As Docas de Nova York, de Josef von Sternberg

Antes de dirigir seus filmes mais conhecidos com a estrela Marlene Dietrich, como O Anjo Azul (The Blue Angel / Der blaue Engel, 1930) e A Imperatriz Galante (The Scarlett Empress, 1934), Josef von Sternberg já apresentava o mesmo lirismo sombrio em filmes hoje praticamente desconhecidos, caso de As Docas de Nova York (The Docks of New York, 1928). Esse conto de amor relata o encontro inesperado entre o marinheiro Bill Roberts (George Bancroft) e a bela Mae (Betty Compson). O que impressiona neste filme é a sua capacidade de encontrar honra em pessoas corrompidas, e encontrar carinho em meio à brutalidade e até mesmo amor em meio ao desprendimento.

Bill é um bruto e o corpanzil de Bancroft serve bem ao papel. Também, não se pode esperar muita delicadeza de um homem que vive coberto de suor e carvão, defronte a caldeira de um navio. Entretanto, mesmo quando esperava apenas por uma farra em solo, ele ainda é capaz de demonstrar nobreza ao tomar sob seus cuidados uma mulher em situação difícil.

The Docks of New York (Bill Roberts)

Ela também está longe de ser exemplar, como diz “Já tive a minha cota de boas noites”. Mesmo assim ela é um anjo aos olhos dele, com seu temperamento pacífico e com a luz sobre o seu cabelo loiro. Apesar de todas as diferenças, eles conseguem formar um vínculo que nos dois desperta algo bom.

The Docks of New York (Mae crying)

Outro ponto interessante de The Docks of New York é o comentário que Sterberg faz à instituição do casamento. O primeiro plano-sequência, já em terra firme, é muito bem composta. A câmera faz um traveling no interior de um bar movimentado, para se focar no casal formado por Andy, supervisor de Bill, e sua esposa Lou, no momento em que esta flertava com outro. Ambos não fazem muito caso dos compromissos de seu casamento. Depois a câmera recua, também em traveling, de volta à rua, como se tivesse terminado a sua observação sobre essa intimidade.

The Docks of New York (dolly scene)

Já a curiosa união de Bill e Mae funciona de maneira diferente. No meio da festança os dois tentam se casar e quase não o conseguem por causa de um documento; “por causa de apenas um papel”, reclama Lou, motivada a casar Bill e Mae pela insatisfação com o próprio casamento. Quando enfim são declarados marido e mulher, os dois são contemplados com comoção pelos presentes. O casamento foi conduzido em um bar, com todos já embriagados e com total quebra de decoro, mas todo o gesto é muito bonito e, de todo modo, resulta numa cena emocionante.

Eis aí um bocado da poesia do filme, o fato de duas pessoas quebradas encontrarem-se e juntas descobrirem a beleza em meio ao mundo sombrio que as cerca. Belamente filmado, The Docks of New York é uma satisfatória mistura de realismo e romantismo. O filme não envolve demasiado suspense; não é sobre o que está por acontecer. Antes, é sobre o que acontece no momento, sobre o encontro de elementos tão distintos e como eles reagem entre si.

The Docks of New York (Bill's shadow)

Ficha técnica:
Título: As Docas de Nova York / The Docks of New York;
Direção: Josef von Sternberg;
Elenco: George Bancroft, Betty Compson, Mitchell Lewis, Olga Baclanova…;
Roteiro: Jules Furthman;
Cinematografia: Harold Rosson;
Edição: Helen Lewis;
Música: Donald Sosin;
Produção: Josef von Sternberg, J. G. Bachmann;
Ano: 1928;
País: Estados Unidos;
Gênero: Drama.

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