Crash, de J. G. Ballard

O que dizer de Crash, romance de J. G. Ballard (1930–2009) publicado em 1973? Primeiro, que é algo inusitado. A começar pela história.

Crash narra os eventos ocorridos na vida de James Ballard (mesmo nome do autor), após um acidente automobilístico sofrido entre seu carro e o da médica Helen Remington, acidente no qual morreu o marido de Helen. James então desenvolve uma obsessão por tecnologia e sexo, em especial o lado violento de ambos, no que o narrador-protagonista chama de “uma nova sexualidade, nascida de uma tecnologia perversa”.

James, durante a recuperação e depois, transa com sua mulher, Catherine, reencontra a Dra. Remington, transa com ela, encontra um maníaco por acidentes de carro, Vaugahn, e sonha em transar com ele; conhece personagens secundárias, transa com elas, o maníaco transa com sua esposa, depois James transa com o maníaco, e por fim o livro acaba. Em resumo, é um livro pornográfico. “Celebrating in the penetration of his rectum the most beautiful contours of a rear-fender assembly, a marriage of my penis with all the possibilities of a benevolent technology” é o tipo de frase que podes esperar ler (prefiro não traduzir esta).

Entrementes, há um bocado de outros acidentes e simulações de acidentes, personagens e paisagens pitorescas, além de violência e erotismo “altamente estilizados”.

Como leitor, apreciei a experiência e o tema da obra, no entanto o desenvolvimento da narrativa me desagrada. Ballard me parece ansioso para provar seu ponto de vista.

Todo esse papo de “casamento entre tecnologia e sexo”, pelo menos da forma como ele coloca (“até mesmo as gigantes aeronaves que decolavam do aeroporto eram sistemas de excitação e erotismo, punição e desejo esperando para serem infligidos a meu corpo”*), é cafona. Às vezes soa como um desses movimentos naturalistas dos anos setenta que não sabem muito bem o que estão a dizer; noutras, soa como um 50 Tons de cinza para homens.

Oras, papel higiênico já é uma tecnologia e não é algo perverso. A diferença entre o papel higiênico e o carro é que você não anda no papel higiênico a mais de 100 km por hora.

O carro, por suas características, é capaz das violências que o livro descreve, mas, ao mesmo tempo, é capaz de maravilhas. É uma questão de ponto de vista e Ballard escolheu um. Até porque não acredito que o acidente tenha mudado a percepção do personagem central, o acidente apenas lhe mostrou novas experiências dentro de um mesmo contexto.

Se olharmos para o histórico da relação entre James e Catherine nada realmente mudou após o acidente. As lembranças de Ballard são dele a enfiar o dedo no reto dela à procura de matéria fecal. O que ele faz depois com ela é moleza.

O que acontece com a obra é que esse tal de “sexo e tecnologia” são uma coisa só, ambos são veículos para a violência, no lugar de uma relação afetiva entre as pessoas. Não creio ser culpa da tecnologia a forma como há essa deslocação do modo como se estabelecem vínculos entre elas, porque a tecnologia, seja ela o automóvel, ou o celular, ou a internet, se remove a afeição e a sinceridade das relações, o problema não está na tecnologia, mas naqueles que a usam.

Outro ponto interessante do livro é este detalhe para o qual Ballard, o autor, faz questão de chamar a atenção: as marcas das logomarcas dos carros ficam impressas nas peles depois dos acidentes. Isso me passa a imagem da marca a substituir a personalidade, ou seja, não somente os personagens pervertem as relações entre si, como também pervertem a própria imagem. E nesse sentido acho curioso o protagonista ser um publicitário, um homem que vive para as marcas.

De um modo geral, gostei do choque e da experiência que Crash provoca. E fica melhor da metade para o final, talvez porque as cenas fiquem mais expressivas, como o sexo entre a esposa de James e Vaughan no lava-carros, com essa ideia de limpeza no exterior do carro e corrompimento em seu interior; ou quando James enfim realiza seu impulso sexual com Vaughan*, com eles a acordarem cobertos de moscas, como se fosse a morte simbólica de Ballard.

Creio que Crash poderia ser melhor se fosse desenvolvido com mais calma. Talvez se a nova vocação erótica de James fosse descoberta aos poucos e com maior surpresa, se a violência automobilística subsequente fosse mais descontrolada, inconsciente, ao invés de tão metodicamente calculada. O acidente em si pouco afeta a vida dos personagens. Suas existências já eram e continuam a ser deploráveis. O único ‘crash’ que lhes faz diferença é o da morte.

Por isso considero, como o autor indica na introdução, que o livro sirva mais como uma precaução sobre o que podemos nos tornar, uma hipótese extrema, do que como uma narrativa dedicada, um estudo psicológico de determinada transformação de um personagem. Crash é um choque que pode levar à mera repulsão ou à séria reflexão de como temos levado nossas vidas.

*Crash, de J. G. Ballard, em tradução de José Geraldo Couto pela Companhia das Letras.

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