As Intermitências da Morte, de José Saramago

“No dia seguinte ninguém morreu.”

Eis um livro que, passada a estranheza da escrita de José Saramago, é só alegria. As Intermitências da Morte (2005), vigésima sexta obra publicada pelo autor, é uma louca viagem do começo ao fim, que diverte pelo absurdo e impressiona pelo detalhismo.

Este livro é, assim como Crônica de uma Morte Anunciada (Crónica de una Muerte Anunciada, 1981, de Gabriel García Márquez), um bom exemplo de realismo fantástico. No entanto, enquanto no livro de Márquez a morte é inevitável, aqui é a Morte que evita os viventes.

A partir de uma pergunta como “e se as pessoas não morressem mais?”, Saramago constrói sua narrativa nesse país indefinido em que a Morte deixa de dar as caras – de foice e capa preta, no melhor estilo Grim Reaper. A partir de então ninguém mais nesse país consegue morrer; nem os idosos, nem os enfermos, nem os acidentados.

Quem já leu, por exemplo, Ensaio Sobre a Cegueira (1995), sabe que o autor português presta grande atenção aos detalhes dentro da fantasia. Quando as pessoas por mistério tornam-se cegas, ela imagina meticulosamente suas reações e como precisam improvisar nessa nova vida.

Em Intermitências da Morte a impossibilidade de morrer é analisada sob os aspectos sociais, governamentais, de segurança e de saúde pública; sob os aspectos econômicos, emocionais e filosóficos. Ele destrincha cada uma das possibilidades desse absurdo e as pauta com traços precisos de realidade, sempre com humor.

Quando as pessoas não morrem mais, os primeiros afetados são os agentes funerários e os fabricantes de caixões, depois as floriculturas e os madeireiros, e logo o país está em caos. Inclusive, chega-se ao ponto de traficar pessoas para fora das fronteiras a modo de que elas possam morrer em paz.

A ausência da morte gera aí uma inversão de vontade. Enquanto antes do fato, assim como a maior parte de nós leitores, as pessoas desejavam a vida eterna, eis que a vida eterna revela sua face mais sórdida. Então só resta desejar de novo a morte.

O texto é engraçadíssimo, imaginado com imenso cuidado e, ao contrário de Ensaio Sobre a Cegueira, em que a premissa reflexiva do livro nunca é cumprida, nas Intermitências não há qualquer pretensão intelectual. Entretanto, não deixa de ser inteligente.

Só se necessita persistir por alguns parágrafos para acostumar-se à maneira de escrever de Saramago. Depois disso a leitura é das mais tranquilas e cheia de cenas hilárias com a Morte e com os habitantes do país.

É inusual acompanhar um romance sem protagonista, mas não lhe falta. A transposição de cenários e situações dá-se de maneira orgânica e mais parecem esquetes de uma grande comédia. Não à toa me ocorreu lembrar Monty Python – O Sentido da Vida (The Meaning of Life, 1983, de Terry Jones e Terry Gilliam), onde aparece também a Morte.

Sem prometer qualquer coisa, As Intermitências da Morte é um grande divertimento, enquanto Ensaio Sobre a Cegueira promete muito e fica sem cumprir. Por isso prefiro o primeiro ao segundo.

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