Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha

Para alguns, Deus e o Diabo na Terra do Sol é o melhor filme brasileiro. Para outros, não passa de uma chatice. Para além do gosto, este filme é um desafio estético e moral. Glauber usou o sertão nordestino e seus personagens como alegoria para a situação política brasileira da época, porém sua mensagem continua útil.

Pontos principais:

  1. Apontado entre os melhores filmes nacionais, ao lado de Terra em Transe, do mesmo diretor, e Vidas Secas (Barren Lives), de Nelson Pereira dos Santos;
  2. Ao contrário de Terra em Transe, Glauber focou-se mais na história do que na técnica e por isso este filme é mais acessível ao grande público;
  3. A atuação muito convincente de Geraldo Del Rey;
  4. A mensagem e o desafio.

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Glauber Rocha foi um diretor brasileiro e para brasileiros, mas que parece ser mais aclamado no cenário internacional do que pelos próprios conterrâneos. Recebeu mais prêmios em Cannes do que muitos diretores, até de maior renome, e inclusive Martin Scorsese não esconde sua admiração por ele. Apenas agora, com o processo de restauração de sua obra, é que o Brasil redescobre filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe (Entranced Earth) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (Antonio das Mortes).

Por que muitos brasileiros ainda se negam a descobrir as qualidades de Glauber? Porque – e isso é de se admitir tristemente – muitos de nós estão presos ao formato dos grandes estúdios, ao mau cinema hollywoodiano. Hollywood vez por outra produziu filmes excelentes, no entanto para cada obra de arte empurrou dezenas de meros produtos de consumo para o público. É este o cinema a que o espectador brasileiro está acostumado: simples entretenimento, reducionista, fácil de ser digerido; por isso quando se depara com algo que o desafie ou o provoque ele tende a se esquivar.

E o cinema de Rocha é um desafio estético e moral – pergunta mais do que responde. Portanto, para o espectador mediano, Deus e o Diabo… pode tornar-se uma experiência demasiado cansativa, mas para aquele que se dispõe a engajar-se muito mais do que imagens lhe será revelado. Então, o que podemos encontrar neste filme?

Primeiro percebemos que se trata de uma produção inteiramente brasileira. Vemos ao fundo uma paisagem típica do sertão, com os créditos iniciais a mostrarem realizadores e atores brasileiros, e até a trilha sonora é nacional: Villa-Lobos e cordéis escritos pelo diretor. Depois dessa tomada aérea surge o close-up chocante de um animal morto, em seguida mostra-se um homem que o observa. Mais tarde saberemos que ele é Manuel (Del Rey), o protagonista.

Manuel reflete diante da carcaça, levanta-se e logo a seguir encontra uma procissão. Os beatos acompanham Sebastião (Lídio Silva), um líder religioso que promete coisas maravilhosas, como rios de leite, e diz que o sertão se tornará mar. “O sertão vai virar mar e o mar virar sertão”, ouvimos durante a projeção. Manuel encara essa manifestação religiosa e parece perplexo, então bate em retirada para contar a experiência a Rosa (Yoná Magalhães), sua esposa.

Deus e o Diabo na Terra do Sol (abertura)

A montagem da cena diz algo muito importante, sem precisar de palavras para dizê-lo. Manuel encontra-se em uma terra agreste e desolada, confronta-se com a morte próxima e vê uma única saída para sua angústia – a fé em milagres. Entretanto, Rosa não compartilha de sua fé. Ela tem um olhar perdido, quase morto de desesperança, no cansaço de quem precisa suar muito para conseguir uns poucos gramas de comida. E quando Manuel lhe conta seus planos para o dia seguinte, ela simplesmente suspira e fala “Acho que não adianta”.

Rosa dá as costas para Manuel.
Rosa dá as costas para Manuel.

Temos já dois caracteres importantes: Manuel é a crença, Rosa é a descrença. Não chegamos a saber muito mais sobre eles. Tiveram filhos? Ou alguma oportunidade na vida? Como se conheceram? Nada disso nos é apresentado, pois Glauber não considera necessário. Nesse quesito Deus e o Diabo… funciona como uma alegoria, quase como um conto fantástico. Manuel não é apenas ele, mas todos os que são iguais a ele. O mesmo vale para Rosa e para os demais personagens.

Não é de se espantar que os planos dele não tenham saído de acordo. Isso põe o casal em fuga e leva-os diretamente aos personagens que cedem o título ao filme, ao Deus e depois ao Diabo nessa terra do sol. Deus é representado por Sebastião; o Diabo por Corisco (Othon Bastos), último líder cangaceiro e amigo de Lampião, recém assassinado (Corisco foi retirado da vida real, seu apelido era Diabo Louro). Ambos aparecem como criaturas fantásticas em meio à realidade que os cercam, devido às atuações antinaturais de seus atores e à direção empregada a eles.

O Deus e o Diabo na terra do sol.
O Deus e o Diabo na terra do sol.

Há também o papel da linguagem, bastante alegórica neste caso – além de política. Com frequência ouvimos falas assim:

Corisco: É o gigante da maldade comendo o povo para engordar o Governo da República. Mas São Jorge me emprestou a espada dele para matar o gigante da maldade.

No meio disso ainda temos a figura de Antônio das Mortes (Maurício do Valle), que se autointitula matador de cangaceiros. Ele é contratado para matar Sebastião, porque este tem roubado os fiéis (logo, o dinheiro) da Igreja. Seu contratante – um coronel – primeiro é visto de costas, depois só é mostrada sua sombra. Por um longo instante presenciamos somente sua voz, a modo do diretor representá-lo como aquele que tem poder e nunca se deixa ver.

No canto direito.
No canto direito.

Apesar do serviço que presta, Antônio das Mortes é o único personagem politicamente consciente da história. É dele frases tais:

João das Mortes: […] eu não tenho medo de guerra; vivo nela desde que nasci.

Cego Júlio: É matando, Antônio? É matando que você ajuda seus irmãos?
Antônio: […] Eu não matei pelo dinheiro. Matei porque não posso viver descansado com essa miséria.
Cego Júlio: A culpa não é do povo, Antônio! A culpa não é do povo!
Antônio: Um dia vai ter uma guerra maior nesse sertão. Uma guerra grande, sem a cegueira de Deus e do Diabo. E para que essa guerra comece logo eu, que já matei Sebastião, vou matar Corisco e depois morrer de vez, que nós somos tudo a mesma coisa.

Essa é a fala central do filme. “Uma guerra grande, sem a cegueira de Deus e do Diabo”, ou seja, em termos de alegoria, sem o entorpecimento pela religião nem a brutalidade do Cangaço. É o cidadão comum que precisa agir, rebelar-se contra esse poder omisso do qual só presencia os mandos e é obrigado a sofrer por seus desmandos; Glauber com isso põe as responsabilidades de mudança sobre o povo e, mais do que dar-lhe direito à voz, clama a usá-la. Só assim o “sertão vai virar mar”, o milagre social poderá acontecer.

Deus e o Diabo na Terra do Sol 3

Ficha técnica:
Título: Deus e o Diabo na Terra do Sol / Black God, White Devil;
Direção: Glauber Rocha;
Elenco: Geraldo Del Rey, Othon Bastos, Maurício do Valle, Yoná Magalhães, Lídio Silva, Sonia dos Humildes…;
Roteiro: Glauber Rocha;
Cinematografia: Waldemar Lima;
Edição: Rafael Valverde;
Produção: Jarbas Barbosa, Luiz Augusto Mendes, Glauber Rocha;
Ano: 1964;
País: Brasil;
Gênero: Drama.

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