O Apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger

Holden Caulfield tornou-se um símbolo para sua geração e para as gerações vindouras, em grande parte pelas razões equivocadas. O protagonista de O Apanhador no campo de centeio (The Catcher in the rye, publicado em 1951), não é um herói; é antes uma vítima de uma fase da vida compartilhada por muitos de nós, o que faz com que nos identifiquemos com ele. Mas que não haja engano: Caulfield não é exemplo a ser seguido, é sim um exemplo de algo a ser superado.

Essa mesma recepção indesejada é o drama de seu autor, J. D. Salinger (1919– 2010). Depois de ver o sucesso imediato de seus livros, Salinger optou por viver recluso até seus dias finais.

Escreve Holden em certa passagem: “Bom mesmo é o livro que quando a gente acaba de ler fica querendo ser um grande amigo do autor”. Resistamos ao impulso de procurar o autor e fiquemos com sua obra.

É o próprio Holden quem narra os acontecimentos de O Apanhador no campo de centeio, já decorridos alguns meses desses eventos. Essa separação temporal é importante para que entendamos o seguinte: existem dois protagonistas, aquele que viveu os fatos e aquele que ora os narra.

O primeiro é um jovem de 16 anos que está para ser expulso do colégio e acaba de se ver excluído dos demais por ter perdido o equipamento de sua equipe em excursão para um campeonato, o que obrigou todos a voltarem mais cedo para o colégio. E é a partir daí, através dos pensamentos dele, que acompanhamos sua jornada para encontrar alguém com quem conversar, ter uma conexão humana e, sobretudo, apegar-se ao pouco de inocência que lhe resta nessa fase de transição à maturidade.

Por meio de diálogos e de extensas divagações conhecemos mais do passado de Caulfield, de sua estrutura familiar, dos seus conhecidos, no entanto nunca se sabe ao certo o porquê de ele agir da forma como age. A morte de seu irmão decerto o afetou, mas no todo ele é o que os anos cinquenta consagraram como um “rebelde sem causa”.

Ele sai de Agerstown, onde ficava seu colégio particular, e parte para Nova York a gastar alguns dias até poder voltar para casa, quando sua família o esperava para o Natal. Nesse meio tempo ele interage com diversas personagens, de freiras a uma prostituta, de velhos conhecidos a completos estranhos, ao vivo e por telefone, sempre à procura de um momento de contato, de segurança. Ou, como creio, um momento para parar o tempo.

Holden atravessa essa fase familiar a muitos de nós. Ele está próximo da idade adulta e de suas responsabilidades, precisa agora pensar no futuro, passou a considerar mais seriamente a questão da morte; ainda não tem muito propósito na existência, não sabe lidar bem com sua sexualidade e com suas crenças. O grande dilema dele é tentar retornar a uma inocência que jamais voltará, assim como o passado de Gatsby jamais se repetiria, pois o tempo só caminha para a frente.

Neste ponto os personagens desses dois grandes romances estadunidenses se encontram: ambos experimentam por um breve instante a sensação de conseguirem o que procuravam, mas apenas por um breve instante. Holden se encaminha para a maturidade, ainda pouco decidido, mas pelo menos mais consciente; já Gatsby, bem…

Defendo que ele se encaminha para a maturidade por causa de diferenças óbvias entre esses dois Caulfield de que falei no início. O primeiro é aquele capaz de pagar uma prostituta apenas para ter uma conversa, o segundo é aquele que já começa a narrativa assim: “Se querem mesmo ouvir o que aconteceu”, e se despede da história com um senso de conformação e de saudade, até mesmo das figuras a quem antes desprezava.

O grande momento do livro são os encontros dele com sua irmã menor, o símbolo da inocência. É onde as sutilezas começam a fazer pleno sentido. Caulfield vem de um mundo que ele não entende completamente, um mundo que ele está prestes a adentrar. É um mundo habitado por pessoas em que ele não mais ousa confiar, como no caso do antigo professor em cujo apartamento ele procurou abrigo.

Ele não sabe como se portar, não sabe o que sentir. Sequer um soco ele sabe ao certo que é um soco. E de repente ele se volta para a imagem do que procura, no caso, a imagem representada por sua irmãzinha.

E depois combina de encontrar-se com ela no museu, local de seu agrado porque segundo ele lá tudo permanecia igual. Depois, ao vê-la girar num carrossel, ele sente uma felicidade como nunca sentira em todo o livro. É talvez ali que ele percebe ser possível preservar a inocência, ou ter momentos de inocência, mesmo enquanto se encaminha para a maturidade. Talvez perceba ser impossível segurar o tempo, que ele gira e gira como a roda dum carrossel, mas se vai adiante, pode retornar ao ponto onde começou.

Em seguida, no fim, ele parece desprender-se dessa fase de transição e aceitá-la como de fato era, uma fase apenas.

Antes de encerrar gostaria de chamar a atenção para dois quesitos. Primeiro, o livro é excelente, um dos mais instigantes que já li, apesar da falta de uma grande ação. O protagonista por si consegue conduzir o interesse pela história.

Segundo, Salinger foi capaz de criar completamente um personagem incompleto. O modo de pensar, os trejeitos, o vocabulário… tudo se encaixa muito bem em Holden e em sua planificação ele se torna tão íntimo do leitor quanto uma criação de Dostoiévski.

E o modo como ele se expressa me fez rir um bocado, com toda a sua rabugeira e o uso excessivo de hipérboles para descrever até as coisas mais banais – “Era a estória de uns quinhentos mil anos na vida de um casal velho”; “puxa, devo ter dado um pulo duns mil metros”*. Ri, inclusive, mais do que em livros considerados cômicos, como Uma Confraria de tolos.

Não sei se desejaria ser amigo de Salinger, mas com certeza faço aqui um brinde a ele por ter escrito este livro.

 

*O Apanhador no campo de centeio (The Catcher in the rye), de J. D. Salinger, em tradução de Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster, pela Editora do Autor.

 

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