O clímax é um daqueles conceitos que todo mundo sabe do que se trata, mas tem imensa dificuldade de colocar na prática. Este guia ajudará você a chegar lá.

Para começo de conversa, clímax tem origem na palavra grega klimax, que significa “escada”. Esta é a parte que todos conhecem: é o ponto alto de uma história, de um discurso, de uma piada etc.

Enquanto escada, precisamos saber como subir seus degraus para alcançar o topo e satisfazer não só o arco da história, mas também a experiência do público. O leitor/espectador deve ser preparado para o ápice e receber de acordo com o que foi prometido, para que possa enfim relaxar.

Disso tiramos três passos fundamentais para você refletir na hora de construir suas narrativas.

1. Guarde suas armas

Antes de chegarmos ao exemplo do Super-Homem, devemos abordar algumas regras iniciais. Primeiro, comece por baixo, como faço aqui. Um dos maiores problemas com a Economia de Atenção é que a arte acaba se conformando à média do que a audiência aceita, em vez de atrair a média a um novo patamar. Isso resulta em uma pressão para jogar-se logo no início tudo o que os autores têm de melhor, como chamariz para o restante da obra.

Três Homens em ConflitoQuando penso em clímax no Cinema, o melhor exemplo que me ocorre é o de Três Homens em Conflito (The Good, the Bad, the Ugly, de Sergio Leone), que já resenhei em outro artigo aqui no Clássicos Universais. É claro que as figuras icônicas de Eastwood, Wallach e Van Cleef sob as lentes de Leone ajudam a amplificar o ponto alto do conflito, com bônus para a trilha sonora de Ennio Morricone.

Mas é a escolha de começar em uma nota mais discreta que torna “o êxtase do ouro” tão mais efetivo. Se nos primeiros minutos já tivéssemos a mesma intensidade, a impressão geral do filme se equalizaria. Em outras palavras – não teríamos escada para subir.

Lee Van Cleef em Três Homens em ConflitoIsso é evidente na calma com que o vilão é apresentado. Sua maldade poderia ser introduzida de um modo mais espalhafatoso, com tiros, explosões e sangue para todo lado, porém isso limitaria o mal que ainda poderia fazer ao longo do filme. Ele seria mau igual, sempre.

Daí a genialidade de apresentar o vilão da forma mais pacata possível, para que ele tenha seu próprio clímax de vileza. Angel Eyes surge discretamente e dedica-se a uma atividade tão trivial quanto comer. É o mesmo caso da apresentação de Dr. Hannibal Lecter em O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, de Jonathan Demme), ou de Col. Hans Landa em Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, de Quentin Tarantino), em uma cena muito parecida com o exemplo de Três Homens em Conflito.

Hans Landa em Bastardos Inglórios por Quentin TarantinoMesmo quando Leone começa intensamente, como na abertura de Era uma Vez no Oeste (Once Upon a Time in the West / C’era una volta il West), ele tem parcimônia para reconstruir a história por baixo, para elevá-la de novo. Tarantino, como mencionado, é adepto dessa estrutura. Os começos de seus filmes são notoriamente anticlimáticos, como em Pulp Fiction: Tempo de Violência ou Cães de Aluguel (Reservoir Dogs).

Portanto, não se afobe no primeiro ato. Guarde as pirotecnias para mais tarde, quando realmente importam. Aqui é mais interessante concentrar-se na construção do seu universo particular para que o público possa identificar-se e torcer por alguma coisa quando o clímax de fato chegar.

Não é só uma questão de o que ver, mas de por que ver. Recomendo a leitura de A Gramática da Emoção, em que explico isso mais a fundo.

2. Faça preliminares com propósito

Digamos você tenha apresentado seus personagens e o mundo em que eles vivem. Começando aí de baixo, agora é preciso preparar os degraus da subida.

Para tanto, você deve ter em mente o clímax desejado no final, pois sabendo o destino é mais fácil traçar a rota até lá. Assim como é importante dar tempo para que a história se desenvolva, é preciso mantê-la próxima para que não se perca no caminho, desviando-se do objetivo principal.

O Exorcista (The Exorcist), antes de transformar-se em um dos maiores terrores do Cinema, dirigido por William Friedkin, é um romance de William Peter Blatty sobre a possessão da pequena Regan e o exorcismo feito pelo Padre Karas. É uma história brutal e aterradora, porque se dedica a avançar sem pressa e com riqueza de detalhes.

O livro começa assim:

“Que nem o breve clarão efêmero de sóis explosivos que os olhos dos cegos mal registram, o começo do horror passou quase despercebido. De fato, comparado à histeria subsequente, foi esquecido e talvez nem relacionado absolutamente com o horror.” (Tradução de Milton Persson para a Edibolso, pág. 15, grifo meu.)

Jason Miller e Max Von Sydow em O Exorcista de William FriedkinEntão ele descreve a evolução gradual de Regan, sem deixar claro no início do que se trata e da extensão do horror anunciado. Sabemos, contudo, que O Exorcista é sobre Regan e como resolver seu problema, porque nunca nos afastamos dela. Blatty não se perde nos personagens secundários nem cria novos inimigos no caminho; é sempre o mesmo, que se revela cada vez pior conforme os fatos desenrolam-se. Tudo gira em torno de perceber, esclarecer e resolver o “horror”.

É só na página 217 que Padre Karas encontra Regan pela primeira vez, preparando o leitor para o clímax do exorcismo. Isso nos ensina a procurar o meio-termo entre dar tempo para que a história desenvolva-se e não perder a atenção do leitor. Daí a importância de deixar clara a intenção do conflito e não nos afastarmos dela.

Como ilustração, serve a comparação entre os filmes de Marvel (MCU) e DC (DCEU). Os títulos mais engajadores e bem aceitos da Marvel são aqueles que apresentam objetivos nítidos – vencer uma ameaça que acompanha o arco narrativo do começo ao fim. Já a DC tem falhado nesse aspecto, especialmente em Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice, de Zack Snyder).

No filme, duas histórias icônicas dos quadrinhos são misturadas em uma massa disforme e sem identidade, mudando completamente o foco da ação no meio da narrativa e, por isso, oferecendo um clímax pouco satisfatório.

Agora é uma boa hora para falar de Super-Homem…

3. Vá com tudo!

Suponhamos que você tenha pulado o passo 1 por qualquer motivo e queira dar uma de George Miller em Mad Max: A Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road) ou DC Comics em The Death of Superman. Contudo, o passo 2 ficou intacto e você se manteve na rota do conflito principal. Em Mad Max, é todo mundo contra Furiosa. No quadrinho, é Super-Homem contra Doomsday.

Ainda assim, mesmo sendo duas obras com alto nível de intensidade do começo ao fim, é possível apontar o exato instante em que alcançam o clímax porque sobem aquele último degrau. Eis aí o segredo do clímax: aumentar as apostas. No pôquer, seria o all-in, a jogada em que o apostador coloca todas as suas fichas. É o movimento de maior risco no jogo e do qual não há escapatória, como deve ser uma ação climática. É “vai ou racha”.

Em Mad Max, é quando o comboio de Furiosa deixa de fugir e vem ao encontro de Immortan Joe. No caso de The Death of Superman, havia uma enorme pressão para trazer uma novidade aos fãs do herói, daí o plano de matá-lo, algo que ainda não ocorrera com ele.

Então, como transportar esse acontecimento épico para as páginas do quadrinho?

A história tem alta octanagem, apresentando um vilão tão muscular quanto raso: Doomsday. Ele é tão poderoso que derrota as forças combinadas da Liga da Justiça com um só braço. Mas para que um clímax fosse possível ao final, nesse princípio há um escalonamento dos degraus.

A ação começa no meio do nada, dividida em pequenos painéis. Essa dimensão é essencial à estrutura da obra, pois assume a função do passo 2, isto é, mostra em detalhes o funcionamento desse universo. Tanto que as primeiras páginas têm quatro painéis ou mais.

Origem Doomsday em A Morte de Super-Homem por DC Comics

Liga da Justiça contra Doomsday em A Morte de Super-Homem por DC ComicsMesmo durante as cenas mais intensas a luta fica contida nessas divisões. E até a metade de The Death of Superman os painéis de página inteira são escassos, geralmente usados para abrir ou fechar um ato. Quem lê quadrinhos sabe que, depois de várias páginas com informações espalhadas em painéis menores, ver uma página inteira ilustrada é como se surgisse uma explosão à frente.

Do meio para o final, a estrutura fica mais clara. Repetidamente, as páginas aparecem com quatro painéis, então três, dois e, no clímax, uma sequência grandiosa de vinte e duas páginas inteiras.

Nesse momento, já conhecemos toda a dinâmica dos personagens e do ambiente em que estão; além disso, as apostas foram elevadas porque ora a luta é no meio de Metropolis e, claro, Lois Lane e Jimmy Olsen estão sob ameaça direta de Doomsday. Se Super-Homem não pará-lo nesse instante, tudo estará perdido.

 

Liga da Justiça contra Doomsday em A Morte de Super-Homem por DC Comics

Resumindo, um bom clímax precisa de um objetivo claro (parar Doomsday); precisa de tempo para ser desenvolvido (Doomsday prova-se mais forte que todos os heróis juntos e avança sobre Metropolis); e precisa ampliar os riscos (Super-Homem está prestes a perder sua cidade e o amor da sua vida).

Daí tiramos três pontos essenciais na hora de escrever um clímax:

  1. Quais informações preciso dar ao público para que ele se importe com a resolução do conflito? E como meus personagens podem crescer com as informações apresentadas?
  2. Qual é o conflito principal que meus personagens precisam resolver no fim da história?
  3. Como posso piorar a condição deles? Ele que situação eles precisam ir para o “tudo ou nada”?

 

 

Créditos de The Death of Superman, publicado por DC Comics:
Escrita: Dan Jurgens, Louise Simonson, Roger Stern, Jerry Ordway e William Messner-Loebs.
Arte: Jon Bogdanove, Tom Grummett, Jackson Guice, Dan Jurgens, Dennis Janke, Denis Rodier, Walt Simonson e Curt Swan.