O Coração das Trevas, de Joseph Conrad

“Extensões de água abriam-se a nossa frente e fechavam-se atrás, como se a floresta houvesse avançado displicentemente sobre o rio, barrando o caminho de nosso retorno. Penetrávamos cada vez mais fundo no coração das trevas. […] Fôramos apartados da compreensão de nossas referências; […] não podíamos compreender porque estávamos longe demais, e não lembrávamos por que estávamos viajando na noite das primeiras eras, de épocas que haviam desaparecido, mal deixando um sinal – e nenhuma lembrança” – tradução de Albino Poli Jr.

A passagem acima, retirada de O Coração das Trevas (Heart of Darkness, 1899), é narrada por Marlow, o protagonista da história. Charles Marlow conta as suas aventuras a bordo de um barco a vapor ao longo do Rio Congo (no Congo), no começo do século XX – aventuras tiradas da própria biografia de Joseph Conrad, o autor.

Marlow é empregado por uma companhia de comércio belga, cujos objetivos eram levar a civilização àquele ambiente tenebroso e trazer de volta todo o marfim que fosse possível. Ele é encarregado de alcançar o posto mais avançado no rio e de lá voltar com um tal de Kurtz, um comerciante tido como formidável, mas que começava a preocupar a companhia por causa de seus métodos pouco convencionais.

Como a narrativa é bastante curta, não entrarei em mais detalhes a respeito da ação. Pretendo aqui apenas explicar ao que Jorge Luís Borges se referia quando disse que Heart of Darkness “é o mais intenso de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu”.

Primeiro, não creio que o leitor sentirá a intensidade da obra se jamais esteve em algum lugar remoto ou se procura desesperadamente formas de contato com outras pessoas para não se sentir sozinho. O Coração é uma experiência melhor captada por aqueles que a compartilharam. Quando Conrad fala de trevas através de Marlow, são trevas que persistem em plena luz do dia, porque estão impregnadas no ar, estão dentro da gente.

Há um comentário no começo da obra que talvez defina esse contraste entre luz e trevas. O protagonista fala que a Inglaterra já fora uma terra tenebrosa, então iluminada pelo processo civilizador. No entanto as trevas não foram destruídas, elas continuam lá como raízes no subsolo da sociedade, e o maior esforço da sociedade é justamente tentar esconder essas raízes.

Portanto, o que acontece quando alguém sai da redoma da civilização e encontra-se sozinho no mundo tal como é? E quando vê o que há em si? Ele vê o coração das trevas.

Essa dualidade acompanha toda a história. Kurtz destrói para construir; ele abraçou as trevas para trazer a luz. A Companhia (por extensão: a Europa, a civilização) quer construir, mas é corroída pelas trevas; ela vem acabar com a escuridão e não consegue.

A jornada de Marlow vai de um extremo a outro. O elo entre ele e Kurtz é que ambos compreenderam o poder das trevas. Entretanto, Marlow não se transforma em Kurtz porque não deseja usar esse poder. Mesmo assim, é um poder que o assombra.

Uma última observação sobre a experiência. Eu estava no Deserto do Atacama, sozinho. Peguei uma bicicleta e fui dormir no meio do nada. Já havia sentido sua presença. Quanto mais eu me afastava do mundo que conhecia, mais as trevas se faziam notar. Mas lá, naquele lugar, naquela noite, nada havia entre mim e as trevas. Lá eu vi o coração das trevas, um coração que pulsa sob nossos pés e não queremos ouvir, que bate dentro de nós e nos distraímos dele. Mas enfim estava lá, nu, puro. Aí quando se volta para o velho mundo, a velha vida,  não há como ignorar o que foi visto e sentido. Lá eu era algo de sobre-humano, de primordial. Aqui sou só mais um.

Leia também: Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola.

4 comentários Adicione o seu

  1. juka disse:

    Onde eu compro??? Alguém me ajude, vou ficar maluco se não ler! 🙁

    1. Olha, costumo encontrar esse livro tanto em livrarias quanto em sebos ou bibliotecas. Há muitas e muitas edições dele.

    2. Guilherme F disse:

      comprei pela Amazon, uma versão bilíngue, pelo Kindle mesmo!!Bem baratinha.

  2. aline naomi disse:

    Gostei muito do post e quero ler o livro! Vim consultar e checar informações, pois estava traduzindo a sinopse de uma adaptação desse livro e, como não li, algumas coisas não estavam muito claras. Obrigada por compartilhar.

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