Back to Black, de Amy Winehouse

Amy Winehouse era o tipo de pessoa que não dá para ignorar. Do lançamento de Back to Black, em 2006, até sua morte, em 2011, ela estava em todo lugar. Manchetes à parte – falaremos disso mais tarde –, ela deixou pelo menos um álbum incrível e a tristeza por tudo que ela ainda poderia ter feito com sua voz.

Como já comentei ao longo da resenha Whiplash, de Damien Chazelle, sobre o documentário Amy (de Asif Kapadia), Winehouse era uma artista que usava a dor pessoal como combustível para a sua criação. Portanto, quanto mais ela evoluía musicalmente, mais ela se queimava pessoalmente.

“Quanto mais as pessoas me virem, mais elas vão perceber que só sirvo para fazer música.” (Amy Winehouse)

Tudo aconteceu muito rápido. Aos 20 anos ela lançou Frank, seu álbum de estreia, em que mostrou potencial para compor suas próprias músicas e uma voz única no jazz contemporâneo. Faixas como Someone To Watch Over Me e Teach Me Tonight, presentes em Frank (Deluxe Edition), ressaltam que ela faria jus a nomes como Dinah Washington ou Sarah Vaughan.

Para você perceber melhor isso, recomendo ouvir depois esta versão de Body and Soul, cantada por ela e Tony Bennett, e compará-la com a de Ella Fitzgerald, por exemplo.

O lado B do primeiro álbum ainda revela como essa mulher era maravilhosa ao vivo. Mesmo com a voz em desenvolvimento, ela tinha controle total sobre a melodia e tomava-a como sua, colocando os próprios sentimentos. Mais tarde em sua carreira, todos os episódios em que deixou a desejar no palco foram por problemas pessoais, nunca pela falta de talento.

Então, em 2006, Amy lançou o fenômeno Back to Black, com 23 anos. Produzido por Mark Ronson e Salaam Remi, esse é o resultado não só da vontade dela de tirar algum proveito das experiências ruins pelas quais passara, mas também de uma notável evolução como cantora.

Primeiro, porque assumiu ainda mais a autoria das letras, trazendo seu tom impulsivo e desbocado para refletir as histórias musicadas:

“He left no time to regret
Kept his dick wet
With his same old safe bet”
(Trecho de Back to Black)

Ou:

“When you smoke all my weed man
You gotta call the green man
So I can get mine and you get yours”
(Trecho de Addicted)

Segundo, porque marca uma transição de estilos. Se em Frank o jazz era a influência, em Black to Black Amy aproxima-se do R&B dos anos 60, inspirada por grupos como The Ronettes, do qual também adaptou o visual. Além disso, seu timbre ficou mais grave com o passar dos anos.

The Ronettes estilo de Amy Winehouse
The Ronettes

Nele é impressionante a quantidade de músicas que se destacam ou que viraram hits na época. Back to Black é quase uma coletânea de sucessos, começando por Rehab e a música-título do álbum até as baladas mais lentas, como Love Is a Losing Game e Some Unholy War. Tanto que faturou 5 prêmios no 50th Annual Grammy Awards.

Os instrumentais, com músicos dedicados a soul e R&B como The Dap-Kings, certamente ajudaram a dar um quê de viciante a algo já muito bem-acabado. Já imaginou You Know I’m No Good sem os instrumentos de sopro ou sem a linha de baixo pronunciada? Ou sem o piano em Back to Black?!

Sobre as letras, vale apontar sua natureza sentimental. À exceção de Rehab e de Addicted, todo o miolo do álbum é sobre problemas de relacionamentos. Porque assim era Amy, uma mulher que se entregava sem medidas para o amor, e porque essa era a dor que a impulsionava criativamente.

“If my man was fighting
Some unholy war
I would be behind him
Straight shook up beside him
With strength he didn’t know
It’s you I’m fighting for”
(Trecho de Some Unholy War)

Outra característica que impressiona em Amy Winehouse era a sua capacidade de levar o ritmo para onde quisesse. Mais que manter-se afinada nas modulações peculiares do jazz e do R&B, ela encontrava caminhos surpreendentes para dar energia às músicas. Veja-se o exemplo do refrão de Tears Dry On Their Own:

He / waaaalks / away
The / sun / goes / down
He / takes / the / day
But / I’m / grown

Nesses três primeiros versos ela canta com quatro sílabas, inclusive alongando “walks” para compensar a sílaba faltante em “away”. Então “but I’m grown” entra rapidamente, com apenas três sílabas, dando uma nova dinâmica ao ritmo. E assim ela continua faixa a faixa, como se estivesse conversando com você por meio da composição.

Esse era o único diálogo que Amy queria com seu público; não por manchetes, não pelo assédio e pela chacota da mídia, e sim por aquilo em que ela era realmente boa – a arte. Portanto, que ela sirva de um lembrete trágico para não continuarmos fazendo o mesmo com outros artistas. Chega de alimentar o sensacionalismo abutre, a obra é muito mais importante.

Conheça outra diva do R&B: Dusty in Memphis, de Dusty Springfield.

Ficha Técnica:
Álbum: Back to Black;
Artista: Amy Winehouse;
Músicos: Amy Winehouse, The Dap-Kings…;
Produção: Mark Ronson, Salaam Remi;
Gravadora: Island Records;
Lançamento: 2006;
Gênero: R&B, Pop.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *