Assim que o filme da Liga da Justiça acabou eu sabia duas coisas: tinha sido mais divertido do que esperava e em uma semana já teria me esquecido dele.

Isso é um grande problema para Justice League (dirigido por Zack Snyder e completado por Joss Whedon, 2017), pois tem gerado expectativa desde 23 de julho de 2016, quando saiu o primeiro teaser na Comic-Com. Ou seja, tem-se quase 16 meses de propaganda para algo que não dura nem 7 dias na cabeça do público, mesmo com a diversão.

É claro que houve uma mudança no DCEU e esse é o único filme da franquia em que ouvi as pessoas rirem alto no cinema. Curti a sessão tanto quanto o resto da audiência, embora alguns detalhes já me incomodassem na hora. Por exemplo, na cena em que o Flash empurra o carro ele teria matado toda a família de fugitivos com o baque da desaceleração. O Quicksilver de X-Men: Days of Future Past (Bryan Singer, 2014) abordara esse fator há 3 anos, mas tudo bem, é um filme com deuses e pessoas que ressuscitam, não uma aula de física.

O que não consigo relevar é o fato de a Liga da Justiça ser completamente descartável. Depois de dezenas de filmes de super-heróis é inevitável o espectador construir um repertório do gênero e saber que houve exemplos muito melhores antes, exemplos de filmes que marcaram e até hoje são discutidos. Cito alguns dos mais recentes aqui:

Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, Christopher Nolan, 2008) – Além da interpretação icônica de Heath Ledger no papel de Joker, seu personagem ainda suscita a questão: estava certo ou errado? Na verdade, estava certo em alguns aspectos e errado em outros. Sim, ele e Batman são parecidos, dois caras completamente insanos; um anarquista clown, outro totalitário gótico. Mas é isso que define o herói, sem sua loucura individual não haveria freio à loucura generalizada. Ele precisa desse manto para proteger as pessoas.

Capitão América 2: O Soldado Invernal (Captain America: The Winter Soldier, Joe e Anthony Russo, 2014) – Foi mais que um upgrade do primeiro filme, a história definiu para o cinema o caráter do Capitão América tal qual nos quadrinhos: um produto do Governo que não pode confiar nessa autoridade. Suas verdadeiras relações são construídas no dia a dia (Sam Wilson) e no campo de batalha (Natasha Romanoff). É o fato de ele escolher um caminho à parte que o permite salvar o mundo.

Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, James Gunn, 2014) – Deu um novo caminho ao MCU com a experiência extraplanetária, numa época em que até Asgard parecia mais um cenário medieval que divino. Sobretudo, foi responsável por estabelecer uma dinâmica de grupo que nem os Vingadores tinham alcançado. Cada membro era bem definido, exceto Groot, e todos tinham uma razão pessoal para estar ali e dar o braço a torcer, exceto Groot de novo, porque Groot.

Logan (James Mangold, 2017) – Nele, todo o conflito do protagonista é estabelecido pela sua relação com Laura e os dois se definem: ele tem seu lado mais heroico por causa dela e ela tem sua maior referência de heroísmo e sacrifício por causa dele. Quem aqui não quer ver as aventuras de X-23 ao crescer?

O que todos esses filmes têm em comum é que eles definiram os personagens. Depois dessas histórias eles não poderiam ser iguais, porque houve consequências, houve mortes, houve aprendizado. Até a Mulher-Maravilha teve de aprender com a morte de Streve Trevor que sua hesitação custa vidas. É por isso que com alguns ajustes dá para transformar Liga da Justiça em algo tão memorável quanto esses exemplos acima, pois não é só o humor que salvará o DCEU da crítica.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI.]

justice-league-movie-aquaman-wonder-woman-flash-cyborg-finale

Divulgação Warner Bros.

1. O filme precisa de mais tempo e tal problema não é criativo, é executivo. Existiu a determinação do estúdio para que o filme não passasse dos 120 minutos.

Essa duração funcionou para Guardiões da Galáxia, porém não é o que Liga da Justiça demandava pelas condições próprias do roteiro. Tinha de apresentar um vilão e três novos heróis, ressuscitar outro, ter batalhas em cada mundo contra Steppenwolf e na Terra contra Super-Homem, passar um tempo com Lois Lane e com uma família russa… Ufa!

Para dar conta de tudo e manter um ritmo constante, ao invés de batalha-piada-batalha-piada, era preciso um mergulho mais profundo nesse universo.

2. Faça um vilão com propósito, por favor. O tempo todo Steppenwolf quer destruir o planeta, só que jamais sabemos o que ele tem a ganhar ou perder com isso. Está chateado por não ter conseguido na primeira tentativa, mas é tudo quanto percebemos dele. Bastante entediante para um deus.

Sabe o que o tornaria mais poderoso? Mostrá-lo vulnerável. Isso mesmo, para elevar-se algo é mister uma perspectiva mais baixa de onde olhar. Esse lado vulnerável poderia vir de sua relação com Darkseid, que questiona o comando de seu general por não dominar a Terra. Se Steppenwolf não conseguir desta vez, perderá a cabeça ou algo assim.

Não dá mais para jogar um vilão em cena e dizer “como é bom ser mau”, seguido de uma gargalhada malévola. Os grandes roteiristas entendem que a plateia é um pouco pervertida e, no fundo, precisa torcer pelo antagonista para torná-lo relevante à trama.

justice-league-movie-lois-lane

Divulgação Warner Bros.

3. Deixe Lois Lane fazer o trabalho dela. Para uma repórter aguerrida, ela passa o filme inteiro reclamando que não tem mais por que escrever.

Vamos reestruturar as cenas dela da seguinte maneira: ela está no Daily Planet e tenta escrever, a página em branco a encara e não sai uma palavra. Lois olha para o lado e há um jornal na parede com a manchete da morte do Super-Homem, ela pensa por um momento e decide sair. Em seguida, aparece na casa de Martha Kent, que está empacotando a mudança por não ter dinheiro para a casa. As duas mulheres conversam sobre os novos tempos até que o celular da repórter toca e ela é chamada com urgência à redação.

Sua personagem serve de ponte entre os horrores do exército de parademônios e a população da Rússia. No jornal, diversas telas mostram filmagens amadoras de pessoas sendo mortas pelos monstros. Gritos, cinegrafistas fugindo, medo. Não precisa mostrar qualquer gore, apenas vozes humanas desesperadas. Lois volta a escrever, cobrindo o ataque por simpatia às vítimas.

Com isso, ela tem uma boa razão para mandar o seu amado, que acabou de voltar à vida, para o campo de batalha. Pessoas estão morrendo e tanto a Lois quanto ao Super-Homem cabe uma cota de sacrifício na tentativa de impedir uma destruição maior. Já vimos em A Chegada e Animais Noturnos que Amy Adams merece roteiros melhor que este.

4. Flash, Aquaman e Cyborg precisam de apresentações tridimensionais. Não dá para contar com a fama dos quadrinhos, eles têm que funcionar por conta própria no cinema. Piadas tampouco valem como arco narrativo (ouviu, Barry Allen?).

justice-league-movie-flash

Divulgação Warner Bros.

Flash: É ridículo que ele e seu pai tenham uma conversa super-séria e sem qualquer detalhe da relação entre os dois se o herói vai visitá-lo com frequência. Acho o começo do filme bem fraco nesse sentido, dependendo de palavras pesadas para forçar emoções. Mostre e não fale, caramba!

Na conversa entre pai e filho ambos estariam tranquilos, comentando como ia o mundo lá fora. O pai pergunta se o filho já abandonou a ideia infrutífera do processo e arranjou um trabalho de verdade. Barry responde que não, o pai fica desapontado. Ele não diria apenas “você é brilhante”, falaria algo pontual como “lembra daquela vez que você estava doente, foi fazer a prova sem estudar e tirou A mesmo assim? Isso é o que eu mais admiro em você, filho. Deixe-me orgulhoso, arranje um trabalho de verdade e conquiste seu sucesso.”

Pronto, aí quando Bruce vem pedir ao Flash para entrar no time, temos uma nova piada. Ao invés de “eu topo, simples assim”, teríamos uma fala do tipo “e nós recebemos salário por isso?” Claro que sim, o poder do outro é ser rico! Essa é a motivação para se juntar à Liga da Justiça, para dar orgulho ao pai, e torna seu medo na primeira batalha mais real: ele só queria um salário, agora tem que pôr a vida em risco.

justice-league-movie-aquaman-3

Divulgação Warner Bros.

Aquaman: É outro a quem falta motivo melhor para estar ali, pois um cara que nunca deu a mínima não mudaria de opinião porque outra personagem disse: “sua mãe faria isso”.

Um cenário possível e muito mais dinâmico seria colocá-lo em um caso de omissão durante o ataque de Steppenwolf a Atlantis. Arthur estava se embriagando em terra firme, virando garrafa atrás de garrafa para se esquecer de Bruce. De repente um pescador entra no bar e avisa que viu algo cair do céu e sumir na água. Aquaman o ouve e percebe o perigo, logo correndo para o mar.

Contudo, ele está embriagado e seus sentidos revelam-se deturpados. Durante o confronto, por sua causa um soldado amigo seu é morto. Mera entra com seu discurso e carimba o destino de Aquaman, que parte em busca de vingança e redenção.

Sua presença no grupo é instável. Da mesma forma que Cyborg não sabe controlar a tecnologia, seu ímpeto de tirar o peso da consciência prejudica a estratégia do grupo. Se ele não aprender a trabalhar em conjunto, jamais deterá o inimigo.

justice-league-movie-cyborg

Divulgação Warner Bros.

Cyborg: Precisa de menos falas pomposas e mais situações que expressem visualmente seus conflitos.

Dá para fazer isso já na primeira cena em que aparece. O pai de Victor entra em casa, assustado pelos barulhos estranhos que vêm de dentro. O apartamento treme, coisas voam pelo ar e quebram-se contra a parede. A sala está um caos, tudo pelo chão; Victor está em transe em frente à TV, reprisando notícias da sua morte.

O pai tenta chamá-lo a si, Victor assusta-se e joga o pai para longe, mas enfim acorda. Tenta levantar Silas, que prefere não ser tocado por medo do filho durante o ataque de violência. Os dois então podem ter a discussão de Cyborg não saber o que é, não conseguir controlar sua tecnologia e a cada dia fazer novas coisas. O pai diz-lhe: você recebeu uma segunda chance, uma segunda vida.

O arco do personagem fica estabelecido dessa forma. O Victor de antes morreu no acidente, o Cyborg de agora precisa de figuras como Mulher-Maravilha e Batman para aprender a lidar com seus poderes e viver de novo.

justice-league-movie-aquaman-wonder-woman-flash-cyborg-battle

Divulgação Warner Bros.

5. A Liga da Justiça deveria sofrer muito mais, tanto nas mãos dos próprios integrantes quanto pelo machado de Steppenwolf.

A luta entre Super-Homem e a Liga foi divertida, admito, e para mim o melhor momento de todo o filme foi a hora em que o Homem de Aço vira para o Flash correndo em Speed Force e percebemos o quão rápido ele é. O problema é que essa luta não tem qualquer consequência para a narrativa e logo a seguir os nossos heróis lamentam que Super-Jesus não dera as caras.

Se eu tivesse acabado de levar uma surra de um Super-Homem ressuscitado e sem o total controle da sua mente, não me importaria se fosse uma semideusa, o homem mais rápido do mundo ou um morcegão precavido, estaria borrando-me de medo. Todo o conflito que acabamos de ver foi para saciar o vício de Zack Snyder por momentos filmáveis, em vez de se preocupar com histórias marcantes.

Portanto, quando Super-Homem entra na batalha final, os outros deveriam ficar com um pé atrás. Eles ainda não sabem que ele é o mesmo Clark Kent de sempre, que deve apanhar um bocado nessa luta. O final é bastante anticlimático para a Liga da Justiça e para os demais filmes do DCEU, pois se Super-Homem consegue resolver tudo sozinho tão rapidamente, qual a importância dos outros?

Só que esse não é o caso da nossa versão ideal. Nela, todos apanham para valer e, por um momento, a esperança parece desfeita. Enfim, num golpe de sorte, Super-Homem coloca-se em posição de sacrificar de novo sua vida para ajudar os outros e nessa hora a Liga percebe sua paixão pela justiça, é quando viram um time de fato. Todos dão aquele último suor e juntos derrotam Steppenwolf. Fim.

Acredito que dessa forma a equipe inteira tem um porquê de estar ali, com arcos narrativos bem definidos e com aprendizados próprios. Os três novos integrantes procuravam recompensas pessoais e encontraram uma nova família para a nova versão de si mesmos.

Gostou dessas alterações? Faria algo diferente? Elabore suas teorias nos comentários e que Diana nos ajude!

justice-league-movie-wonder-woman-gal-gadot-cut

Divulgação Warner Bros.

Créditos:
Título: Liga da Justiça / Justice League;
Direção: Zack Snyder;
Elenco: Gal Gadot, Ben Affleck, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Henry Cavill, Amy Adams, Jeremy Irons…;
Roteiro: Chris Terrio, Zack Snyder, Joss Whedon;
Cinematografia: Fabian Wagner;
Edição: David Brenner, Richard Pearson, Martin Walsh;
Música: Danny Elfman;
Produção: Warner Bros., Ratpac-Dune Entertainment LLC;
Ano: 2017;
País: Estados Unidos;
Gênero: Ação.

 

Que nota você dá para Liga da Justiça?
Votação do leitor 47 Votos
7.5