Filhos da Esperança, de Alfonso Cuarón

Comecei a assistir a primeira cena de Filhos da Esperança (Children of Men, 2006) para lembrar o clima do filme de Alfonso Cuarón e escrever esta resenha. Quando me dei conta, já via vinte minutos de projeção. Para mim essa é a grande qualidade do filme, o fato de permitir uma profunda imersão por parte do espectador.

Dirigido como um documentário, o filme baseia sua história no livro homônimo de P. D. James. Em Filhos da Esperança seguimos os passos de Theo por uma Londres distópica, no ano de 2027. Nos primeiros segundos somos informados da situação dessa humanidade futura: a sociedade desmoronou quando as pessoas pararam de nascer; e só parece agravar o fato de que a pessoa mais nova do planeta acaba de morrer, pois só acentua a descontinuidade da espécie humana.

É curioso notar que em nosso mundo uma pessoa pode ficar famosa por ser a mais velha viva, enquanto no universo do filme, dadas as circunstâncias, alguém torna-se famoso por ser o mais novo, coisa que em nossa realidade daria imenso trabalho à equipe de atualização do Guinness Book. “O último a ficar vivo apague as luzes”, lê-se numa das pichações que aparecem de fundo ao longo do filme, e esse futuro parece mais assustador do que em muitas distopias e obras pós-apocalípticas, pois nesses casos existe uma esperança de sobrevivência. Em Filhos da Esperança essa dita esperança parece não haver; a humanidade estaria condenada a perecer em seu próprio planeta.

Voltemos à primeira cena, pois nela destaco algumas características que se repetem ao longo do filme.

Theo entra num café lotado, pede um café preto, vê na televisão a informação de que a pessoa mais nova do planeta acaba de morrer. Então ele sai do café, caminha um pouco, para, de repente o café onde estava sofre uma violenta explosão. Theo está em choque enquanto pessoas feridas saem do local da explosão. Tudo isso numa só tomada.

Children of Men (cafe)

Primeiro ponto: Children of Men tem, na minha opinião, o melhor trabalho de câmera deste século. Grande parte da possibilidade de imersão atribuo à escolha por tomadas longas, de três a seis minutos, sem serem minimamente cansativas. A ação do filme está nos acontecimentos, não na edição (por edição falo de cortes e ângulos, não inclusão de efeitos, pois isso há de monte).

E é uma ação de cair o queixo, de arrepiar. A câmera tenta mostrar tudo o que está a acontecer e sentimos seu nervosismo qual fosse um personagem. Ela e Theo tem profunda identificação. Daí que a grande cena nas ruínas de Bexhill tem mais emoção do que a maioria dos atuais filmes de ação reunidos.

Segundo ponto: a presença de animais. Num futuro sem humanos, seriam eles a dominarem a Terra. Pelo menos aqui já dominam a tela, há animais em praticamente todas as cenas e até o porco inflável de Animals, álbum de Pink Floyd, é trazido à cena.

Terceiro ponto: a caracterização do espaço e da época. Com a exceção da maciça força de segurança, a Londres de 2027 não é muito diferente do que qualquer cidade grande de hoje. Há, claro, exemplos de avanço em tecnologia, mas esses exemplos ficam em segundo plano, porque o foco está no drama.

Children of Men (distopy)

Além disso, supõe-se que sem perspectiva de futuro e com a economia em crise não haveria o porquê de continuar a inventar tecnologias. A única real mudança passa-se no campo da Medicina, porém de uma forma pouco saudável. Propaga-se uma pílula do suicídio para acabar de vez com os males da vida.

Quarto ponto: a natureza do herói. Theo é visto assustado, desesperado, a chorar e, entretanto, tem a firmeza dos bons heróis. Essa humanização do herói é algo bastante positivo para o filme, que trata justamente do futuro da humanidade. Em nenhum momento ele toca em uma arma, embora esteja cercado por elas. Suas principais armas na verdade são a coragem e a firmeza.

Children of Men (blood)

Clive Owen ganha aqui seu melhor papel. Em Gosford Park (2001, de Robert Altman), Closer (2004, de Mike Nichols) e Sin City (2005, de Frank Miller e Robert Rodriguez), Owen teve boas atuações. Contudo, em nenhuma delas atrai a mesma empatia pelo personagem como em Children of Men. E os demais atores, todos, estão fantásticos. Inclusive os mais atípicos, como Michael Caine no papel de um hippie, são pessoas completas e críveis.

Children of Men (Jasper)

Se isso tudo dá para tirar dos minutos iniciais, imagine-se do resto. A aventura de Theo começa de fato quando Julian (Julianne Moore), sua ex-mulher, vem pedir-lhe ajuda para conseguir vistos de trânsito para Kee (Clare-Hope Ashitey), pois ele é primo de Nigel (Danny Huston), que por sua vez é ministro de governo e pode conceder tais favores.

Children of Men (Theo and Julian)

O trajeto até o gabinete do ministro lembra muito as elites de obras como 1984, resguardadas em sua trivialidade e alheamento ao que se passa fora de suas muralhas. A figura de Nigel lembra muito os antagonistas das distopias literárias, com sua paixão pela arte e sua fala macia, e ao mesmo tempo sinistra.

Children of Men (art)

Theo consegue os tais papéis, sob a condição de que precisa acompanhar Kee. Isso ele não faz por gosto, e sim por uns trocados a mais. No entanto grandes imprevistos ocorrem no meio da jornada e Theo tem a surpresa que poderá mudar o destino de todos: Kee está grávida. É a primeira mulher grávida em dezoito anos.

Para isso não faltam referências religiosas. A revelação da gravidez de Kee é feita num estábulo, referência ao local de nascimento de Jesus. Inclusive, a expressão de espanto de Theo é um “Jesus Christ!”. Além disso, o próprio nome do protagonista já diz um bocado, “Deus” em grego.

Children of Men (Miracle)

Daí demonstra-se a verdadeira natureza do herói, capaz de sacrificar tudo em nome da salvação, de um “Tomorrow”.

Cheio de símbolos e de ação, assim é Filhos da Esperança, um filme que agrada em cada aspecto de sua produção. Alfonso Cuarón, diretor de E Sua Mãe Também (Y Tu Mamá También, 2001), concluiu aqui uma obra que se manterá viva por muito tempo.

Ficha técnica:
Título: Filhos da Esperança / Children of Men;
Direção: Alfonso Cuarón;
Elenco: Clive Owen, Michael Caine, Chiwetel Ejiofor, Julianne Moore, Danny Huston, Pam Ferris, Clare-Hope Ashitey…;
Roteiro: Alfonso Cuarón, Timothy J. Sexton, Mark Fergus…;
Cinematografia: Emmanuel Lubezki;
Edição: Alfonso Cuarón, Alex Rodríguez;
Música: John Tavener;
Produção: Hilary Shor, Iain Smith, Tony Smith;
Ano: 2006;
País: Inglaterra, Estados Unidos;
Gênero: Drama, Ação.

1 comentário Adicione o seu

  1. Mafer disse:

    A história deste filme não está longe da realidade, em muitos países, o nascimento de crianças está diminuindo demografia e reivindicação para os próximos anos será mais idosos do que crianças, de modo que este filme pode ser um divisor de águas para uma realidade não tão distante, o papel de Clive Owen adorei, agora ver onde a série The Knick é líder e que está fazendo um grande papel.

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