O Exército de Cavalaria, de Isaac Bábel

Não poderia falar sobre este livro sem antes recorrer à citação de Maiakovski, quando escreve: “Sem forma revolucionária não há arte revolucionária.” Bábel, posto que partidário do Comunismo e escritor engajado, fez levou a máxima à maestria.

Nascido em 1984, em Odessa, Ucrânia, e originário de uma família judaica, Isaac Bábel teve de lidar desde cedo com as perseguições aos sectários de sua fé, por meio de pogroms, e com o dilema estabelecido entra a ideologia e a crença, como conferimos nesta passagem do conto O filho do Rabino:

“Tudo estava amontoado ali, as credenciais de agitador e as anotações de um poeta judeu. Retratos de Lênin e de Maimônides jaziam lado a lado. O ferro nodoso do crânio de Lênin e a seda opaca dos retratos de Maimônides. Uma mecha de cabelos femininos servia de marcador num livro com as deliberações do Sexto Congresso do Partido, e nas margens das páginas comunistas apertavam-se as linhas tortuosas de antigos versos hebraicos. Qual chuva rala e triste, caíam sobre mim páginas do Cântico dos Cânticos e cartuchos de revólver.” – Na tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade para a Cosac Naify.

Judeu e comunista, via-se dividido, pois se para os judeus o Comunismo era uma ameaça, para os comunistas o Judaísmo, bem como as demais religiões, era uma instituição ultrapassada, portanto desnecessária e até malévola. Vale aqui ressaltar que o Império Russo teve a maior população judaica da Diáspora e que o Comunismo pregava tanto o ateísmo quanto o internacionalismo.

Essa e outras ambiguidades de caráter estão impressas ao longo dos 36 contos que compõem O Exército de Cavalaria (Red Cavalry / Konármia). São textos narrados por muitas vozes, com predominância de certo Kirill Vassílievitch Liútov, alterego do autor, e com uma fascinante reincidência de personagens, tal o filho do Rabino e Sachka. Escritos entre as décadas de 20 e 30 do século passado, todos eles giram em torno da Guerra Polaco-Soviética (1919-1921), da qual o próprio Bábel participou.

O conflito antepunha a Polônia e a República da Ucrânia contra a Rússia e Ucrânia Soviéticas, primeiramente como uma disputa por território iniciada pelos poloneses, para então ganhar uma conotação política nas mãos de Lênin e Trotsky, pois com a derrota da Polônia os soviéticos teriam o caminho livre para espalhar a “Revolução permanente” pela Europa. Essa guerra, no entanto, teve como vitoriosos os poloneses, com o sucesso em batalhas históricas como a de Varsóvia.

Bábel, mirrado e míope, além de judeu, foi destacado para a divisão de cavalaria do Exército Vermelho. Enquanto lutava pela Revolução Comunista, outra, mais íntima, ocorria em seus cadernos de anotações, infelizmente hoje perdidos. Neles surgia uma literatura a par com os novos tempos. O Exército de Cavalaria surpreende em várias esferas: é o retrato das contradições de um pensador, é o terror e a frieza de um soldado, é a impressão de um homem do século XX e é a tentativa de conciliação de todos esses lados por parte do escritor.

Estes contos são a consciência da Modernidade, são as vísceras da guerra. Neles não há espaço para julgamentos, o próprio cenário e a rápida sucessão de acontecimentos não permitem a reflexão do acontecido. O horror então é duplo: sentimos que a descrição nos choca, porém ignoramos o choque para seguir adiante. Assim, tornamo-nos também soldados; somos agora mais do que leitores, somos personagens da história.

E o autor não nos poupa dos detalhes sórdidos, chega a agir mesmo com indiferença diante das atrocidades do campo de batalha, segundo o velho lema de escolher a demência para não perder a sanidade. Disso resultou homens com os órgãos expostos ainda vivos, inocentes fuzilados sem porquê, cavalos ensanguentados a marchar, cidadãos famintos e maltratados, tudo descrito sem o menor apelo sentimental, como se a insensibilidade integrara um hábito, conforme lemos neste diálogo em Zámostie:

“Ficamos reduzidos a um cavalo. A montaria mal deu conta de nos tirar de Sitanietz. Eu ia na sela; Vólkov, na garupa.
Os comboios corriam, rangiam e atolavam na lama. A manhã evaporava-se de nós como o clorofórmio da mesa do hospital.
– Você é casado, Liútov? – perguntou Vólkov à queima-roupa, montado na garupa.
– Minha mulher me abandonou – respondi; cochilando por alguns instantes, sonhei que estava dormindo numa cama.
Silêncio.
Nosso cavalo cambaleava.
– Esta égua não vai aguentar mais de duas verstas – diz Vólkov, montado na garupa.
Silêncio.
– Perdemos a campanha – resmunga Vólkov, e começa a roncar.
– É – digo eu.”

Até porque Bábel não teve a mínima intenção de fazer uma literatura sentimental, abstrata. Ao contrário, seus escritos são imagéticos, reais, concretos. Daí nascem expressões tais: “um sol alaranjado rola pelo céu como uma cabeça decepada” e “o cheiro de sangue e dos cavalos mortos pinga no frescor da tarde” (do conto A travessia de Zbrutch); ou “uma lua desamparada vagava pela cidade” (Pan Apolek), “sentado à parte, eu tirava uma pestana, os sonhos pulavam ao meu redor feito gatos” (O sol da Itália) e “inchadas de tinta, as nuvens apagavam as estrelas” (Zámstie).

Apenas não o tomemos por um partidário acrítico do Comunismo. Sua visão da Revolução sempre foi bastante lúcida, ao contrário dos discursos inflamados de seus líderes, exageros estes ironizados em diversos momentos das narrativas. Chegou mesmo a ser considerado contrarrevolucionário por não compartilhar de uma opinião tão otimista a respeito do movimento. Preso e condenado, sua morte ainda é um mistério. Teria sido executado entre 1940 e 1941, mas não se sabe exatamente quando.

Em Guedáli, um dos contos emblemáticos desta reunião, ao lado de Uma carta e O sal, encontramos o seguinte questionamento do personagem-título, para o qual Bábel nos parece também não ter descoberto a resposta:

“- Mas o polonês estava atirando, meu caro pan, porque ele era a contrarrevolução. E vocês atiram porque são a Revolução. Mas a Revolução é alegria. E a alegria não gosta de ter órfãos pela casa. O homem bom faz boas obras. A Revolução é uma boa obra de homens bons. Mas homens bons não matam. Então, quer dizer que quem faz a Revolução são os homens maus. Mas os poloneses também são homens maus. Quem dirá a Guedáli de que lado está a Revolução e de que lado está a contrarrevolução?”

Terminemos com o trecho mais conhecido – e provavelmente mais importante – de O Exército de Cavalaria. O sal sintetiza toda a cegueira humana, toda a descrença e todo o desespero de um homem que luta por um ideal do qual não se convence por completo e que por ele pode morrer a qualquer instante, enquanto vê sua terra e seu povo definharem:

“Confesso que realmente atirei a tal cidadã para fora do trem em movimento, num declive, mas ela, de tão ordinária, ficou um tempo ali sentada, sacudiu as saias e seguiu seu caminho de sordidez. E, ao ver aquela mulher intacta e a indescritível Rússia que a rodeava, e os campos dos camponeses sem uma só espiga, e as moças ultrajadas, os muitos camaradas que vão para o front e os poucos que voltam, me deu vontade de pular do vagão para dar um fim na minha vida, ou na dela. Mas os cossacos ficaram com pena de mim e disseram:
– Passa fogo nela.
E, apanhando minha fiel arma na parede, varri aquela vergonha da face da terra trabalhadora e da República.”

Sugestão:
O Exército de Cavalaria, Editora Casac Naify, 2006, Tradução e apresentação de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade, Posfácios de Boris Schnaiderman e Otto Maria Carpeaux, 256 pp. Aliás, a coleção Prosa do Mundo, pela qual este livro foi publicado, conta ainda com outras maravilhas pouco conhecidas no Brasil, como Jacobsen, Breton e outros.

 

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