Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez

“No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h 30m da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava um bosque de grandes figueiras onde caía uma chuva branda, e por um instante foi feliz no sono, mas ao acordar sentiu-se completamente salpicado de cagada de pássaros. “Sempre sonhava com árvores”, disse-me sua mãe 27 anos depois, evocando os pormenores daquela segunda-feira ingrata.”*

Este primeiro parágrafo do curtíssimo romance Crônica de uma morte anunciada, escrito por Gabriel García Márquez (1927–) e publicado em 1981, um ano antes de seu autor receber o prêmio Nobel de literatura, revela três pontos importantes que podem ser verificados ao longo da obra. São eles:

Um: o grande acontecimento da história é revelado logo na primeira sentença – a morte de Santiago. Esse jogo com a estrutura típica da narrativa desloca o suspense para outras perguntas além daquelas “será que o matarão?” ou “como isso acontecerá?” e se foca mais em “como permitiram que isso acontecesse?”.

Já iniciamos o romance com os dados lançados; o resultado é inevitável, embora todos os personagens, com a exceção do principal, sabem da sua morte iminente. Isso gera uma sensação de absurdo, de quase fantasia, embora tudo se passe num mundo bastante palpável e, dentro do contexto narrativo, verossímil. García Márquez enquadra-se naquilo que se chama de realismo fantástico.

Santiago Nasar é o personagem principal, no entanto só sabemos dele através dos demais personagens, dezenas deles, e nunca pelo próprio Santiago, que permanece ignorante ao seu destino enquanto todos os demais aos poucos dão-se conta do que está para acontecer. Isso nos leva ao segundo ponto.

Dois: o tom intencionalmente desprovido de grande comoção pela tragédia que ocorreria pouco depois naquela manhã só faz aumentar a sensação de absurdo, como se aquele evento fosse tão casual quanto o casamento que ocorrera naquele povoado na noite anterior. Além disso, em alguns momentos essa apatia chega a ser cômica, pois todos ali parecem relutantes em acreditar ou em agir no sentido de impedir o assassinato. Até mesmo os assassinos dão mostras de relutância. Crônica de uma morte anunciada é como uma tragédia grega, como Édipo, mas sem qualquer determinação e tragicidade características dos gregos.

Três: e lembremo-nos de que se passaram vinte e sete anos entre os acontecimentos daquela segunda-feira e a narração dos mesmos, portanto qualquer assombro que as pessoas da época vivenciaram já fora mitigado pelo tempo e pelo esquecimento. Quem se dá ao trabalho de reunir todas as informações é um ex-colega de Santiago, esse narrador sem nome.

Contudo, seja pela passagem do tempo ou pela dificuldade de haver um consenso na reconstituição de um evento pelas diferentes percepções que cada um tem, como no filme Rashomon (1950), de Akira Kurosawa (Márquez admirava o trabalho do diretor japonês). Em diversas passagens do texto são apresentadas informações contraditórias sobre os acontecimentos daquele fatídico dia.

Todos os relatos compõem um mosaico incerto, no qual só sabemos com certeza que Santiago Nasar foi morto com vinte e sete facadas pelos irmãos Vicário. Todo o resto é marcado por discrepâncias, silêncios, esquecimentos.

Essa é a grande aventura de Crônica de uma morte anunciada, a viagem através da memória coletiva e de como ela pode ser esquiva, ou até mesmo enganosa. É interessante ver como cada indivíduo ali se funde com a sociedade, ao ponto de atribuir a ela a responsabilidade pela ação, e a eximir-se dessa responsabilidade, até que no final ninguém faz qualquer coisa e a tragédia enfim acontece.

Este é um livro engraçado, curto e com uma construção fascinante. É também um exercício narrativo brilhantemente executado, uma obra a seu modo tão boa quanto os títulos mais conhecidos do autor colombiano, como Cem anos de solidão e Amor nos tempos de cólera. Leitura recomendada.

*Crônica de uma morte anunciada (Crónica de una muerte anunciada), de Gabriel García Márquez, em tradução de Remy Gorga para a Editora Record.

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