Dusty in Memphis (Deluxe Edition), de Dusty Springfield

Dusty Springfield, diva do Soul e do R&B, demonstra toda sua versatilidade e toda sua capacidade neste álbum que marcou época e ainda hoje influencia artistas como Duffy e Adele.

Para ouvires durante a leitura:

Pontos principais:

  1. A voz fenomenal de Dusty;
  2. Guitarra, baixo, percussão, metais, cordas e vocais todos muito bem arranjados;
  3. É um marco do R&B;
  4. Sensualidade e sutileza são duas palavras chave na descrição deste álbum;
  5. Son of a Preacher Man, The Windmills of Your Mind, Willie & Laura Mae Jones, Goodbye e Natchez Trace.

Não direi que o Pop de antigamente era melhor do que o de hoje, já discuti essa questão. Era diferente, simples assim, tanto na maneira de se fazer quanto na de se escutar. Contudo, uma das maiores diferenças que encontrou ao longo de seu curso foi uma menor receptividade do que a atual, em especial durante o apogeu do Rock and Roll, no final da década de 60 e começo da década de 70, com The Beatles, The Beach Boys, The Rolling Stones, entre outros, a fazerem cada vez mais sucesso.

Muito mais complicado era ser uma cantora de Pop… em 1968… e na Inglaterra, então lar das bandas mais difundidas do Rock. Essa foi a dificuldade encontrada por Dusty Springfield, esta londrina que há 10 anos lutava por espaços para demonstrar sua voz marcante, com clara influência do Soul. Por isso no ano de 68 ela fechou contrato com a Atlantic Records para lançar um novo projeto que lhe rendesse maiores atenção e credibilidade.

Ela se reuniu com a banda The Memphis Cats, os backing vocals de The Sweet Inspirations, o guitarrista Reggie Young, o baixista Tommy Cogbill, além de muitos outros músicos e dos produtores Arif Mardin, Tom Dowd e Jerry Wexler (que produziram álbuns lendários de artistas como Led Zeppelin, The Allman Brothers, Derek and the Dominos, Ray Charles, Aretha Franklin, John Coltrane, Charlie Parker etc). E uma curiosidade: foi Dusty quem indicou o Led Zeppelin para a Atlantic, pois conhecia o multi-instrumentista John Paul Jones de gravações anteriores.

Dessa reunião saiu Dusty in Memphis, com faixas marcadas pela busca de um autêntico R&B e arranjadas com precisão. É um álbum curto, tem 33′ 38” e apenas 11 músicas, ou seja, uma média de 3 minutos por música, e despido de quaisquer excessos. Não há delongas, os solos são raros e duram uns poucos segundos porque Dusty é a estrela, é ela a merecedora do foco; ainda assim os músicos se fazem ouvir maravilhosamente bem sob todo o vozerio.

Quem não reconhece a guitarra, o baixo e a bateria do início de Son of a Preacher Man? Inclusive Tarantino lhe prestou tributo em Pulp Fiction. A introdução dura pouco tempo, é sutil, quase minimalista, e bastante intensa ao mesmo tempo. Young, Cogbill e Gene Chrisman (o baterista) merecem aplausos por obterem tanta intensidade em meio a tamanha sutiliza. Logo abaixo discorrerei mais a respeito deles, o que importa saber agora é o seguinte: a cantora e seus instrumentistas formaram um conjunto coeso e eficaz. Não à toa esta obra é considerada um marco do Soul e do R&B. E graças a ela hoje artistas como Amy Winehouse, Duffy e Adele não sofrem tanto para achar lugar na mídia e no coração do público.

Em Amy Winehouse a influência de Dusty chegou a subir à cabeça.
Em Amy Winehouse a influência de Dusty chegou a subir à cabeça.

Dusty tinha completo controle sobre sua voz. Nunca a forçava, nunca se excedia e, no entanto, quando a canção requeria mais fôlego ela sempre tinha de sobra, sem arfar ou desafinar. Em Dusty in Memphis ela canta os quase 180 segundos de cada faixa sem furtar o espaço da banda, mas a completá-la e a fornecer o espírito de cada composição. Uma das maiores qualidades dela era saber interpretar aquilo que cantava, dar a exata emoção a uma determinada letra.

Por falar em letras, estas transitam entre o sentimental, o psicológico, o social e, principalmente, o sensual. Essa é uma característica fundamental de Dusty, a sensualidade. Ela não precisava de decotes, de roupas curtas ou justas. Sua sensualidade vem-nos da imposição e segurança de sua voz, vem da paixão de suas interpretações – do talento e não da pessoa.

Agora, se Dusty in Memphis é um álbum tão bom, por que escutar a versão Deluxe (1999), da Rhino Records? Os dois motivos principais são: é a versão remasterizada digitalmente e nela foram acrescentadas outras 14 faixas, a formarem um total de 25, do catálogo da Atlantic e com os mesmos músicos. E porque esse não é qualquer acréscimo, é uma adição valiosa ao repertório da artista. Tomamos enfim conhecimento de todas as nuances de sua voz e comprovamos como ela sempre se saiu bem sucedida das experimentações em diferentes gêneros.

A partir daqui estão descritas algumas canções específicas para termos uma melhor ideia dessa versatilidade. Comecemos com o título mais conhecido, Son of a Preacher Man.

A sonoridade é incrível, como mencionado acima. Depois da introdução os vocais e os metais juntam-se no mesmo clima de sedução delicada, de acordo com o que pede a letra:

“Billy-Ray was a preacher’s son
And when his daddy would visit he’d come along
When they gathered round and started talkin’
That’s when Billy would take me walkin’
A-through the back yard we’d go walkin’
Then he’d look into my eyes
Lord knows to my surprise
The only one who could ever reach me
Was the son of a preacher man”. – John Hurley, Ronnie Wilkins

“Billy-Ray era filho de um pregador
E acompanhava seu pai quando nos visitava
Quando os outros se reuniam para conversar
Era quando Billy me tirava para caminhar
E através do quintal íamos a caminhar
Até que ele olhava nos meus olhos
Para minha surpresa, Deus o sabe
O único que poderia me tocar
Era o filho de um pregador”.

Esse é um bom exemplo da sensualidade das letras, todas voltadas para detalhes e para o realismo social no qual estão inseridas, e que Dusty verte tão bem. Outro exemplo é Natchez Trace:

“My arms around his body
Well, we rode a thousand miles
He taught me how to love
He taught me how to fly […]
And I had his child in Memphis
And we watched him ride away
And now you know what a girl like me
Is doin’ here today”. – Neil Brian Goldberg, Gilbert Slavin

“Meus braços em volta de seu corpo
Bem, nós cruzamos umas mil milhas
Ele me ensinou a amar
Ele me ensinou a voar […]
E eu tive seu filho em Memphis
E nós o vimos partir
E agora sabes o que uma garota como eu
Faz hoje aqui”.

Natchez Trace é uma raridade na edição Deluxe. Ela traz uma Dusty completamente Rock and Roll e (ao menos para mim) é uma das melhores gravações do gênero. Destaque também para a parte instrumental que ganha a explosão necessária para mostrar toda a habilidade da banda. Young tem solos curtos, porém espirituosos, as viradas da bateria são precisas e a linha do baixo é arrebatadora. Tudo isso coroado por um vocal que não deixa a desejar se comparado com o das maiores vocalistas de Rock.

O conjunto demonstra seu caráter versátil em outras composições. Goodbye é uma dessas, com seu ritmo africano. The Windmills of Your Mind é outra, com seu Pop em belo arranjo para cordas, com percussão discreta e violão acústico. Tem também uma letra muito poética e eufônica:

“Like a circle in a spiral
Like a wheel within a wheel
Never ending or beginning
In an ever spinning reel
As the images unwind
Like the circles that you find
In the windmills of your mind”. – Alan Bergman, Marilyn Bergman, Michel Legrand

“Como um círculo em uma espiral
Como uma roda dentro de uma roda
Sem jamais ter fim ou a começar
Em um carretel sempre a girar
Segundo as imagens se desenrolam
Como os círculos que encontras
Nos moinhos da tua mente”.

A última menção fica para Willie and Laura Mae Jones. Outra grande combinação de vocais e instrumental, unidos por um swing provocante e por uma letra que evoca um sentimento de bem-estar enquanto faz um agudo comentário social:

“The people worked the land together
And we learned to count on each other
When you live off the land
You don’t have the time to think
About another man’s colour”. – Tony Joe White

“Trabalhávamos a terra juntos
E aprendemos a contar um com o outro
[Pois] quando se vive da terra
Não se tem tempo para pensar
Na cor das outras pessoas”.

dusty springfield

Ficha Técnica:
Álbum: Dusty in Memphis Deluxe Edition (1999);
Artista: Dusty Springfield;
Músicos: The Memphis Cats, The Sweet Inspirations, Reggie Young, Tommy Cogbill, Gene Chrisman;
Produtor: Arif Mardin, Tom Dowd, Jerry Wexler;
Gravadora: Atlantic Records;
Lançamento: 1969;
Gênero: R&B, Soul, Pop.

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