A Arte do Pôster de Cinema: França

Dois aspectos definem o pôster: sua impressão para reprodução em massa e o claro objetivo de convencer o público de uma ação concreta. Se falamos de impressão, devemos considerar que a posterização é mais ou menos recente na história das artes. A litografia, processo que permitiu a reprodução de imagens por meio de placas de pedra ou metal, só foi inventada pelo alemão Alois Senefelder em 1796.

Durante um século viu-se a lenta evolução dessa técnica. Em 1880 as cópias ainda eram desbotadas, apesar de belos exemplares de Art Nouveau, até que o mestre francês Jules Chéret (1836-1932) inventou uma forma de imprimir muito mais cores e assim nasceu o pôster moderno.

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Arte de Jules Chéret (1869)

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Arte de Jules Chéret, após sua invenção (1896)

Avançamos algumas décadas e chegamos a 1966, o ano de lançamento de Harper. Agora, vamos aprofundar a história dos cartazes de cinema em diversos países com esta primeira comparação.

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Pôster francês de Harper.

A invenção de Chéret impulsionou o trabalho de artistas como Henri de Toulouse-Lautrec (1864–1901), que usou o novo recurso em suas composições diagonais e cheias de movimento para criar imagens cheias de vida. A publicidade encontrou aí um prato cheio para encantar as massas.

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Arte de Henri de Toulouse-Lautrec (1891)

Leonetto Cappiello assumiu o espaço deixado por Chéret e Toulouse-Lautrec na França em 1898. Seu estilo menos arabesco de Art Nouveau e suas cores luxuosas foram referência estética para anúncios até a ascensão ideológica do Construtivismo a partir dos anos 20 e 30, mais retilíneo e robusto, numa rápida sucessão de tendências. E como essa história se traduz nos pôsteres de cinema e, mais especificadamente, no filme que temos analisado?

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Arte de Leonetto Cappiello (1921)

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Arte de Jean d’Ylen (1930)

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Arte de A.M. Cassandre (1935)

França: olhar para dentro

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Outro pôster francês.

A França é uma Babilônia de movimentos artísticos modernos e cada ilustrador representou uma escola própria. Como os pôsteres franceses de Harper não estão assinados e não há registro de autoria disponível, suponho que essas versões não pertençam aos designers de maior escalão. Na verdade, o país como um todo não teve grande interesse nos filmes americanos e focou na sua produção nacional.

Hoje, a França é o terceiro maior mercado de ingressos cinematográficos, atrás dos EUA e da Índia, é a maior indústria de cinema da Europa, produz mais de 300 títulos por ano, é a segunda maior exportadora de filmes do mundo e mais de 35% das entradas vendidas são para filmes produzidos lá. Ou seja, enquanto os demais países estavam ocupados em recriar importações, os franceses criavam para si.

 

Repito: o melhor do pôster de cinema francês é o do próprio cinema francês. Grandes designers como Jean-Denis Malcles, Clement Hurel, Georges Kerfyser, Guy Gérard Noël e Pierre Étaix encontraram terreno fértil para explorar diversas vertentes artísticas, todos herdeiros da tradição modernista do cartaz. Jouineau Bourduge e René Ferracci exploraram ainda mais e propuseram a fotografia como substituta à altura da ilustração.

Ressalte-se que, sim, eles também fizeram adaptações. Contudo, essa produção ficou mais restrita ao cinema de Woody Allen e outros diretores aclamados pela crítica, o que rendeu algumas obras-primas do pôster de cinema. Apenas alguns nomes como Boris Grinsson foram mais atuantes no mainstream, ilustrando desde Os Pássaros (The Birds, 1963) ao seriado Batman (1966) em mais de 2000 artes ao longo de sua carreira.

Bom mesmo é deixar os pôsteres falarem por si.

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The Killers | Arte de Guy-Gérard Noël (1946)

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Casque d’Or | Arte de J. Jacquelin (1952)

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Salaire de la Peur | Arte de René Ferracci (1953)

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La Traversée de Paris | Arte de Jan Mara (1956)

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Terre Contre Satellite | Arte de Clément Hurel (1957)

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Mon Oncle | Arte de Pierre Étaix (1958)

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A Bout de Souffle | Arte de Clément Hurel (1960)

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Otto y Mezzo | Arte de Georges Kerfyser (1963)

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The Birds | Arte de Boris Grinsson (1963)

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Blow-up | Arte de Georges Kerfyser (1966)

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Le Grand Amour | Arte de Pierre Étaix (1969)

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Le Charme Discret de la Bourgeoisie | Arte de René Ferracci (1972)

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Journal d’une Femme de Chambre (2015)

Veja outros países nos próximos capítulos:

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Alemanha (Parte 5) | Suécia (Parte 6) | Japão (Parte 7) | Brasil (Parte 8)

Estes sites têm conteúdos essenciais para ver mais sobre o assunto:

CineMaterial

Posteritati

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International Poster

Wikipedia

Mubi

[A imagem que ilustra esta matéria é uma baseada no pôster de Henri de Toulouse-Lautrec.]