O futuro da leitura: biblioteca digital

— Montag, algum dia você gostaria de ler a República de Platão?
— Claro!
Eu sou a República de Platão.

Depois de dedicar sua vida a queimar livros para o regime distópico de Fahrenheit 451, escrito por Ray Bradbury, nosso protagonista encontra outra chama acesa: a do amor pelos livros nas pessoas que os mantêm.

Lembrei-me imediatamente dessa cena quando fui convidado para falar sobre o tema “A Biblioteca Futura”, no Círculo de Leitura de Florianópolis. O que me impressiona nesse trecho é a fé de que a essência da literatura sobrevive, mesmo que o recipiente mude.

Fahrenheit 451 por Truffaut
Fahrenheit 451 por Truffaut.

Na verdade, estamos tão acostumados com a literatura escrita e, por assim dizer, registrada, que nos esquecemos do fato de que por muito tempo não foi assim. A Ilíada, Fausto, Hamlet, os contos populares e tantas outras histórias passaram por muitas pessoas-livro antes de serem cristalizadas por alguém em específico. Então, por que deveríamos temer a leitura digital se reforça esse registro?

Os livros não morrem, mas estamos presenciando uma transformação em como nos relacionamos com eles. Começa aqui um especial no Clássicos Universais em três partes sobre essa nova relação: as bibliotecas, a leitura e a escrita.

 

As bibliotecas precisam mudar

Para ser mais exato, em muitos lugares elas já mudaram. O Brasil é que precisa acompanhá-las.

É claro que no país a questão é muito mais complexa do que apenas se digitalizar. Ainda temos 13 milhões de analfabetos e 27% da nossa população demonstra analfabetismo funcional1, portanto, para esses casos precisamos de uma solução mais basilar. Porém, no que toca às bibliotecas nacionais, a solução parece estar aquém da demanda.

Livros transformam vidas, mesmo quando encontrados no lixo2. Logo, quanto mais bibliotecas, melhor, certo? Nem tanto.

Estatisticamente não há como defender uma resposta quantitativa – e definitiva – para o caso. Se fosse assim, bastaria seguir o projeto “Mais Bibliotecas Públicas” da SNBP3 e tudo estaria resolvido, porque junto a questões como acessibilidade e capacitação do serviço oferecido, o plano consiste principalmente em aumentar a quantidade de estabelecimentos do tipo.

Então vamos ver as estatísticas. Segundo dados da OCLC4, no Brasil a média de habitantes por bibliotecas (de todos os segmentos) é de 8.889. Em comparação, isso nos coloca muito abaixo de outros países:

Brasil = 8.889 habitantes por biblioteca
Estados Unidos = 3.076
Dinamarca = 2.506
Canadá = 2.074

No entanto, estamos próximos ou acima de outros lugares:

Brasil = 8.889 habitantes por biblioteca
França = 13.282
Reino Unido = 7.480
Alemanha = 6.924

No caso da França, mesmo com esse índice pior, há melhor aproveitamento em outros dados, como a porcentagem de usuários, número total de volumes disponíveis etc. E mesmo que se aumente o número de bibliotecas, há ainda outro problema grave: o brasileiro que lê, costuma ler pouco.

A média é de 4,96 livros por ano5, aí incluídos a Bíblia, os livros didáticos e os não finalizados. Até o meio universitário, o que está melhor servido de bibliotecas, é capaz inspirar manchetes como “Universitários brasileiros leem apenas de 1 a 4 livros por ano”6.

“O que Orwell temia era aqueles que baniriam os livros. O que Huxley temia era não haveria razão para banir um livro, porque não haveria quem o desejasse ler.” — Neil Postman

Nesse sentido, a maioria das nossas bibliotecas expressam o stricto sensu da palavra: tornam-se depósitos de livros. Mas leitores e não leitores ainda são unidos por uma necessidade em comum, a de uma vida melhor. E é nisso que iniciativas de sucesso se focam.

 

A nova biblioteca desafia conceitos

Na União Europeia, por exemplo, a campanha “Public Libraries 2020”7 não se volta para a criação de mais espaços, mas para o aproveitamento eficaz dos já existentes. Seus principais objetivos são a alfabetização digital dos europeus, a capacitação não formal para conquistas profissionais e o impacto positivo para a economia que as bibliotecas proporcionam (sim, isso pode ser mensurado8).

As funções habituais das bibliotecas são potencializadas com recursos digitais. Continuam a ser fontes de conhecimento e espaços de inclusão, contudo, agora são adaptadas para as demandas do nosso tempo e trazem novas soluções às pessoas.

Porque temos catálogos imensos para ler em qualquer dispositivo e em qualquer lugar (dica: Project Gutenberg e Internet Archive). E temos também buscadores para encontrar informações mais rapidamente e até algoritmos de alta precisão para indicar-nos leituras. Por isso, a nova biblioteca precisa ser mais.

Parque Biblioteca Fernando Botero. Foto de Orlando Garcia.
Parque Biblioteca Fernando Botero. Foto de Orlando Garcia.

Tanto que, em algumas situações, elas podem oferecer tudo isso sem um único livro físico9. Aí o nosso lado purista é desafiado com as experiências de “bibliotecas sem livro”, em ascensão nas universidades estadunidenses10. Ainda devemos chamá-las de bibliotecas? Ou chamaremos a antiga biblioteca de museu de livros? Bem, não sejamos extremos, pois o caminho está no convívio do velho com o novo.

Pelo mundo, com a IFLA11, e especialmente nos Estados Unidos, com os estudos de MIT12, ALA13 e outras entidades que já discutem o futuro das bibliotecas há muitos anos, percebe-se um grande esforço em favorecer a experiência do usuário14 (conveniência), assim como em fazer a transição de conteúdos para novas tecnologias (preservação), gerando um ótimo efeito inclusive sobre o acervo físico (relevância). Veja-se que nos EUA investe-se 72% do orçamento das bibliotecas15 em aquisição de livros não físicos e de serviços digitais, resultado em um significativo aumento no número de visitas e de empréstimos16.

 

A nova biblioteca assume novos e importantes papéis sociais

Não precisamos ir muito longe para ver exemplos concretos dessa nova biblioteca. De Medellín, a ideia de Parque Biblioteca17 foi trazida para o Rio de Janeiro, na Biblioteca Parque de Manguinhos18. Já em SP, o Carandiru transformou-se na Biblioteca de São Paulo19.

Biblioteca de São Paulo. Foto: Divulgação.
Biblioteca de São Paulo. Foto: Divulgação.

Esses espaços, além de oferecerem a boa e velha leitura, seja física ou digital, fomentam diversas atividades artísticas e sociais; funcionam como centros multimídia, Fab Labs e incubadoras de negócios; disponibilizam inclusão digital e aperfeiçoamento profissional; ou seja, transformam a biblioteca em um efervescente epicentro sociocultural.

E o melhor está por vir. Tudo isso abre as portas para ainda mais funções, como a criação e publicação de conteúdos próprios para fins didáticos, literários, historiográficos… Em resumo, a biblioteca do futuro assume um papel ativo na transformação da sociedade.

Continua nas partes 2 e 3…

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