Montagem e Efeito Kuleshov

Sabe o que é o Efeito Kuleshov em cinema? Não? Sem problema, Alfred Hitchcock está aqui para explicar.

O Kuleshov Effect deve seu nome ao russo Lev Kuleshov, cineasta e teórico de cinema que elaborou a maior parte de seu trabalho entre o final da década de 10 e o início dos anos 40. Ele fez parte da Escola de Cinema Moscovita, um grupo de jovens artistas e pensadores que se dispuseram a desenvolver uma linguagem própria para o cinema, separada das amarras da exibição teatral.

Acompanharam-no outras figuras importantes: Serguei Eisenstein, diretor de O Encouraçado Potemkin (The Battleship Potemkin / Bronenosets Potyomkin); Vsevolod Pudovkin, de Mãe (Mother / Mat); e Dziga Vertov, de O Homem da Câmera (The Man With a Movie Camera / Chelovek s Kinoapparatom). Foram esses estudiosos-realizadores que estabeleceram as bases para os conhecimentos atuais de edição e montagem cinematográficas.

Seus nomes podem não soar familiares ao ouvido do público geral, mas seus trabalhos continuam vivos e são percebidos intuitivamente. Por exemplo, embora um casal troque juras de amor em cena, se estiverem em cantos opostos do quadro cinematográfico ou se o diretor focar em seus olhos a apontarem para direções diferentes, então o espectador intuirá que esse amor não é tão vasto nem durará tanto. Pressentirá porque está condicionado por elementos da vida real, porque seu inconsciente percebe e age desse modo.

Um desses detalhes que são entendidos sem serem notados é o Efeito Kuleshov, que diz respeito a como o público interpreta um jogo de ação e reação entre imagens distintas. Seu desenvolvedor realizou um experimento simples para demonstrá-lo.

Consistiu na exibição de um curta-metragem no qual o ator Ivan Mozzhukhin aparecia em cena, logo surgia um outro quadro, e terminava com a reação de Ivan diante desse quadro. Isso feito três por vezes (diante de um prato de sopa, de uma criança e de uma mulher seminua). No entanto a plateia não sabia que a tomada inicial e de reação repetia-se nas três ocasiões, somente o miolo era alterado. Veja o vídeo aqui:

Enquanto a reação era idêntica em todos os casos – eram as mesmas tomadas! –, a audiência primeiro sentiu que o personagem estava faminto, depois era amável, e por fim era um mulherengo. Tudo porque a plateia imaginava que Ivan de fato olhava algo (sopa, criança, mulher) e julgava-o segundo suas concepções acerca do conteúdo da visão tida por ele.

Casos assim estão espalhados pela história do cinema. Em um filme em que é introduzido um vilão, ele não precisa fazer uma maldade à vista de todos – basta que a montagem da cena o caracterize como tal. O mesmo vale para o herói e para qualquer um que precise ser interpretado de certa maneira e não possa ou não queira fazer a ação correspondente.

Para concluir, Alfred Hitchcock foi desses diretores com um repertório fenomenal de técnicas e soube usar muito bem o Efeito Kuleshov. Seu filme Janela Indiscreta (Rear Window) é a demonstração máxima do Efeito, como descrito por ele:

Leia mais sobre um dos maiores exemplos recentes do efeito Kuleshov em A Chegada (Arrival).

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