As batalhas da literatura

Em literatura, assim como nas outras artes e em tudo na vida, o novo se cria do velho. A arte recria-se em cada um, podemos dizer. Por isso temos escritores tais Homero e Kafka tão presentes em obras contemporâneas, porque ecoam através dos séculos e são apropriados por uma humanidade que se recria (e os recria) geração a geração.

Literatura é batalha. Não existe literatura em que não haja questões a responder, algo ou alguém para enfrentar e problemas para resolver. Isso porque literatura é transição, é movimento. Os personagens de um romance podem terminar de um modo parecido com o que começaram a história, porém nunca terminam da mesma maneira. E nós leitores somos transportados juntos; sabemos novas coisas, às vezes concluímos algo importante e em algumas raras ocasiões nos tornamos pessoas melhores. Literatura é passagem – nem sempre para um lugar melhor, talvez apenas diferente.

Existem quatro obras principais que descrevem bem quais foram os palcos de batalha da literatura nos últimos 2500 anos (descartemos aqui os textos essencialmente religiosos). São estas: Édipo Rei (Oedipus the King / Oedipus Tyrannus), de Sófocles; Hamlet, de Shakespeare; Crime e Castigo (Crime and Punishment / Pryestupleniye i nakazaniye), de Dostoievski; e Ulisses (Ulysses), de James Joyce. Caberia ainda Don Quixote (Don Quijote), de Cervantes, e Fausto (Faust), de Goethe, entre tantos outros livros, mas fiquemos com os quatro períodos destacados.

O confronto de Édipo é com o posicionamento da humanidade diante da vida, do destino e da fé. É a dúvida acerca de qual é seu verdadeiro tamanho no mundo, qual é o real poder de suas decisões. Édipo não é apenas ele, é todo aquele que se faça as mesmas indagações. Neste caso, o personagem não é essencial à trama, é seu caráter que a desenvolve. Se fosse outro homem, com uma história diferente mas com a motivação idêntica, então a obra ainda seria Édipo.

O de Hamlet é a luta entre o que os demais esperam dele e o que de fato ele quer. Shakespeare interiorizou o palco de batalha e com isso trouxe o indivíduo para a literatura. O Príncipe da Dinamarca não é mais insubstituível, pois é seu caráter que o define, que o impulsiona. Essa é a origem da escrita psicológica; não é mais a briga do Homem contra a Natureza ou contra as forças além de seu controle, mas do Homem contra o Homem e os limites que se impõe.

Em Raskolnikov a briga entranhou-se muito mais. Agora é o Homem contra si, o pensamento contra o pensamento. O que Dostoievski fez foi aprofundar as dúvidas de Édipo (seu real poder) e de Hamlet (sua vontade) em um nível nunca antes trabalhado. E com isso, na medida em que a luta na literatura se transfere da ação para o pensamento, os personagens ganham cada vez mais detalhamento; nós sabemos quem é Raskolnikov e podemos distingui-lo de qualquer outro porque estamos imersos em sua mente.

Leopold Bloom é esse detalhamento e essa interiorização elevados à máxima potência. Joyce não permite que seus personagens resolvam diretamente as grandes questões levantadas pelos escritores passados, ele antes as desmonta em muitas pequenas dúvidas que só aí definirão os caracteres de suas criações. Ele aproximou a literatura da vida cotidiana como jamais se fizera. Bloom, sua esposa e Dedalus têm de responder a pequenas dúvidas e resolver pequenos problemas tão comuns a nós, posto que inseridos no âmago do cotidiano, para definirem seu posicionamento diante da vida, do destino, do poder, da vontade e do exercício de pensar.

É claro que as perguntas quase sempre se repetem, a forma de colocá-las e o cenário onde aparecem é que mudou,  principalmente porque a humanidade evoluiu, portanto a literatura teve de acompanhá-la. Nós nos tornamos cada vez mais autoconscientes e por isso pudemos desenvolver nossos questionamentos. O resultado disso é uma escrita feita de fragmentos sobre pessoas e ações nem sempre comuns, mas em geral identificáveis. Afinal, o todo é feito de partes,  ou como na frase de James Joyce: “No particular está contido o universal”.

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