O Amante, de Marguerite Duras

O Amante (L’Amant, 1984), de Marguerite Duras (1914–1996), são 127 páginas* do mais frio e desapaixonado sofrimento. Nele a tragédia é aceita não somente como um evento da vida, mas como própria condição de existência, e o sofrer resignado dá ao fatalismo dessa condição uma aura de poesia.

“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais”, diz a narradora Duras aos leitores. Não se sabe ao certo até que ponto essa narradora corresponde àquela que viveu um relacionamento – não confundir com ter vivido um amor – com um homem de Saigon doze anos mais velho, enquanto ela vivia lá como uma garota de quinze anos, na década de trinta. Seria muito tarde, inclusive, para reclamar qualquer inocência relativa à idade.

Essa forma de apresentar-se sem amor-próprio, uma forma até distante de referir a si mesma como “ela” ou “a menina”, como se falasse de outra pessoa, dá-me a impressão de que a história da Duras não foi o que pretende parecer. É uma impressão esquisita; geralmente ao ler sobre o passado de alguém penso que não poderia ter sido tão incrível ou planejado quanto o anunciado, no entanto, ao ver as fotos dessa menina Duras, tão delicada, creio que seu passado não pode ter sido tão cruel quanto relata.

Fotografias são elementos importantes em O Amante, não somente pelo papel que desempenham enquanto fatos da narrativa, como também representam o próprio estilo narrativo. “A história da minha vida não existe. Ela não existe. Jamais tem um centro. Nem caminho, nem trilha.” E dessa forma a obra se desenrola, menos através de um fio condutor e mais através de diversos momentos que vêm e vão no tempo, sem ordem certa e a terem como elemento de ligação apenas a tragédia.

Conforme avançamos nesses momentos, nessas fotografias, sabemos um tanto mais sobre a complexidade das relações dessa garota. Ela se torna amante de um homem mais velho, cultural e economicamente muito diferente dela, e com quem não poderá casar. Ela vive uma relação tumultuada com a família; tem uma mãe que apresenta cada vez mais um desgaste psicológico e é obrigada a conviver com as constantes brigas dos irmãos mais velhos.

Ler este livro é como abrir um álbum fotográfico de uma desconhecida – um álbum bastante desordenado, por sinal – e aos poucos reconhecer os padrões, as faces reincidentes, as expressões corporais e ambientes que se repetem. Então esse monte de recortes passa a fazer sentido num todo, a montar uma história, enquanto as partes individuais pouco revelam por si.

Não digo que cada momento tenha um baixo valor narrativo ou que não contribua nesse sentido. É que uma passagem como esta:

“E agora chega a noite. Ele diz que vou me lembrar para sempre daquela tarde, mesmo quando já estiver me esquecido do seu rosto, do seu nome. Pergunto se vou lembrar-me da casa. Ele diz: olhe-a bem. Olho. Digo que é igual a qualquer outra. Ele diz que é exatamente isso, como sempre.”

Esse tipo de passagem por si não explica muito. É por meio de outros momentos, de outros pedaços de memória que como leitores entendemos a significação daquela casa para a garota, porque apesar de ser igual a qualquer outra ela ainda se lembrará dela e daquele instante. Desse modo, falamos aqui de uma fotografia mais da impressão que o evento causa do que a do real evento.

E podemos pensar que esse relacionamento com o chinês doze anos mais velho do que ela servisse como uma fuga da tragédia emocional que a pequena Duras vivia em Saigon, porém esse relacionamento revela-se uma extensão dessa mesma tragédia. Há ali todo o fatalismo e toda a resignação que a acompanham nos demais vínculos afetivos.

Aliás, esse chinês é talvez o personagem mais apaixonado da história, só que isso o torna pejorativamente patético, porque ao invés de sua paixão dar-lhe força, ele é diminuído por ela. Ele se torna um covarde com senso prático. E a frase que diz a Duras no final deixa uma sensação ambígua: suas palavras só fazem aumentar a tristeza ou são um ponto de apoio e elevação em meio a tudo quanto há de triste que aconteceu?

Marguerite Duras and her mother
Marguerite Duras and her mother

*O Amante (L’Amant), de Marguerite Duras, em tradução de Aulyde Soares Rodrigues para a Editora Nova Fronteira.

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