Se você cansou de todo filme ser uma continuação, prévia ou reboot, está na hora de conhecer uma produtora que está mudando a cara de Hollywood e que acaba de sair premiada do Globo de Ouro com o fenômeno Moonlight (de Barry Jenkins).

Como escrevi sobre The Lobster e em Swiss Army Man, a produtora A24 tem sido responsável por distribuir alguns dos filmes mais singulares dos últimos anos. Embora a maior parte do seu catálogo seja de outras companhias, como a Film4, ela tem operado segundo a filosofia de “distribuidor como autor”. Isso a tem levado a escolher excelentes projetos que, de outro modo, passariam despercebidos.

“A24 is making a single-company case for the power careful film curation can wield.” (Jacob Oller – Film School Rejects)

A qualidade das suas seleções é evidente, basta dar uma olhada no Rotten Tomatoes ou no Metacritic. E o nível de seus filmes é constante: em 2014 lançou títulos como Enemy, Under the Skin e Locke; em 2015 foi a vez de Ex Machina, The Lobster, Amy e Remember, entre outros; até chegar em 2016 com Green Room, The Witch, Room, Swiss Army Man e Moonlight, um dos favoritos da crítica no ano e premiado como Melhor Filme de Drama no Globo de Ouro, além de Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Filme no Oscar.

O que é mais interessante sobre isso é que todos são projetos elaborados “dentro do sistema”, com participações esporádicas de atrizes e atores conhecidos, mas com orçamentos enxutos e uma base independente. São projetos autorais e com visão, geralmente escritos e dirigidos pela mesma pessoa.

A produtora ainda ajuda a trazer novos ares a gêneros populares, caso de The Lobster (romance distópico em que pessoas são transformadas em animais), The Witch (terror situado em 1630, com falas da época), Locke (drama com um único personagem dentro de um carro o tempo todo) ou Under the Skin (ficção científica na qual uma alienígena descobre compaixão pela humanidade).

“Suddenly, in order to be financially viable, a project has to cost less than $2 million or more than $200 million.” (David Ehrlich – Slate)

Ela tem feito isso por meio de apostas em talentos pouco explorados. Quando dirigiu Enemy, Denis Villeneuve ainda não havia estourado e hoje é responsável por Arrival e o novo Blade Runner. Green Room mantém o suspense indie que Jeremy Saulnier trabalhara no surpreendente Blue Ruin. E os Daniels por trás de Swiss Army Man nunca haviam dirigido um longa e eram mais conhecidos pelo clipe de Turn Down for What (sim, aquele hit de Dj Snake e Lil Jon).

“The A24 partners are militant about their indie roots. They don’t covet star casting, disdain sequels and franchises and believe the majors’ marketing strategies are a self-destructive course.” (Peter Bart – Deadline)

O resultado disso já está aparecendo. Amy, Room e Ex Machina já saíram vitoriosos das premiações mais populares e os críticos reconhecem o logo da A24 no início de um filme como o sinônimo de algo bom, ou pelo menos diferenciado. Moonlight atraiu ainda mais atenção para seu catálogo, sobretudo por marcar a volta às produções próprias.

Isso é um grande feito para uma empresa surgida apenas em 2012. Que mais produtoras e distribuidoras sigam o seu exemplo, ou que a A24 conquiste melhores resultados no Brasil para termos mais acesso aos seus filmes.

Dada a possibilidade, mostraremos que para apreciar um filme não precisamos de orçamentos padrão Marvel, elencos famosos ou outras pirotecnias. Só precisamos de uma boa história, contada com dedicação.

Filmes da A24 mencionados neste artigo (recomendo todos que vi):

O Lagosta (The Lobster, de Yorgos Lanthimos) – excelente.
Um Cadáver para Sobreviver (Swiss Army Man, de Daniel Kwan e Daniel Scheinert) – muito bom.
O Homem Duplicado (Enemy, de Denis Villeneuve) – muito bom.
Sob a Pele (Under the Skin, de Jonathan Glazer) – muito bom.
Locke (de Steven Knight) – excelente.
Ex Machina (de Alex Garland) – excelente.
Amy (de Asif Kapadia) – excelente.
Memórias Secretas (Remember, de Atom Egoyan) – bom.
Sala Verde (Green Room, de Jeremy Saulnier) – bom.
A Bruxa (The Witch, de Robert Eggers) – muito bom.
O Quarto de Jack (Room, de Lenny Abrahamson)
Moonlight (de Barry Jenkins) – excelente.