Há algo errado (e muito certo) em Mr. Robot

Ah, Mr. Robot, o que resta falar de você? Seria a crítica à própria audiência que esta mesma aplaude? Seria a premissa de que se um personagem aparece mais que dois minutos em tela, então deve ter algum desvio moral? Ou seria o paralelo com o narrador-protagonista suspeito de Clube da Luta?

Certamente são todos assuntos dignos de menção, assim como o esforço em reproduzir fielmente a trama tecnológica1, ou os twists do roteiro, mas ficaremos aqui com algo mais simples.

Mr. Robot, série criada por Sam Esmail e estrelada por Rami Malek, acerta em tantos quesitos que é difícil reparar em todos. Roteiro, direção, elenco, trilha sonora… tudo é trabalhado muito bem (na maior parte do tempo, pois no episódio eps1.5_br4ve-trave1er.asf o seriado resolve erroneamente ser Breaking Bad por um momento).

Contudo, como já disse certa resenha, Mr. Robot funciona melhor quando é mais humana2. Afinal, o thriller cibernético não seria tão instigante para nós espectadores se não estivesse calcado em dramas pessoais e, portanto, relacionados ao público. Logo, a maior proeza da série não está na crítica, no suspense ou na atuação de Malek, mas na representação dos conflitos humanos.

Nisso a direção tem um papel fundamental. Apesar da figura do diretor mudar de episódio para episódio, a cinematografia de Tod Campbell é constante e peculiar ao longo da primeira temporada, que analisaremos a seguir.

Desde eps1.0_hellofriend.mov esse quê de estranho é perceptível e tem a ver com o conceito de lead room, embora o responsável pelo efeito neste episódio seja Tim Ives, que também está em Stranger Things.

O que preciso saber sobre lead room?

Lead room é um dos velhos fundamentos do manual de boas práticas da fotografia e do vídeo. Resumidamente, é o espaço à esquerda ou à direita para o qual o foco da imagem aponta. Ao tirar-se uma foto de alguém correndo da esquerda para a direita, o padrão é que o frame capture mais espaço à frente da pessoa, ou seja, à direita do quadro, para retratar a consequência natural do movimento.

No caso de um sujeito estático, é a direção do olhar que dita o lead room. Vemos isso claramente na primeira conversa entre Elliot (Malek) e Krista (Gloria Reuben).

Exemplo de lead room em Mr. Robot.
Elliot (Rami Malek) em um exemplo de lead room em Mr. Robot.

Porém, nessa mesma cena vemos uma quebra brusca no padrão, não por acaso quando Elliot exclama pela primeira vez “fuck society”.

f*society
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Em termos de compreensão, sempre que a linguagem visual a que estamos acostumados é rompida, temos a sensação de algo está fora de lugar. E é exatamente disso que Mr. Robot trata, de pessoas desconectadas do mundo, de outras pessoas e de si mesmas. Daí que a escolha por um enquadramento particular para a série não é mero acidente estético, mas a tradução visual dos dramas impostos pelo roteiro.

Para termos ideia de como funciona uma relação normal entre personagens, com uma representação igualmente normal, veja-se o diálogo entre Angela (Portia Doubleday) e seu pai (Don Sparks).

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O lead room está em seu lugar convencional, com o ocasional posicionamento da câmera sobre o ombro do ator para estabelecer a relação espacial entre os sujeitos retratados.

Mas, se uma das figuras sente-se deslocada, enquanto a outra tenta retornar ao enquadramento padrão, como na cena entre Elliot e Gideon (Michel Gill), temos aí um contato em possível fragmentação.

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Quanto mais deslocado do mundo o protagonista percebe-se, mais expressiva é a representação visual do seu estado psicológico.

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Mas esse recurso cinematográfico não é reservado apenas a Elliot. Conforme o arco da primeira temporada desenvolve-se, outros personagens são vistos na mesma situação, como Tyrell (Martin Wallström). Quando ele tem uma reunião negada pelo CEO da E Corp, à frente vemos um sorriso forçado, enquanto atrás somos obrigados a reparar no grande espaço vazio, representando tudo o que ele esconde dos demais.

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Até Angela é representada dessa forma, quando a relação com Ollie (Ben Rappaport) sofre um baque e vemos que há um momento de escuridão pesando sobre eles.

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Para mim, a cena mais emocionante em que essa ruptura do lead room é utilizada encontra-se em eps1.6_v1ew-s0urce.flv, especialmente depois dos acontecimentos do episódio anterior. Deparamo-nos com uma conversa entre Elliot e Shayla (Frankie Shaw), assim que eles se conheceram. Pela edição dos diferentes planos, sabemos que eles estão bem próximos em cena.

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No entanto, o que poderia ser filmado com um enquadramento nos dois, ou até mesmo com o tradicional over the sholder, que caberia bem nesse raro instante de descontração e intimidade, ainda é apresentado sem lead room. A razão para isso é simples: por termos acompanhado a narrativa, ao assistirmos a isso sabemos que eles não poderiam estar mais deslocados um do outro.

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Em uma série marcada por planos-sequência, tomadas longas, ângulos inusitados e uso expressivo do foco, a câmera é um de seus personagens principais. E Mr. Robot, além de prender a nossa atenção, sabe muito bem quando prender os atores em cena, como veremos adiante. E olha que nem estou falando disto…

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O espaço da cena como exteriorização mental

Uma das curiosidades da primeira temporada é que no episódio eps1.4_3xpl0its.wmv o retrato honesto de Bill (Tom Riis Farrell), comparado à crueldade de Elliot, quase fez a cena ser alterada justamente por ser tão cruel. Elliot se impõe por meio das palavras, mas como isso é representado visualmente?

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O protagonista está ereto, encarando Bill com sua expressão gélida e colocando-o contra uma barreira imaginária, pela continuação do enquadramento forçado. Bill está sem saída a não ser a submissão. Curiosamente, Elliot também está entre ele e a placa “EXIT”.

Outro bom exemplo disso está no início de eps1.1_ones-and-zer0es.mpeg, a sequência mais bonita da temporada, para mim. Elliot é trazido para a E Corp, onde lhe é oferecido um emprego e a chance de fazer parte daquilo. Só que a divisão do quadro pelas colunas – de um lado os executivos, contra Elliot, de outro – dá a entender que as duas partes jamais estarão do mesmo lado, antes mesmo de ouvirmos a resposta.

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A seguir, Tyrell é confrontado com a primeira adversidade em seu caminho e conhecemos mais a fundo seu caráter. Eis aí um homem confinado em suas ambições frustradas.

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Por falar nele, não poderíamos deixar de notar as relações de poder entre os personagens.

Poder é uma questão de perspectiva

Frequentemente em filmes, como já estudamos no artigo As Direções na Direção do Cinema, a expressão de poder está relacionada com o ângulo pelo qual observamos os objetos ou as pessoas na imagem. E uma série tão cinematográfica quanto Mr. Robot não poderia deixar de usar esse recurso.

A começar pelos escritórios da E Corp, que desde o piloto são vistos em contraplongée para incutir em nosso imaginário que o seu poder só é rivalizado pelo dos céus.

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Logo, até mesmo a pintura retratando um de seus principais executivos é capaz de diminuir Angela, quando esta vai confrontá-lo.

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A mesma cena também emprega outro recurso para exibir comandantes e comandados, que é a porção de tela ocupada por cada um. Terry (Bruce Altman) inicia um monólogo escroto (porque ele fala das próprias bolas, sacou?), enquanto seu rosto ocupa toda a tela. A fala é entrecortada com as reações de Angela, acuada, e portanto menos proeminente no quadro.

Isso se repete em outro confronto, desta vez entre Tyrell e Scott (Brian Stokes Mitchell). A perspectiva forçada dá a dimensão do controle que cada um tem sobre a situação. Scott, evidentemente, leva a vantagem: ocupa metade do frame; já Tyrell, em um de seus pontos mais baixos, mal aparece.

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O ápice desse jogo de plongée e contraplongée ocorre em eps1.6_v1ew-s0urce.flv, na consulta de Elliot com Krista. Aqui não somente há a perspectiva como expressão de poder, mas da alternância dele.

Diferentemente das demais cenas entre os dois, nesta a visão de Elliot é forçada de cima, oprimindo-o. Krista começa em pé, confiante, enquanto ouve. Então o monólogo de Elliot progride e o movimento da câmera o acompanha. Krista é arrasada pelas suas palavras, forçada a sentar. Quando ele então revela que sempre deu as cartas ali, os ângulos iniciais são invertidos: ele, elevado por abraçar a verdade; ela, constrangida pela revelação.

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Essa é, milagrosamente sem muitos spoilers, minha visão sobre Mr. Robot, um dos seriados mais envolventes e bem feitos da televisão atual. Se tem algo que deixei de fora, acrescente nos comentários.

 

Créditos das imagens: Mr. Robot é uma produção de Universal Cable Productions, Anonymous Content e Esmail Corp. É exibida originalmente pela USA Network.

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