Como aproveitar melhor a arte

Desta vez tentarei algo que não se vê há muito tempo no Clássicos Universais. Ser breve.

Na verdade, isto pode ser lido como um complemento ao artigo sobre Westworld e como uma cristalização de várias coisas que escrevi aqui e nas redes sociais ao longo dos anos, porque minha posição diante da criação artística sempre foi a seguinte:

Uma obra de arte marcante traz mais perguntas que respostas.

Note-se que não falo aqui de obras “boas” ou “ruins”, cuja avaliação envolve muitos fatores subjetivos, mas daquelas que expandem nosso universo. Elas ficam conosco e, algumas vezes, transformam-nos. Podemos até recorrer a elas para explicar conceitos difíceis da experiência humana. Compõem, portanto, o nosso vocabulário de interpretação do mundo, como passar por um processo kafkiano ou viver em Tempos Modernos.

Existem obras excelentes que não levantam perguntas nem oferecem respostas – e isso é perfeitamente aceitável. Eu mesmo adoro um bom blockbuster ou uma boa história em quadrinhos de ação, mas para cada Guerra Civil há mais do que acompanhar batalhas épicas. Não se escolhe entre Homem de Ferro, Capitão América ou Capitã Marvel per se, e sim entre possíveis soluções para as questões filosóficas no cerne das tramas.

Filosofia, agora com lasers!

Por lidar com tantas e tão importantes perguntas, a arte tem na filosofia uma grande aliada. As duas sustentam-se em um ciclo positivo: a imaginação artística oferece novos terrenos para a exploração filosófica, também traduzindo os conceitos desta para novos públicos, e a filosofia, por sua vez, instiga a imaginação com ainda mais possibilidades a serem desenvolvidas.

Esse ciclo, como as duas forças que o movem, não tem fim. Ou sequer tem o fim como propósito. Contudo, ele amplia continuamente a nossa consciência do mundo e de nós mesmos, tornando-nos maiores do que éramos antes.

 

“A razão humana é atormentada por questões que não pode rejeitar, mas também não pode resolver.”
– Immanuel Kant.

 

Já notei que mesmo pessoas instruídas sentem algum desconforto quando o tema filosofia surge em uma conversa. O receio delas (creio) é que o assunto girará em torno de estigmas como “Deus existe?”, “qual é o sentido da vida”, “foi golpe ou não?” etc. Ainda que tais perguntas façam parte da filosofia e a filosofia política seja um debate necessário, minha defesa é a de uma filosofia maior e muito mais perto do que se imagina.

A filosofia ajuda a aproximar a arte da vida real.

Exemplo rápido: Admirável Mundo Novo e 1984 são dois livros ótimos, como escrevi em Orwell versus Huxley, um duelo de distopias. Histórias assim nos deixam perplexos, como também é o caso da animação WALL-E (de Andrew Stanton), porque nos perguntamos como os personagens acabaram nas situações absurdas em que os encontramos.

O que essas obras ponderam é do quanto estamos dispostos a abrir mão para termos nossas necessidades satisfeitas. A natureza dessas necessidades, os contratos sociais que firmamos e suas consequências são temas elaborados por Hobbes, Locke, Rousseau e Burke, entre outros, e pensar nisso envolve mais do que criticar o outro; envolve igualmente pensar nos contratos que cada um de nós assina hoje mesmo.

A filosofia ajuda a entendermos melhor a arte.

Por que determinados livros ou filmes causam tamanha impressão, enquanto outros passam batidos? Por que a pintura, mais que retratar uma cena, tem um efeito meditativo em nossa mente? Para tais questões, a filosofia permite-nos refinar a nossa experiência artística e revelar na arte um espelho das nossas preocupações mais íntimas.

Exemplo rápido: por que filmes de terror assustam? Além de passar por uma vivência sexual, o gênero trabalha com uma área da filosofia chamada epistemologia, ou seja, trata das coisas que podemos realmente conhecer no universo e de que forma fazemos isso. E dentro da epistemologia existe a corrente do empirismo, que põe o conhecimento sujeito à experiência (diferentemente do raciocínio lógico).

Nisso, Hume define que todo o nosso conhecimento é indutivo, composto pelo hábito. Toda vez que abrimos o guarda-roupa esperamos ver lá as nossas roupas, porque sempre que o abrimos tivemos esse mesmo resultado. Contudo, não podemos comprovar que nossas roupas estarão lá até de fato o abrirmos. Esse é o pensamento indutivo. Então, abrimos o guarda-roupa e há um fantasma/cadáver/lobo e levamos um susto, porque esse conhecimento construído por anos foi rompido em poucos segundos.

“Pode ou não haver cabelo debaixo da minha touca de banho…”, Hume.

Exemplo rápido 2: por que Breaking Bad é um dos maiores fenômenos televisivos dos nossos tempos? Porque, como o melhor teatro grego de 2.500 anos atrás, é uma poderosa tragédia moral, analisada tantas e tantas e tantas vezes. A série evoca a filosofia moral e leva-nos a perguntar se é justo fazer algo errado por uma boa causa, quais são os limites e as consequências das nossas ações, o que faríamos na mesma posição?… Afinal, ainda somos profundamente morais, mesmo na pós-modernidade.

 

“It’s not just about crime and the wages of crime. It is about moral values. It’s about the choices we make – and the consequences that follow.”
– Mary Kenny.

 

A filosofia ajuda-nos a definir quem somos diante das perguntas que a arte nos faz e também a propor novas perguntas em forma de arte.

De uma forma ou de outra, todos somos atraídos pelo mistério. A arte que se propõe somente a oferecer respostas, escreve-as na areia; antes, a arte inscreve-se no caminho para realidades que não vislumbráramos até então – ela sugere, provoca, questiona. Ela aprofunda o mistério para que aproveitemos mais de suas paisagens. Tanto que a frase mais conhecida de toda a literatura não é uma certeza, mas uma indagação:

 

“To be, or not to be, that is the question”.
– Shakespeare.

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