Moonlight é um dos melhores filmes de 2016, quanto a isso não há dúvidas. Mas o que faz dele tão bom? Em 5 pontos, vamos tentar responder essa questão.

1: A beleza do inesperado

Nos primeiros quinze minutos de projeção somos apresentados à vida de Chiron. Ele é rodeado por cenas de perseguição, drogas e violência. Então, assistimos a um bando de meninos brincando. A câmera desliza em torno deles, enquanto Mozart toca ao fundo. Esses elementos, antes impensáveis juntos, combinam-se para criar um momento de poesia visual.

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Essa passagem ilustra a surpresa que é Moonlight: Sob a Luz do Luar. Quando chegou ao Brasil, já sabíamos da sua repercussão positiva na crítica. Disso resultaram os prêmios de Melhor Filme de Drama no Globo de Ouro, além de Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Filme no Oscar.

A deduzir pelo cartaz, também podíamos imaginar que a história abordaria três momentos na vida do protagonista. Pelas resenhas, que seria um coming-of-age de um negro homossexual nos Estados Unidos. Mas ninguém nos preparou para como isso seria contado.

Da mesma forma que a trama, baseada na peça In Moonlight Black Boys Look Blue, insere um personagem gay num ambiente onde atos violentos são prova de masculinidade, Barry Jenkins nos surpreende com um olhar aguçado para ali encontrar lições de humanidade. Mais do que isso, ele vê beleza e provas de afeição nas mínimas coisas, como no preparo de uma refeição.

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Simplesmente não esperamos por cenas como essa. Daí a súbita profundidade de Moonlight.

2: Roteiro

Por dividir a narrativa em três segmentos que contam diferentes períodos, o filme revela uma estrutura particular. Cada período tem durações diferentes (36, 30 e 40 minutos) e até mesmo ritmos diferentes: enquanto nos dois primeiros atos há vários acontecimentos, no último as cenas são bem mais longas e em menor quantidade.

Nem a Jornada do Herói se aplica aqui. Na metade do filme não temos a “visita à caverna mais profunda”, mas uma cena de satisfação na praia. Isso porque a batalha central de Chiron em Moonlight não é contra o meio que o cerca ou contra os problemas de sua mãe; esses são apenas obstáculos da verdadeira busca: a sua aceitação pessoal para que enfim possa ser feliz.

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Nesse sentido, a escrita inusual funciona porque é percebida como uma manifestação orgânica da vida. Altos e baixos sucedem-se sem hora marcada. Ainda assim, o roteiro de Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney (que escreveu a história original) cria espelhamentos para que entendamos os três atos como parte de um todo contínuo.

Exemplos disso são as tomadas iguais de uma reação particular de Chiron com relação a Kevin, seu amigo de infância.

Moonlight by Barry Jenkins with Alex Hibbert Ashton Sanders Trevante Rhodes

E também as cenas à mesa. Foi em um restaurante que o protagonista encontrou o primeiro homem que o aceitava como era. Já adulto, encontrou-se com outro que poderia ajudá-lo a aceitar a si mesmo.

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3: Câmera e som

Logo no início da projeção notamos o movimento fluido da câmera ao redor dos atores. Essa característica é tão marcante ao longo do filme que as lentes assumem o papel de nos colocar na pele dos personagens, indo além de representar a ação.

Juan (interpretado por Mahershala Ali) entra em cena e a câmera gira suavemente em torno dele.

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Imediatamente, a edição corta para uma shaky cam de Chiron em fuga, ainda garoto, visto de costas.

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Com poucas linhas de diálogo, o filme revela o contraste entre dois mundos. O de Juan é tranquilo e controlado, enquanto o do menino é turbulento e ameaçador. Aliás, continuamos a ver o protagonista de costas em muitas ocasiões, como se estivesse sempre fugindo.

Outro uso inteligente da câmera ocorre quando Juan ensina seu pupilo a nadar. A cena deve ser terrível para quem possui talassofobia (aprendi essa palavra hoje, então tinha que encaixá-la), mas a escolha de colocar a lente no nível da água é perfeita para imergirmos nas sensações de Chiron nesse instante.

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Frequentemente, o ângulo escolhido nos joga no meio do confronto, simulando a oposição direta de personagens. Terrel (Patrick Decile) circula pela tela, simbolizando o turbilhão de violência que carrega. Em outro período, Chiron e sua mãe são vistos em choque, frente a frente, para então seguirem direções opostas na vida.

Moonlight by Barry Jenkins with Alex Hibbert Naomie Harris

Quanto ao som, além da bela trilha sonora de Nicholas Brittel – ouça The Middle of the World –, algumas falas desconexas com a imagem dão um quê de subjetivo à experiência dos personagens. Às vezes, a realidade os assusta tanto que têm dificuldade de processar tudo ao mesmo tempo, como no surto de Paula (Naomi Harris) diante de seu filho.

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O oposto também acontece: os sons podem representar calma quando associados ao quebrar das ondas e ao farfalhar das palmeiras, reminiscentes da tranquilidade que Chiron sentiu no passeio à praia com Juan.

4: As atuações

Outra ótima surpresa de Moonlight está nas interpretações. A princípio, os maiores nomes são o de Ali e Harris. De resto, as três fases de Chiron e os demais personagens secundários são interpretados por rostos desconhecidos.

MAS QUE ELENCO! QUE ATUAÇÕES!

Todos carregam o peso da história e entregam momentos de dar um nó na garganta do espectador. Ali ganhou o Oscar e Harris está sensacional, mesmo quando age horrivelmente. Os três Kevin também são muito convincentes, com destaque para André Holland na versão adulta.

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Acredito que o maior desafio tenha sido o de Hibbert/Sanders/Rhodes, respectivamente na infância, juventude e vida adulta de Chiron. Eles parecem de fato uma só pessoa! Mesmo adulto, Rhodes deixa antever em seu corpanzil a expressão de fragilidade presente em Hibbert.

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5: Intimidade

As atuações são tão fortes e minuciosas porque têm espaço se desenrolarem. Sou ranzinza com filmes que querem mostrar milhões de coisas e apressam tudo, o que não é problema em Moonlight. O roteiro faz bem em selecionar momentos-chave para dizer o que precisa ser dito e com tempo para saborearmos cada palavra.

O terceiro exemplar. Perto do fim, toda a sequência de Chiron e Kevin no restaurante dura mais de 13 minutos! Pouco antes disso, já presenciáramos o encontro longo e pungente entre mãe e filho.

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A cena tem 4 minutos e 22 segundos ao todo, com muitos cortes acima dos 10 segundos de duração. Isso nos torna íntimos dos personagens, porque de tanto observá-los passamos a conhecê-los bem.

No primeiro 1 minuto e 40 segundos o diálogo os afasta. Chiron se irrita e decide sair. Paula implora para que fique. Os próximos 2 minutos e 42 segundos são destinados à conciliação, de forma lenta, doída, relutante, e por isso mesmo arrebatadora ao final.

Essa união só faz sentido porque durante o filme inteiro vemos que ele se preocupa com ela, porém os anos de sofrimento os impedem de se reaproximar. Esse é um confronto que, se resolvido, promete grande recompensa. Contudo, a recompensa só é verdadeiramente sentida quando há uma jornada a percorrer.

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Moonlight é esse tipo de jornada. Com seu próprio tempo, com sua própria estrutura e, sobretudo, extremamente recompensadora.

Créditos:
Título: Moonlight: Sob a Luz do Luar / Moonlight;
Direção: Barry Jenkins;
Elenco: Alex R. Hibbert, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Mahershala Ali, Naomie Harris, André Holland…;
Roteiro: Barry Jenkins, Tarell Alvin McCraney (história original);
Cinematografia: James Laxton;
Edição: Joi McMillon, Nat Sanders;
Música: Nicholas Britell;
Produção: A24, Plan B Entertainment;
Ano: 2016;
País: Estados Unidos;
Gênero: Drama.

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