A Arte do Pôster de Cinema: EUA

 “O objetivo da arte do pôster é cristalizar o filme em uma única imagem, é capturar o momento.” – Tom Jung.

Pôster de cinema é publicidade. Seu propósito será sempre o de chamar a atenção de potenciais espectadores, de uma forma mais comercial à la Hollywood ou conceitual, como pretendiam os poloneses. Qualquer que seja o estilo do pôster, ele quer dizer “olhe aqui, você deve assistir a este filme”. E como faz isso?

1) Causa impacto visual por meio de cores, formas e composições;

2) Traduz o clima do filme para você senti-lo à primeira vista;

3) Começa a contar uma história com elementos visuais ou palavras que despertem a curiosidade por mais informações;

4) Sem ser elemento fundamental, apenas muito utilizado, recorre a rostos e nomes familiares de outros filmes que você já tenha gostado para diminuir sua desconfiança;

5) Traz frases de críticos e prêmios para gerar validação.

O problema atual da publicidade de pôsteres é o mesmo da indústria cinematográfica: a superprodução de títulos aumenta a concorrência, que leva os criadores a usarem os mesmos recursos tried-and-true a ponto de virarem clichês, como o casal dando-se as costas em comédias românticas ou o contraste de azul e laranja nos filmes de ação. Portanto, ver uma arte que se destaca é um respiro para o cérebro.

Foi essa sensação de curiosidade renovada que tive ao ver o pôster de Harper (de Jack Smight, 1966), intitulado Caçador de Aventuras no Brasil e Harper, Detective Privado em Portugal. O filme também é conhecido como The Moving Target no Reino Unido, por causa do romance The Moving Target, de Ross Macdonald, no qual se baseia.

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Pôster americano de Harper, dirigido por Jack Smight, de 1966.

A história em si é bem convencional. O protagonista, interpretado por Paul Newman, é um detetive com problemas de álcool e relacionamento que se envolve em um caso de trapaças e femmes fatales.

O que chama a atenção é o modo como o pôster reproduz esses elementos para atrair o público. Primeiro, as fotos em preto e branco criam contraste com as formas coloridas, que por sua vez contrastam com o grande espaço em branco ao redor. Segundo, Paul Newman aparece quatro vezes (em três fotos e por escrito), além de contar com atrizes famosas. Por fim, os textos contam uma história curiosa em cada bloco. A impressão que fica é a de um filme leve e movimentado, cheio de reviravoltas.

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Fiquei tão empolgado com essa arte que fui pesquisar mais a respeito e encontrei uma mina de ouro: as versões do pôster em outros países. Eu nunca tinha pensado em como lugares diferentes criam imagens próprias para vender os mesmos filmes, talvez nem dê para estudar isso nos novos lançamentos. Nos anos 80, os grandes estúdios de Hollywood centralizaram o marketing dos seus títulos, dando origem à fórmula globalizada que temos hoje.

Em 1966, no entanto, era outra história. Além das versões originais da Warner Bros., das quais não há registro da autoria, apresentarei as produzidas na França, Itália, Polônia, Alemanha, Suécia e no Japão para revelar a trajetória dos pôsteres de cinema por meio de um exemplo comum.

Estados Unidos: ditando o ritmo

Pôster secundário.

Por ser a indústria hegemônica do cinema e ter um volume de produção maior que diversos países juntos, os Estados Unidos já fizeram muito de tudo quando se trata de pôsteres de filmes. Do mesmo modo, serviram de base para todos os mercados que não desenvolveram métodos próprios de expressão nesse meio.

Harper, por exemplo, é produto da tradição americana e não poderia ter surgido desta forma em outro lugar. Os demais países ficaram limitados a replicar o formato, se suscetíveis à influência, ou recriar a imagem, se mais fechados culturalmente. O pôster é também fruto do seu tempo, como veremos adiante.

Entre 1910 e 1920, os pôsteres limitavam-se a representar cenas do filme à moda das pinturas clássicas. Em 30 e 40 viu-se a ascensão das estrelas e dos elencos cheios delas tendo de compartilhar o cartaz, a exemplo de Grande Hotel (Grand Hotel, 1932), daí a tradição das cabeças flutuantes.

 

 

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Grand Hotel (1932)

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Duck Soup (1933)

Os anos 50 marcaram a transição da referência da pintura clássica para o design gráfico moderno. Nessa época surgiram artes marcantes como a de Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950) e os clássicos do mestre Saul Bass, começando com O Homem do Braço de Ouro (The Man with the Golden Arm, 1955). [Sua proposta inicial era ainda mais ousada.]

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The Man with the Golden Arm | Arte de Saul Bass (1955)

Vertigo | Arte de Saul Bass (1958)

Vertigo | Arte de Saul Bass (1958)

Anatomy of a Murder | Arte de Saul Bass (1959)

Anatomy of a Murder | Arte de Saul Bass (1959)

Na década de 60 acabou a Era de Ouro de Hollywood. Os estúdios não detinham mais as salas de exibição, o que abriu espaço para a entrada de filmes estrangeiros nos EUA, e a televisão fixava-se como concorrência direta pela atenção do público. Com isso, a arte do pôster tornou-se ainda mais publicitária e as frases de impacto ganharam maior importância que a ilustração, tentando vender descaradamente os filmes. Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment, 1960) empregou essa estratégia.

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The Apartment (1960)

Esse período trouxe consigo um novo gênero de filmes policiais. Os heróis que pertenciam ao suspense noir entraram em perseguições de carro e lutas coreografadas. O icônico James Bond estreou nas telonas em 1962, com 007 Contra o Satânico Dr. No, e na sequência Moscou Contra 007 (From Russia with Love, 1963) já se percebia uma fórmula para artes de filmes de ação: elenco em destaque como em Grand Hotel, mescla de fotos de violência com ilustração gráfica como a de The Man with the Golden Arm e a publicidade escancarada de The Apartment.

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From Russia With Love (1963)

É possível identificar todos esses elementos no pôster de Harper, embora combinados de uma forma exclusiva. Os blocos são muito mais coloridos e têm dimensões variadas, semelhante a uma página de quadrinhos. O texto também me lembra das chamadas que Stan Lee fazia em suas capas, quando revolucionou a Marvel com promessas de aventuras imperdíveis ao público.

A partir daí a fotografia e a ilustração tomaram caminhos separados nos pôsteres de cinema. Na fotografia, enquanto o uso expressivo de fotos nos cartazes de Steve Frankfurt transformou O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby, 1968) e outros filmes em clássicos a serem seguidos, os anos 90 exibiam qualquer foto dos protagonistas. Na ilustração, os trabalhos de Tom Jung (Star Wars, 1977) e John Alvin (Blade Runner, 1982) ainda servem de influência, após a dominância da composição digital.

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Rosemary’s Baby | Arte de Steve Frankfurt (1968)

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Star Wars | Arte de Tom Jung (1977)

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Blade Runner | Arte de John Alvin (1982)

Se já era difícil debater a autoria dos pôsteres antigos (e eu passei horas para descobrir os nomes dessa matéria), imagine atualmente quando um departamento inteiro é o responsável. Mas há esperança! A visão individual de autores pode ser encontrada na forma de pôsteres alternativos incríveis nos seguintes sites: Olly Moss, Mondo, Dark City Gallery e Alternative Movie Posters, além da produtora indie A24. Com isso, as grandes estúdios são forçados a elevar de novo seu jogo.

O marketing de cinema sem dúvida mudou, com trailers sendo lançados um ano antes da estreia e o meio digital vencendo a batalha como vitrine definitiva de filmes, o que permanece é o efeito de um bom pôster. Para Thor: Ragnarok (2017) isso foi capaz de transformar a imagem de uma franquia e empolgar de vez os espectadores.

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A Ghost Story | Arte de P+A (2017)

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Thor: Ragnarok | Arte de LA Design (2017)

Agora, chega dos Estados Unidos e vamos falar de outros países nos próximos capítulos:

França (Parte 2) | Itália (Parte 3) | Polônia (Parte 4)

Alemanha (Parte 5) | Suécia (Parte 6) | Japão (Parte 7) | Brasil (Parte 8)

Estes sites têm conteúdos essenciais para ver mais sobre o assunto:

CineMaterial

Creative Overflow

Posteritati

IMP Awards

Wikipedia

[A imagem que ilustra esta matéria é uma baseada no pôster de Saul Bass.]