Filmes para homens / Filmes para mulheres

O cinema é uma arte predominantemente masculina. Existem poucas diretoras e são raros os diretores que conseguem aprofundar temáticas femininas. Filmes para mulheres costumam recair sobre a comédia romântica ruim e o romance barato, sem saírem da superfície imagética ou emocional. Não que a culpa seja das mulheres. Existem exemplos de pessoas e obras superficiais em cada gênero. Muitos filmes para homens se perdem em ação exagerada ou humor púbere.

Por isso é tão difícil para homens e mulheres assistirem a uma sessão de cinema juntos; em especial para elas, porque não conseguem identificar-se com o que veem na tela. Vamos por em perspectiva: coletemos listas dos dez melhores filmes segundo três sítios diferentes – AFI, BFI e Melhores Filmes – e vejamos quantos deles apresentam pelo menos uma mulher em um papel principal. O resultado: de 16 títulos diferentes, apenas 8 trazem uma (e única) atriz em destaque. E isso porque falamos dos melhores, mas se falarmos de filmes em geral o dado é mais alarmante.

A Universidade do Sul da Califórnia realizou uma pesquisa na qual analisou 122 filmes lançados nos Estados Unidos e no Canadá entre 2006 e 2009. De um total de 5.554 personagens com fala na amostra, somente 29,2% era do sexo feminino; ou seja, para cada mulher que tem voz no cinema, outros 2,42 homens falam.

Ainda com relação à amostragem, os dados de trás da câmera explicam toda essa discrepância com outra maior. De 1565 criadores (diretores, roteiristas e produtores), as mulheres representavam 7% como diretoras, 13% como roteiristas e 20% como produtoras. Para cada lançamento de uma diretora lançaram-se 9 diretores. E a pesquisa mostra que houve pouca mudança nesse cenário nos últimos 20 anos.

Na frente das câmeras a situação não é muito melhor, as estatísticas acima confirmam. Embora a porcentagem de figuras femininas aumente em produções que tenham mulheres no comando, na maioria das vezes as atrizes são usadas exclusivamente para atrair o público feminino e gerar mais renda para os estúdios. Qual é um dos comentários mais comuns por parte dos críticos quando um romance em cena os desagrada? Referem-se sempre a como o roteiro forçou o affair para atrair mais espectadores, não para tornar a história mais agradável. Não é qualquer novidade, desde antes de Bullit, de Peter Yates, até o recente Thor, de Kenneth Branagh, isso tem sido uma reclamação.

As atrizes muitas vezes não são essenciais à trama, porém estão lá como adereço para se vender o ingresso ou o DVD. No entanto, não é o bastante para prender a atenção do respectivo público, pois as mesmas personagens que ocupam um bom espaço dos trailers somem durante a exibição. Não é raro que as namoradas durmam no sofá enquanto seus parceiros não compreendem como puderam adormecer diante de tanta ação. Ora, a explicação é simples: elas não têm com quem se identificar e logo se distraem – e dormem, em parte porque o escurinho pede.

Agora, é curioso notar que muitos rapazes detestam filmes femininos, mesmo os bons. Desencanto (Brief Encounter) e Doutor Jivago (Doctor Zhivago), de David Lean, não fazem o mesmo sucesso entre eles de A Ponte do Rio Kwai (The Bridge on the River Kwai). Musicais não os atraem tanto quanto os épicos, ou faroestes. E de Pedro Almodóvar eles preferem passar longe, a não ser que suas parceiras insistam. Então é a vez deles de cair no sono.

Se nas últimas duas décadas a situação não mudou, sequer mudará amanhã, ou no próximo ano. Ainda são reconhecidas somente aquelas diretoras consideradas capazes de realizar um filme “igual a um homem”. Mesmo com uma concorrência fraca, Guerra ao Terror (The Hurt Locker) ganhou dois prêmios Oscar – de melhor filme e melhor direção para Kathryn Bigelow – e foi aclamado mais por uma mulher ter sucedido em um gênero masculino do que por ser excelente, pois não o é, já que se limita a ser bom. Não se compara à personalidade de O Piano (The Piano), de Jane Campion, por exemplo.

Portanto na próxima ocasião em que fores assistir a um filme ao lado de alguém do gênero oposto, procura antes entrar em acordo quanto à seleção do título para que evites o incômodo de terminar de vê-lo sozinho (ou sozinha), enquanto a outra pessoa ronca no sofá.

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