Mefisto, de István Szabó

A tragédia de Dr. Fausto é uma das lendas mais caras à literatura mundial, com seu valor reconhecido também em outras manifestações artísticas, desde a terna adaptação feita por F. W. Murnau para o cinema em 1926 às composições de Alfred Schnittke, como a sinistra cantata Seid Nüchtern und Wachet e a ópera Historia von D. Johann Fausten.

Recém assisti a uma das mais recentes adaptações cinematográficas, dirigida por Aleksandr Sokurov (Faust, 2011). Penei para terminar de assisti-la. Pelo lado positivo, foi por meio das leituras sobre esse filme que descobri Mephisto, de István Szabó (1981), e essa descoberta recompensou-me pelo sacrifício prévio.

Na literatura, da publicação anônima em 1587 passamos por Christopher Marlowe, J. W. Goethe, e um pouco antes de chegarmos a Doutor Fausto, de Thomas Mann, temos Mefisto, de Klaus Mann. Curiosamente, a adaptação faustiana de Klaus surgiu uma década antes da de seu pai, o Doktor Faustus de T. Mann. Esse Mefisto, além da clara referência literária, baseia-se na trajetória de um ator alemão com quem o autor teve íntimo contato.

O que faz da história de Fausto e Mefistófeles tão atraente e adaptável é, como o são as histórias de Ulisses, Édipo ou Hamlet, sua capacidade de representar um drama muito arraigado à humanidade. Representações, mitos, arquétipos – chamem como queiram – falam de alguma faceta (do fr. facette, pequena face) nossa. Não é nossa face completa, não é tudo que somos, mas uma das forças essenciais.

A história de Fausto é a história do Homem que deseja mais do que pode conseguir com sua própria natureza e, tentado pela oferta sobrenatural de Mefistófeles, vê-se obrigado a lidar com algo além de seu poder. Fausto então falha. Nesse sentido, ele é tão humano quanto Jesus é divino (falo aqui apenas literariamente). Jesus, enquanto filho do Deus bíblico, também foi tentado com uma oferta. Entretanto, ele tudo podia e por isso recusou-a. Sua onipotência (divindade) dava-lhe recursos para a recusa. Fausto em sua impotência (humanidade) desejou o poder. É por que isso que (em termos estritamente literários) nós nos identificamos com Fausto e aspiramos a ser como Jesus, à divindade, ou seja, a já termos o poder deste e não precisarmos mais ser como aquele.

Dito isso, voltemos ao filme. Hendrik Hoefgen (Klaus Maria Brandauer) é ator de teatro em Hamburgo, Alemanha, por volta de 1931. Nessa época o partido nazista ainda não se estabelecera no poder, embora sua influência já fosse perceptível. Hoefgen é ambicioso, porém seu talento não é excepcional. Ele tem várias amantes, das quais recebe favores, entre elas a negra Juliette (Karin Boyd), a única a quem manifesta verdadeira afeição. Arranja um casamento por interesse com uma aristocrata e graças a isso troca os palcos de Hamburgo pelos de Berlim.

Mephisto movie

Ele demonstra influências brechtianas e sonha em fazer sucesso com o teatro proletário. Entrementes, em janeiro de 1933 Hitler assume a chancelaria alemã e muitos dos conhecidos de Hoefgen deixam o país, inclusive sua esposa. Justo quando sua carreira começara a progredir ele se vê dividido entre fugir e tentar atuar longe dali, sem ter para isso o mesmo talento ou graça de uma Marlene Dietrich, ou persistir e suportar um regime com visões bastante arbitrárias sobre arte. Ele prefere ficar.

Sua permanência é bastante próspera e ele chega ao papel de Mefistófeles, com grande repercussão. Após uma apresentação no Teatro Nacional de Berlim, Hoefgen é convidado a comparecer ao camarote de um general (Rolf Hoppe), membro da alta cúpula do Partido. Para ele “tudo saiu conforme o planejado”, de acordo com suas palavras.

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E em seguida ocorre um momento mágico. A cena seguinte é motivo de exultação para o espectador; diferente de um mero arrepio sensorial, dá aquele prazer só sentido quando contemplamos uma ideia, compreendemo-la e achamo-la bela. No camarote, logo em frente ao palco, o ator ainda em trajes de Mefisto é recebido pelo general. Aí ocorre uma inversão magnífica, pois a plateia que antes assistia a uma peça no palco, na direção oposta agora assiste a outra encenação. Hoefgen aperta a mão do general e deixa de ser Mefisto e passa a ser o Fausto que vende sua alma.

A partir daí pode-se imaginar o quanto Hoefgen precisará fazer e o quanto precisará omitir para obter a sonhada glória através da mercê dos nazistas. Ainda assim, como Fausto, se não o apoiamos, pelo menos o compreendemos. E, como Fausto, não é de todo mau. É apenas falho. É o mesmo homem que denuncia um colega e tenta proteger outros; o mesmo que usa mulheres como convém e se arrisca pela única de quem de fato gosta. Seus erros estão mais nos métodos do que nas intenções.

E muito da escusabilidade do personagem deve-se à interpretação de Brandauer. Hoefgen é cínico, neurótico e algumas vezes até bestial, mas Brandauer cobre cada estado de espírito com sinceridade. Se cínico, não é bufão, mas uma pessoa que tem sua faceta de cinismo. Se neurótico, não é a definição neurose, e sim alguém com tal característica. Percebe-se o tempo todo que há humanidade no personagem, em especial em suas pequenas expressões e em seus olhares, pois quando o ator (falo de Hoefgen) precisa vestir a máscara também na vida, sobra pouco com que expressar seu verdadeiro eu. E é por meio desses discretos elementos que o ator Brandauer consegue humanizar o papel. Ademais, deve ser um tremendo desafio interpretar com convicção um ator mediano.

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Outro destaque do filme é a montagem. O diretor, Szabó, talvez mais conhecido por Adorável Júlia (Being Julia, 2004), e o editor, Zsuzsa Csákány, imprimem um bom ritmo ao filme e revelam ótimas ideias. Muito é dito sem falas, muita ação acontece em pouco tempo, e a montagem jamais falha ou torna-se cansativa. Além da cena da inversão de papeis já mencionada, também vibrei com a sequência em que é contado um romance do protagonista através de curtas falas femininas; depois, o encerramento de um discurso sobre a importância de encenar-se Hamlet é sobreposto com os aplausos dos espectadores, já no fim da peça encenada (à semelhança da justaposição do apito do trem ao grito da faxineira em Os 39 Degraus, de Alfred Hitchcock [The 39 Steps, 1935]).

Quanto ao plano ideológico da obra, Mefisto deixa o mesmo quinhão de perguntas de O Trem (The Train, 1964), já comentado no Clássicos Universais. Enquanto lá o teor das perguntas era sobre a apreciação, o valor e a preservação da arte, aqui o tema reflete a criação artística e o papel do artista na sociedade. Um artista qual Hoefgen consideramos ambicioso e podemos até condená-lo por trair seus primeiros ideais, ou sopesamos que ele faz o possível para ainda produzir arte em um cenário adverso. De novo, não há respostas fáceis.

No todo, é um excelente filme. Um dos melhores da Europa, na minha opinião. Boa história, bom roteiro, boas atuações, boa direção, boa fotografia, boa edição e boa cenografia. O que esperas para vê-lo? Se já viste, o que achaste?

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Ficha técnica:
Título: Mefisto / Mephisto;
Direção: István Szabó;
Elenco: Klaus Maria Brandauer, Krystyna Janda, Ildikó Bánsági, Rolf Hoppe, György Cserhalmi, Karin Boyd…;
Roteiro: Péter Dobai, István Szabó;
Cinematografia: Lajos Koltai;
Edição: Zsuzsa Csákány;
Música: Zdenkó Tamássy;
Produção: Manfred Durniok;
Ano: 1981;
País: Alemanha, Hungria;
Gênero: Drama.

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