Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski

Hoje quero fazer um convite à leitura de Noites Brancas (White Nights / Белые ночи), breve romance de Fiódor Dostoiévski (1821–1881), que serve de porta de entrada para o leitor iniciático à obra do escritor russo. Portanto, caso ainda não o tenha lido, recomendo que abandones a leitura deste texto e só volte cá depois de terminar as menos de cem páginas* do livro, pois pretendo estragar muitas surpresas aos desprecavidos.

Agora, gostaria de falar sobre duas impressões bastante distintas que tive nas leituras de Noites Brancas, uma de há vários anos, outra atual. Recordo-me de gostar deste livro, quando então havia lido apenas O Jogador, de Dostoiévski, e antes de encarar obras mais volumosas e complexas como Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov.

Li-o na flor da juventude, florescente apenas de romantismo piegas. De pronto identifiquei-me com o protagonista sem nome, o Sonhador, este misantropo de agitada vida interior. Porém ao relê-lo já não sou o mesmo e por isso para mim o personagem não é a mesma coisa; agora suas falas parecem-me cheias de coitadismo, exageradas e exaustivas.

O Sonhador continua um personagem bem criado e interessante, como são os personagens do autor; eu é que sofro aquela dorzinha de não mais identificar-me com ele.

Pois bem, falemos da história. Nas noites de São Petersburgo do século XIX, banhadas pela branca luz da lua, acompanhamos as deambulações desse homem de 26 anos cuja vida social resume-se a acompanhar pessoas de longe e imaginar diálogos com os edifícios da cidade. Note-se que apesar de sua misantropia ele tem uma visão benigna a respeito dessas fachadas que tanto observa.

E é justamente quando São Petersburgo esvazia-se de seus habitantes na época do verão que ele tem a chance de quebrar o limite dessas fachadas e conhecer alguém de verdade. Sempre achei fascinante essa ideia do flaneur, do Homem da multidão que encontra companhia no todo, mas sem a multidão vê-se forçado a contemplar a si ou a um outro exclusivo.

Num de seus passeios noturnos ela se depara com a bela Nástienhka, a quem oferece ajuda e recebe em troca sua amizade. Os dois logo estabelecem um vínculo, embora a moça advirta ao Sonhador para não lhe fazer a corte. Eles conversam longamente e combinam de se ver na noite seguinte.

Então cada um revela a sua história: ele, herói para si, vive em sua solidão; ela, de espírito mais prático, vive pregada à saia de sua avó. Ambos estão aprisionados de certa forma. Ele ao romantismo, ela à uma vida medíocre.

Mais importante, ela lhe revela o motivo de precisar estar durante as noites na rua. Ela espera por alguém, um outro homem por quem se apaixonara e de quem espera angustiadamente o retorno.

A amizade entre eles se estreita, embora haja claras diferenças na natureza de ambos. E Doistoiévski reconhece os excessos de eloquência de seu personagem quando coloca na boca de Nástienhka uma fala como: “você conta tudo isso lindamente, mas não lhe seria possível de contá-lo de maneira menos bela?”.

É enfim na terceira noite, por impulso ou por comodidade, que a mulher perde a esperança de reencontrar a antiga paixão e decidi unir-se ao Sonhador, pois é bom homem e a trata bem. Os dois fazem planos para o futuro. No entanto, na quarta e derradeira noite aquela sombra do passado dela reaparece para afastá-la definitivamente de nosso herói romântico.

Percebe-se nessa atitude do protagonista de entregar-se à mulher que acabara de conhecer a mesma tentativa de fuga da realidade que evidenciamos nas obras posteriores do escritor. Tentativa porque essa fuga se revela impossível. E é sempre marcada pelo rito. Por exemplo, aqui se dá pelo rito da corte à donzela, enquanto em Os Irmãos Karamazov se dá pelo rito religioso e em Crime e Castigo pelo da retórica.

Ainda com relação aos pontos de intersecção com a obra posterior, o Sonhador de Noites Brancas pode ser visto como uma antecipação do Homem de Notas do Subsolo. Os dois têm o mesmo movimento de sair do isolamento em que se encontram e chegam a conclusões semelhantes. O Homem do subsolo no final se pergunta se é melhor uma felicidade barata ou um sofrimento elevado. Já o Sonhador se despede com estas palavras:

“Um momento de felicidade! Sim! Não será isso o bastante para preencher uma vida?”*

Entretanto, o que os difere é a ótica que cada um emprega sob problemas idênticos. Enquanto o Sonhador consegue encontrar a felicidade no sofrimento, o Homem do subsolo resigna-se e não vê espera tanto a felicidade. Outra distinção crucial é que o Homem não sofre do mesmo coitadismo do outro e é capaz de encarar sua desgraça sem dar tamanha importância à opinião alheia, como diz:

“Há apenas um caso em que o homem é capaz de, proposital e conscientemente, desejar para si algo até mesmo nocivo, idiota, até mesmo idiotíssimo, e é precisamente quando quer defender o direito de desejar a si mesmo algo idiotíssimo e não a ficar obrigado a desejar para si apenas o que é inteligente.”**

De volta ao romance, a carta de despedida de Nástienhka ao protagonista soa como um golpe certeiro no coração deste. Ela tem a coragem de dizer coisas do tipo “o seu amor por mim será o mesmo, não é?” e “continue a querer-me, não me abandone, pois agora amo-o tanto que quero ser digna do seu amor, quero merecê-lo… meu querido amigo”. Isso é arrasador para um homem apaixonado, ainda que ela lhe tenha alertado sobre não fazer-lhe a corte.

E esse é o fim do romance entre os dois; recém iniciado, já findo. Contudo o herói acha forças para perdoá-la e querer-lhe bem. Nisso o livro se afasta do romantismo tradicional para criar um romantismo ao modo russo, como escreve Dostoiévski em Notas do Subsolo:

“Em geral nós, russos, nunca tivemos autores românticos bobos, daqueles que pairam acima das estrelas…”

Isso vale até para a fase romântica dele. Os personagens podem ser bobos; o autor, não.

*Em tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares para a L&PM.
*Em traduão de Natália Nunes para a L&PM.

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