Extermínio, de Danny Boyle

Existem muitos filmes bons sobre cenários pós-apocalípticos, onde o futuro da humanidade depende de alguns poucos e nada seletos sobreviventes. E existem muitos filmes bons onde a principal ameaça são zumbis ou criaturas zumbiescas. Extermínio (28 Days Later, 2002) é um destes.

Como vimos em postagens anteriores, o termo “zumbi” teve diversas representações nas telonas, de mortos que voltam a caminhar, como em A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead, 1968, de George A. Romero), a pessoas envolvidas com o vodu, como em A Morta-viva (I Walked with a Zombie, 1943, de Jacques Tourneur).

Em Extermínio fala-se de um tipo muito específico de criaturas, que nunca são chamadas de zumbis. No universo do filme a humanidade foi infectada por uma nova forma de raiva (a doença), poderosa o bastante para em apenas vinte e oito dias após o contágio inicial deixar a espécie humana à beira da extinção.

Cada diretor tem uma visão distinta sobre esse cenário. Por exemplo, Alfonso Cuarón em Filhos do Amanhã (Children of Men, 2006) salienta a violência de que a humanidade é capaz de cometer em determinadas circunstâncias. Já Danny Boyle, além do gore típico do gênero, foca-se mais no absurdo da situação. E mais do que tratar de criaturas alheias, este filme fala das dificuldades nas relações humanas.

Os primeiros minutos já refletem essa questão. Chimpanzés são mantidos em cativeiro como parte de um experimento para se estudar a raiva – é o que o responsável pelo laboratório explica a três militantes de alguma organização ambiental que pretendem soltar os animais. Ele implora que não o façam, pois os animais são perigosos. Os três os soltam mesmo assim e por causa disso nenhum deles volta para contar a história.

É assim, graças à mutação de uma doença perigosa, porém sob controle, que vinte e oito dias depois Jim (Cillian Murphy) acorda em um leito de hospital para encontrar Londes destruída e abandonada. Ele o faz um ano antes de recurso semelhante ser empregado nos quadrinhos de The Walking Dead, a qual deu origem à série homônima.

28 days later (Jim awakes)

A primeira coisa que salta aos olhos é a peculiaridade da imagem. Gravada com uma tecnologia que parece também pós-apocalíptica (câmeras Canon XL1), a imagem definitivamente não preza pelo detalhamento nem tem qualquer afeição especial pelas cores fortes, o que deixa a capital inglesa ainda mais cinzenta e sem vida. É apenas um estranhamento inicial e o efeito geral adequa-se ao tema.

28 days later (grey)
The real 50 shades of grey.

A jornada de Jim então segue o curso de qualquer herói numa situação como essa. Ele descobre aliados nas pessoas de Selena (Naomie Harris), Frank (Brendan Gleeson) e sua filha, Hannah (Megan Burns). Aliás, o encontro com estes dois últimos personagens gera cenas tão absurdas quanto cômicas. A cena onde pilham um mercado é de uma hilaridade estranha; não via pessoas tão felizes num mercado desde SuperMarket. É uma pausa para que o espectador tome fôlego e esteja pronto para as fortes emoções que estão à frente.

28 days later (shopping)

Ele também terá de lidar com inimigos, tanto os humanos infectados, quanto os que não estão, talvez até mais perigosos do que aqueles. Tampouco pode faltar o grande dilema do gênero: o que fazer quando um companheiro é infectado? No caso de 28 Days Later a resposta poderá surpreender o espectador.

No meio do temor pela vida de cada um e pelo futuro da humanidade, no meio do sangue e do nojo, do isolamento e do desespero e do absurdo – nesse absurdo em que há um forte quê de expressionismo em ângulos de câmera como este:

28 days later (expressionism 02)

ou tomadas como esta:

28 days later (expressionism 01)

pelo menos é a sensação que tenho –, no meio disso tudo eles conseguem descobrir um porto seguro: a família, o vínculo afetivo entre eles.

28 days later (family)

E mais do que um porto seguro, eles descobrem que aquilo que os torna humanos, se não é a cura para a doença, é no entanto a chave para o futuro que saúdam com alguma esperança.

“Você nunca imaginaria isso, precisar tanto de uma chuva. Não na porra da Inglaterra!” – Frank, em 28 Days Later.

Esta é uma nota bastante otimista para uma obra tão sombria. Por vezes Extermínio chega a ser opressivo e é praticamente um milagre os personagens tirarem algo de positivo da situação na qual se encontram, depois de tudo pelo que passaram.

Talvez isso faça parte do olhar dos criadores sobre a humanidade; somos todos absurdos capazes de fazer tanto o mal quanto o bem. Para ser otimista nesse contexto é preciso apegar-se a algo que guie a praticar o bem.

Os últimos comentários ficam reservados à direção de Boyle e à trilha sonora, em que também está envolvido. A aparência é de cinema B, mas o terror do filme é de primeira. Fora que há certo encanto por esta produção com ares de independente, muito antes do diretor partir para projetos mais comerciais.

28 days later (hello)

E as músicas combinam com o filme, seja por intensificarem o clima de desolação como é o caso de East Hastings, de Godspeed You! Black Emperor, ou por contraste quando toca Ave Maria, de Gounod, numa perigosa e cômica cena de fuga.

Ficha técnica:
Título: Extermínio / 28 Days Later;
Direção: Danny Boyle;
Elenco: Cillian Murphy, Naomie Harris, Noah Huntley, Brendan Gleeson, Megan Burns, Christopher Eccleston…;
Roteiro: Alex Garland;
Cinematografia: Anthony Dod Mantle;
Edição: Chris Gill;
Música: John Murphy;
Produção: Robert How, Andrew Macdonald;
Ano: 2002;
País: Inglaterra;
Gênero: Terror.

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