Drive, de Nicolas Winding Refn

Driver: How about this: you shut your mouth, or I’ll kick your teeth down your throat and I’ll shut it for you.

Drive (2011) é assim, um filme de poucas palavras que, se as pronuncia, não são meias-palavras. Essa concisão que começa com o roteiro (poucas, tem o mesmo tanto de falas que alguns filmes mudos), passa pela construção dos personagens, pelo fio narrativo e resulta na duração do filme, de apenas uma hora e trinta e sete minutos.

O filme de Nicolas Winding Refn parece simples. A história pelo menos pode ser resumida desta maneira: um homem (Ryan Gosling) – sem nome – atua como motorista em atividades tanto lícitas quanto ilícitas, então conhece a mulher (Carey Mulligan) e seu filho (Kaden Leos), e se apaixona por ela. O marido dela (Oscar Isaac) é ameaçado de morte e, para ajudá-lo, o homem aceita participar de um roubo. O plano dá errado e o homem se vê perseguido. Ele por fim se volta contra os perseguidores para proteger a mulher por quem se apaixonou.

Isso é o que o filme diz sobre si, no entanto ainda há muito que não é dito. Por exemplo, pouco sabemos sobre o protagonista, the Driver. Sabemos que ele sente algo pela vizinha, que trabalha numa garagem como mecânico e faz as vezes de dublê de cinema e piloto de fuga para roubos na vida real. Vemos que ele é um excelente motorista, mas nunca é explicado como ele se tornou isso ou de onde ele veio. Sequer sabemos seu nome!

O que podemos sim dizer sobre ele, ou simplesmente inferirmos, é que ele representa o arquétipo do herói. Ele é um homem de ação, viril, determinado; chega a ser cruel quando necessário, conquanto tenha um bom coração para aqueles que dele precisam. Sobretudo, ele tem um poder especial, que é o carro. Some-se a isso o fato de ele ser visto com frequência de baixo, com a câmera a destacá-lo do ambiente.

Drive (camera angles)

O primeiro encontro entre the Driver e a mulher, Irene, dá-se no elevador do prédio em que vivem. Eles não conversam. Depois, quando o carro dela pifa no estacionamento de um mercado – e acontece do protagonista estar por perto – ele usa de seu poder para ajudá-la.

Isso gera uma cena bastante expressiva. Após a carona, the Driver deixa as sacolas dentro do apartamento de Irene, onde também está Benício, filho dela. Ela lhe oferece um copo d’água.; “okay” ele responde no auge de sua laconicidade. Entrementes, o que mais se destaca nesta cena é que os dois, embora conversem, dificilmente são vistos no mesmo quadro.

Enquanto ele bebe a água, vê uma foto pendurada num espelho na parede. “É o pai de Benício”, ela explica, “que está na prisão”. Essa tomada em particular é bastante representativa, porque temos os dois personagens no mesmo quadro por artifício e separa-os a presença enevoada do marido de Irene. Contudo já é tarde demais, pois pela maneira como ela sorri depois da saída de the Driver – as expressões aqui dizem muito mais do que as palavras – a união dos dois é inevitável.

Drive (mirror scene)

The Driver então a traz para seu habitat, o carro. Num desses passeios, a união deles se dá de forma simbólica: a mão dela sobre a dele, enquanto ele manuseia a embreagem do carro.

Esses momentos em que ele passa com ela e com o filho dela são verdadeiramente agradáveis. Como ele diz mais tarde, representam os melhores momentos de sua vida. E é também uma das raras ocasiões onde vemos o personagem feliz, sorridente.

Drive (happy moment)

Além disso, ele enquanto homem é uma figura necessária para ela. Ela está a sós com Benício e nosso personagem cuida bem de ambos. Ele tem essas habilidades arquetipicamente masculinas; ele conserta coisas e ele as conduz. Ele é capaz de ser um pai para seu filho.

Drive (a gentle man)

Mas então o marido sai da prisão e eles são obrigados a afastarem-se. O estranho contato entre the Driver e Standard, o marido, resulta em um bocado de sangue. Retoma-se também a ação do filme, cuja cena de abertura, de direção e edição brilhantes, colocam o espectador de cabelos em pé. Em seguida há perseguições de carro, cabeças explodidas por tiros, cabeças amassadas com o pé e, como disse, muito sangue. Palmas para Refn, que recebeu o Cannes de Melhor Diretor por este filme, para Newton Thomas Sigel, diretor de fotografia, e para Matthew Newman, responsável pela edição.

Drive (Blood)

De novo o elevador desempenha um importante papel. O encontro final entre o protagonista e Irene acontece neste lugar. É ao mesmo tempo a cena mais romântica e a mais terrível de todo o longa. E é também o momento em que ambos percebem que, seja por suas naturezas, seja pela condição em que se encontram, jamais deverão ver-se novamente. Portanto quando a porta do elevador se fecha, é uma porta entre eles que se fecha para sempre.

Essa violência não deixa de ser estranhamente bela. Em Drive a violência é diferente do que nos demais filmes de Refn, igualmente violentos, como Pusher (1996), Bronson (2008) e Valhala rising (O Guerreiro silencioso, 2009). Aqui a violência é muito mais estilizada do que a do próprio Bronson.

Veja-se a cena de intimidação no clube. Formam uma linha reta, do canto direito ao lado esquerdo da tela, as costas de uma mulher sentada, os dois homens no centro, até a mulher seminua que assiste apática à cena. As posições, os gestos e as expressões ali parecem calculadas a fim de obter o maior efeito sobre o espectador, em detrimento do que esperamos de um evento como esse, se por acaso nos acontecesse. De certo modo, Drive tem toda a violência, força e sutileza que eu esperava de Crash, romance de J. G. Ballard a envolver carros em seu leitmotiv.

Drive (beautiful violence)

O último comentário fica como um elogio à trilha sonora. Num filme onde a imagem e os silêncios entre os personagens dizem tanto, é um prazer encontrar um acompanhamento sonoro que não distraia e apenas intensifique a emoção sentida. Desde as músicas pré-existentes, como Tick of the Clock, de The Chromatics, que toca na cena de abertura, às faixas criadas Cliff Martinez para a trilha original, tudo encaixa muito bem com o filme.

Obs.: Drive é baseado no livro homônimo (2005) de James Sallis. Como não o li, não tenho qualquer comentário com relação a isso.

Obs. 02: Conta com a participação especial de duas estrelas de peso de fantásticas séries de televisão: Bryan Cranston, protagonista de Breaking Bad, e Christina Hendricks, aqui sem o mesmo glamour de Mad Men.

Ficha técnica:
Título: Drive;
Direção: Nicolas Winding Refn;
Elenco: Ryan Goslig, Carey Mulligan , Bryan Cranston, Albert Brooks, Oscar Isaac, Christina Hendricks, Ron Perlman, Kaden Leos…;
Roteiro: Hossein Amini, James Sallis;
Cinematografia: Newton Thomas Sigel;
Edição: Matthew Newman;
Música: Cliff Martinez;
Produção: Marc Platt, Adam Siegel, John Palermo…;
Ano: 2011;
País: Estados Unidos;
Gênero: Drama, Ação.

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