Interlúdio, de Alfred Hitchcock

Ingrid Bergman, Cary Grant e Claude Rains estrelam em Interlúdio (Notorious) como um triângulo amoroso em meio a uma operação de espionagem que trará riscos para todos, tudo isso aqui mesmo no Brasil.

Pontos principais:

  1. Direção segura e minuciosa, Interlúdio é a quintessência da obra hitchcockiana;
  2. Atuações formidáveis, tanto dos protagonistas quanto dos coadjuvantes;
  3. Trama envolvente, repleta de cenas com o mais puro suspense.

Hitchcock foi um desses raros gênios que conseguiram não apenas criar excelentes obras, mas também vendê-las. O “Mestre do Suspense”, como talvez ele mesmo se tenha cunhado, fez (e ainda faz) um enorme e merecido sucesso. Com o passar dos anos seus filmes ganharam o aval da crítica, além do já estabelecido carinho por parte dos cinéfilos.

Graças a críticos de cinema como Truffaut (que compilou uma instrutiva coletânea de entrevistas com Alfred, intitulada Hitchcock/Truffaut) e Roger Ebert, entre outros que saíram em defesa dos méritos do diretor, hoje Um corpo que cai (Vertigo), Psicose (Psycho), Intriga Internacional (North by Northwest), Janela Indiscreta (Rear Window) e Interlúdio são inscritos no rol dos melhores filmes já feitos.

Agora, o que nos traz a Interlúdio, e os dois críticos sobreditos concordam, é que esta é a quintessência da obra hitchcockiana. Isso quer dizer que se os seus demais filmes desaparecessem, ainda teríamos uma sólida noção do trabalho do diretor. Então, o que faz com que este filme se destaque em um opus tão extenso, de 50 anos e quase 60 títulos?

Interlúdio conta com vários dos temas recorrentes a Hitchcock: personagens divididos entre o desejo e a obrigação, os sentimentos escondidos sob uma fachada fria, uma bela mulher presa em um local estranho e nocivo, um mal a ser desvendado ou resolvido, o McGuffin, etc. Além disso, as características usuais para se prender a atenção do espectador estão ali: o charme de seus atores, a sucessão e confronto de emoções, o suspense crescente e espalhado por todo o enredo, a aparição surpresa… Enfim, fica aqui a recomendação caso o leitor queira conhecer a “espinha dorsal” da filmografia deste realizador.

Ainda falta ressaltar algumas qualidades específicas do filme.

Alfred não era um Elia Kazan quando se trata de direção de atores, mas comumente conseguia atuações bastante eficazes do seu “gado”, como certa vez ele se referiu a eles. Em Interlúdio ele foi além e obteve um conjunto impressionante de interpretações, não apenas pelo talento de seus atores, pois acima disso ele sabia exatamente o que queria deles e onde os queria.

Veja-se a cena na qual Alexander (Rains) discute com sua superprotetora mãe, Madame Sebastian (Leopoldine Constantin), o seu futuro casamento com Alicia (Bergman). Ele está no plano de fundo, diminuído pela presença em primeiro plano de sua mãe e até um pouco fora de foco. Isso representa toda a influência que ela tem sobre seu filho. Então, sem cortes, ele avança em direção ao público e a câmera posiciona-se atrás de Madame Sebastian, com um dos móveis a servir de barreira entre eles. Alexander agora está maior do que ela, porque assumiu o controle da situação.

A distribuição dos personagens em cena diz mais do que qualquer diálogo.
A distribuição dos personagens em cena diz mais do que qualquer diálogo.

E repare-se na cena em que o agente Devlin (Grant) e os demais oficiais discutem a operação no escritório do Rio de Janeiro, ou seja, discutem enviar Alicia como isca para fisgar Alexander. Devlin nesse momento está de costas como representação física de sua disposição interior, ele se sente traído e dá as costas para a Alicia diante desse novo rumo.

Notorious film

A fotografia e orquestração de cenas em Interlúdio é algo maravilhoso, como já foi ressaltado, contudo a cereja do bolo fica por conta da festa que ocorre na mansão dos Sebastian. A cena começa com uma panorâmica do saguão, visto da altura do lustre, os convidados espalhados pelo quadro, em seguida a câmera desce até o centro da imagem onde está Alicia e dá um enfoque da mão da protagonista, que traz escondida uma chave. De uma panorâmica a um close-up em uma só tomada, a representar sutilmente todo o drama contido nessa hora.

Do macro ao micro segundo a visão de um gênio.
Do macro ao micro segundo a visão de um gênio.

Aliás, o suspense é focado em objetos triviais, coisas que podemos encontrar no dia a dia:

chaves,

Notorious keys

xícaras de café

Câmera 3D é para os fracos!
Câmera 3D é para os fracos!

e garrafas de champanhe (bem, talvez o champanhe não seja tão trivial assim).

Notorious Champagne

Ainda se poderia falar de outros quesitos, de outras cenas, como a climática da escada, na qual o tempo é dilatado para aumentar a emoção. Ou de como os agentes do mal parecem peões de xadrez quando postados sobre um piso quadriculado, no entanto isso estenderia muito mais este artigo e diminuiria o mistério para o espectador que não assistiu ao filme.

Crédito imagem: Frank Capa, The Kobal Collection, RKO.
Crédito imagem: Frank Capa, The Kobal Collection, RKO.

Ficha técnica:
Título: Interlúdio / Notorious;
Direção: Alfred Hitchcock;
Elenco: Ingrid Bergman, Cary Grant, Claude Rains, Leopoldine Constantin, Louis Calhern…;
Roteiro: Ben Hecht;
Cinematografia: Ted Tezlaff;
Edição: Theron Warth;
Produção: David O. Selznick’s Vanguard Films;
Ano: 1946;
País: Estados Unidos;
Gênero: Noir, suspense, drama.

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