Cuidado! Periga o leitor sorver tão rápido Meu Caro Jeeves que pode não reparar na sua perspicácia, como a presença discreta, mas efetiva, do personagem-título destes contos.

A advertência é então dobrada ao tratar-se do humor britânico, aqui representado por um de seus mestres, P. G. Wodehouse (1881–1975). Quem já conhece pérolas desse humor, como os esquetes de Monty Python ou A Bit of Fry & Laurie, reconhecerá nesta obra inédita no Brasil a mesma ligeireza da ação e o mesmo distanciamento de qualquer grandeza narrativa – sem Wodehouse deixar de ser um grande escritor.

Livro-Meu-Caro-Jeeves-PG-Wodehouse-Editora-NanquimVeja, para se fazer um bom herói cômico, é preciso agudeza do autor para conhecer o ridículo e reconhecer-se nele. Não basta a chacota à comédia; nesta, o tédio, a tolice e o azar dos personagens são uma catarse light para aquilo que vivemos na realidade. Uma boa comédia nos faz rir de nós mesmos.

E, céus!, eu ri com Meu Caro Jeeves! De fácil leitura, a escrita de Wodehouse foi trabalhada ao longo de décadas para chegar a essa forma. O sujeito escrevia todos os dias, até 3.000 palavras por dia, legando 76 títulos para seus fãs, entre eles os oito contos de My Man Jeeves, título original desta publicação da editora Nanquim, com tradução de William Bottazzini e Rodrigo Moraes Noal, e prefácio de Alexandre Soares Silva.

No livro, a tradução cumpriu seu papel ao transportar o humor e garantiu-me umas boas risadas. Manteve também a tom coloquial pelo qual o autor é conhecido. “Veja bem” e “você sabe” pingam aqui e ali, como se o narrador estivesse contando a história com a maior naturalidade do mundo. Logo no início do primeiro conto, Deixe com o Jeeves, Wooster fala o seguinte:

Não sei se já contei, mas a razão pela qual deixei a Inglaterra foi porque minha tia Agatha me mandou impedir o jovem Gussie de casar-se com uma garota no palco do vaudeville…” (Grifo meu.)

Ora, Wodehouse enquanto escritor sabia perfeitamente se já revelara ou não o fato, mas utilizava com frequência esses recursos da fala para colocar o narrador mais próximo do leitor. Assim, seja Wooster contando as aventuras com seu valete Jeeves em metade dos contos, ou Reggie Pepper descrevendo as suas na outra metade, eles parecem estar conversando conosco.

Destaco outro exemplo, de Ajudando o Freddie:

“Sabe, não quero torrar sua paciência, nem nada do tipo, mas eu preciso contar o caso do pobre e velho Freddie Meadowes. Não sou muito bom em definir gêneros literários e coisas desse tipo; entretanto, arranjarei algum escritor por aí para que dê uma lapidada e uma polida depois que acabar. Então tudo ficará certo.”

monty-python-calice-sagrado-filmeEsse jogo do autor que não quer ser levado muito a sério é outra característica que se estende pelo humor britânico e chega a seu ponto máximo em Monty Python – Em Busca do Cálice Sagrado (Monty Python and the Holy Grail, de Terry Gilliam e Terry Jones), o filme que mais se nega enquanto filme.

Curiosamente, quanto menos os contos se levam a sério, mais aprecio Wodehouse – e as histórias em que Jeeves aparece. Reggie tem momentos engraçados, como o plano de sequestrar uma criança para reconquistar o coração de uma moça, acabando por raptar a criança errada; contudo, Jeeves e sua relação deus ex valete com Wooster adquirem uma simplicidade pelo refinamento do estilo.

O humor aí não é o das grandes tramas, mas o dos pequenos inconvenientes e das brincadeiras com as palavras, como nesta passagem de A Tia e o Vagabundo:

“Logo as festividades começaram. Foi uma dessas divertidas e agradáveis festas de embrulhar o estômago, em que você dá duas tossidelas antes de falar alguma coisa, então decide continuar calado no fim das contas.”

Ou, mais engraçado ainda, no conflito ridículo entre Jeeves e o gosto para roupas de seu patrão. Os dois parecem um casal, cada um remoendo em silêncio suas opiniões, até que Jeeves vence Wooster com sua astúcia.

“Jeeves!”
“Senhor?”
“Sobre aquela gravata cor-de-rosa!”
“Sim, senhor?”
“Queime-a!”
“Obrigado, senhor.”

Assim, após se espezinharem por todo o conto Jeeves e o Visitante Inesperado por causa da tal gravata, o típico “sim, senhor”, “obrigado, senhor” de Jeeves vale mais que um brado de vitória. Fosse uma série americana, a cena terminaria com uma grande montagem da gravata sendo queimada e os dois personagens celebrando. Aqui – não, senhor.

Comparando o humor britânico ao estadunidense, Stephen Fry referiu-se aos personagens cômicos de sua terra como fracassados que reconhecem seu lugar. Tudo neles é anticlimático como a própria vida, e os contos de Wodehouse não fogem à letra: seus finais nunca são os esperados nem seus conflitos são carregados de gravitas, mas em meio ao fracasso seus personagens conseguem aproveitar as conquistas banais do dia a dia.

“Todos os maiores heróis da comédia britânica são pessoas […] decepcionadas com o mundo.” (Stephen Fry)

Quer outra comparação? Veja bem, Ricky Gervais, britânico, escreveu e dirigiu O Primeiro Mentiroso (The Invention of Lying). Em determinado momento, seu personagem vai a um cassino. Spoiler: não é uma cena animada.

Já em Se Beber, Não Case! (The Hangover), filme americano dirigido por Todd Phillips e escrito por Jon Lucas e Scott Moore, os protagonistas também vão a um cassino e a cena não poderia ser mais hollywoodiana, sabe? Tudo é acentuado: câmera lenta, cortes rápidos, montagens, letterings, closes…

Voltando à definição de Stephen Fry, mesmo quando o personagem cômico britânico está por cima, ele sabe que não está por cima de muita coisa, portanto sua alegria é agridoce. Os contos de Wodehouse têm esse gosto, seja em Meu Caro Jeeves ou nas histórias transportadas para as telas pelo mesmo Fry, ao lado de Hugh Laurie, na série Jeeves and Wooster. Bem, talvez mais para o doce, afinal a vontade que dá é a de ler mais.

Encontre o livro aqui: editora Nanquim.

Jeeves-and-Wooster-Stephen-Fry-Hugh-Laurie

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