagens marcantes e falas do tipo “I love the smell of napalm in the morning” e “The horror! The horror!”. Ah, e tem, é claro, a famosa trilha sonora que vai de The Doors a Richard Wagner.

A narrativa é uma adaptação do livro O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, só que ao invés do Congo do século XIX nós temos o Vietnã de 1970. Não é crucial ter lido a novela, uma vez que o filme funciona muito bem por si, mas a leitura com certeza facilita alguns caminhos da reflexão.

Apesar da transposição de ambientes, as etapas da jornada são praticamente as mesmas em Heart of Darkness e Apocalypse Now. Temos o Capitão Willard num barco rio acima para encontrar o misterioso Coronel Kurtz. Temos a mesma narrativa episódica e introspectiva; alguns dos episódios chegam a ser repetidos no filme. Temos até o mesmo fascínio e temor pelo que guarda o âmago da floresta.

Quanto às qualidades da obra, é cinema de primeira. A fotografia exala grandiosidade, das vastas extensões de paisagem (as gravações foram feitas nas Filipinas) à complexidade dos sets. As cenas de batalha são impressionantes em todos os sentidos (ainda mais em 70 mm).

Apocalypse Now (The explosion)

Outro ponto de destaque é o roteiro. As falas são simples, porém carregadas de significados complexos. Vale a pena pausar algumas vezes e meditar sobre essas falas. E agora chega; o filme é excelente e disso todo mundo sabe, portanto darei atenção a dois tópicos relacionados a Apocalypse Now.

Apocalypse Now e a Odisseia reversa:

Omiti propositadamente acima quaisquer detalhes sobre a história para não repeti-los aqui. Quando digo que o filme é uma Odisseia reversa, não pretendo com isso afirmar que Willard é o oposto de Odisseu; fujo do paralelo psicológico, o que vejo sim é um espelhamento nos arcos narrativos de ambas as histórias: aonde uma vai, a outra volta.

A nossa primeira visão de Willard já é de cabeça para baixo. Esse ângulo inusitado nos mostra como o mundo do protagonista está virado. Em seguida ele revela que esteve em casa e lá só pensava em voltar para a guerra. Ele é o Odisseu que, após conhecer a verdadeira face da guerra, já não poderia mais ter Ítaca de volta. Willard chega a dizer:

“’Algum dia essa guerra acabará’. Isso seria bom para os garotos do barco, eles não estavam procurando nada mais do que um caminho para casa. O problema é que eu estive lá e eu descobri que isso não existia mais.”

Apocalypse Now (Upside Down)

Evidências. John Milius, o roteirista, tinha em mente a Odisseia quando escreveu o roteiro, conforme admite em Francis Ford Coppola – O Apocalypse de um Cineasta (Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse, 1991). Isso se nota em diversas passagens do filme. Entretanto, como o Ulysses de James Joyce, as correspondências não obedecem a cronologia do poema de Homero. Apenas os pontos iniciais e finais são os mesmos, embora invertidos: de um lado há a civilização, o lar, a claridade; de outro resta a guerra, as trevas, a barbárie.

Willard encontra em sua jornada o Coronel Kilgore (Ciclope), um homem brutal e ao mesmo tempo ingênuo diante dos próprios prazeres. Na versão Redux – mais sobre isso adiante – essa semelhança é clarificada quando Willard só consegue se livrar de Kilgore ao enganá-lo. Nessa sequência talvez haja também uma menção ao Gado do Sol, quando uma vaca é erguida pelo helicóptero.

Apocalypse Now (The Cyclop)

Depois há o encontro com as coelhinhas da Playboy, ou seja, as Sereias. Os soldados ficam loucos pela visão das mulheres, como os companheiros de Odisseu teriam ficado se ouvissem a voz daquelas criaturas mágicas. Mais adiante Willard passa pela base de Do Luong numa cena marcada pelo entorpecimento, similar à visita de Odisseu à ilha dos Lotófagos.

Apocalypse Now (The Sirens)

A morte de Mr. Clean tem o mesmo caráter do episódio dos Lestrigões. Por fim, na versão Redux há uma longa sequência na qual Willard e seus soldados visitam um reduto francês, no qual o protagonista deita-se com uma viúva e é por ela sedado. Esse encontro tem muito da relação entre Odisseu e Circe. E é até aí que consigo ver similitudes.

Apocalypse Now (Circe)

Contudo, o mais importante não são as correspondências entre os episódios, e sim a total inversão do ideal do herói. Essa é a verdadeira Odisseia reversa; no mundo de Apocalypse Now não há mais espaço para o herói antigo, um Coronel Kurtz, aquele que vai lá e age conforme o necessário, mesmo em face do horror. A moral contemporânea é diferente e é essa moral que obriga Willard a ir à caça de Kurtz.

Apocalypse Now x Apocalypse Now Redux:

A versão Redux (refeita) que comentei foi lançada em 2001 por Coppola. Ela contém trinta minutos a mais e esse acréscimo é questionável. Além de pequenas inserções ao longo do filme, há uma coda ao encontro com Kilgore, uma segunda ocasião com as coelhinhas da Playboy, a sequência com os franceses e uma cena extra com Kurtz.

Para mim a única utilidade das cenas a mais foi poder reunir mais evidências para a comparação com a Odisseia. E isso que vi duas vezes a versão Redux para somente então ver a original. Já sentia que a repetição do tema das Sereias era supérflua, mas receava que talvez fosse necessário algum tempo entre a morte de Mr. Clean e Chief. Na verdade, a edição original já dá conta do recado e a parte final do filme segue numa tensão crescente até o confronto com Kurtz. Com os franceses essa tensão é cortada e leva algum tempo até engrenarmos novamente.

Resumo: a versão de 79 é concisa e não distrai de seu arco dramático, enquanto a de 2001 apresenta um cenário mais amplo e concatena melhor algumas partes, mas noutras faz distrair.

Apocalypse Now (Location)

Ficha técnica:
Título: Apocalypse Now;
Direção: Francis Ford Coppola;
Elenco: Martin Sheen, Robert Duvall, Marlon Brando, Laurence Fishburne, Dennis Hopper, Frederic Forrest…;
Roteiro: John Milius, Francis Ford Coppola;
Cinematografia: Vittorio Storaro;
Edição: Lisa Fruchtman, Gerald B. Greenberg, Walter Murch;
Música: Carmine Coppola;
Produção: Francis Ford Coppola…;
Ano: 1979;
País: Estados Unidos;
Gênero: Guerra, Suspense.

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