Este clássico imperfeito de 1921 começa com um aviso que antecipa não só o próprio filme, como as obras-primas que Chaplin faria a seguir: “A picture with a smile – and perhaps, a tear.”

É no mínimo curioso que um dos maiores comediantes do cinema seja tão afeito ao “perhaps, a tear”. Se considerarmos em seus longas as cenas mais memoráveis, são aquelas de gosto agridoce ou notavelmente dramáticas; em A Corrida do Ouro (The Gold Rush) temos a pantomima de um faminto delirante, em Tempos Modernos (Modern Times) o homem é engolido pela máquina, em O Grande Ditador (The Great Dictator) vemos um tirano brincar com o mundo e um discurso tocante contra a guerra…  Diga-me se estou enganado nesse ponto.

O que Chaplin conseguiu em sua cinematografia foi transformar em reflexão acessível o drama de uma vida tumultuada, desde uma infância difícil no vaudeville até os erros que cometeu já famoso, que comentarei a seguir.

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Jackie Coogan em The Kid.

No caso de O Garoto, seu primeiro longa-metragem como diretor, houve tantos problemas em torno da produção que é um milagre podermos assistir ao filme terminado. Primeiro, há a história dos processos. De um lado, o divórcio de Mildred Harris, sua primeira esposa de apenas 17 anos; de outro, a produtora First National, descontente com os rumos que o autor dera ao projeto. Além disso, dias antes das filmagens Charlie e Mildred perderam um filho recém-nascido…

Isso explica a profunda ligação entre o Vagabundo e o Garoto, interpretado por Jackie Coogan? Bem, explicaria ao menos metade da história, não fosse o pequeno pôr em cena uma das melhores interpretações infantis da sétima arte.

Uma estrela quase um cometa

Aos seis anos, Coogan era um mini Chaplin. Na verdade, era um imitador deste, crescido também nos palcos do teatro de diversão. Já aparecera em filmes, mas foi entre as estripulias e lágrimas de O Garoto que ele se converteu na primeira estrela mirim do cinema.

Um século depois do lançamento, sua emoção ao chamar pelo Vagabundo ainda é de partir o coração. Parece que cristalizou ali, ora respondendo aos trejeitos de Chaplin, ora roubando a cena nos planos fechados em si, o melhor que poderia dar em sua carreira. Após sua rápida ascensão, fez mais alguns papéis infantis de menor impacto e interpretou o Tio Fester na série Família Addams.

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Entre erros e acertos

Desde 1914, quando estreara no cinema, até O Garoto, Charlie Chaplin já atuara e dirigira dezenas de curtas, definindo seu personagem e um processo artístico autoral, mas ainda levaria alguns anos para aperfeiçoar os belos exemplos de direção que temos em Luzes da Cidade (City Lights) e Tempos Modernos.

o garoto - charlie chaplin - montagemIsso se vê, por exemplo, logo no início da projeção. Uma mulher (Edna Purviance) sai sozinha da maternidade com o filho no colo. Desamparada, num calvário comparado ao de Cristo pela edição pouco sutil, abandona o bebê na frente de uma mansão. Esse corte brusco poderia ser melhor resolvido com uma imagem da mesma estátua em uma locação real da história, servindo de transição entre as cenas.

Outro ponto negativo é o uso excessivo de intertítulos. A apresentação de cada personagem é tão efetiva que em poucos segundos sabemos tudo que precisamos saber sobre eles, portanto as telas dizendo “sozinha” ou “homem” são redundantes. Nesse sentido, prefiro o minimalismo do Kammerspielfilm de F. W. Murnau.

Para completar, o hábito de Chaplin partir de premissas e não de um roteiro definido aqui abriu brechas para pontos mal resolvidos. Convém uma pequena recapitulação da trama para você entender: depois de uma série de incidentes, o bebê abandonado pela mulher é encontrado pelo Vagabundo.

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Ao longo de cinco anos, eles formam uma bela, porém precária relação. Nesse meio-tempo, a mulher vira uma atriz conhecida e o garoto adoece pela pobreza, chamando a atenção das autoridades, que resolvem tomar-lhe a guarda. Depois da famosa cena da separação, há outro momento igualmente icônico de O Garoto: a perseguição nos telhados. Aí sim temos uma direção arrojada!

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O Vagabundo consegue recuperar o menino e ambos passam a noite numa pousada. Ali há um porteiro, caracterizado na narrativa como sovina por cobrar a cama até de uma criança. Nesse contexto ele vê o anúncio da mãe oferecendo recompensa pelo menino e decide intervir, o que nos provoca antipatia, uma vez que torcemos pelos protagonistas.

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Analisando friamente, essa foi uma boa ação. O homem obedeceu a uma ordem policial e, sem ele, o Garoto não poderia se reunir com a mãe, agora capaz de dar-lhe uma existência confortável. A resolução da história como está me parece desconexa.

Mais desconexa ainda é toda a sequência do sonho do Vagabundo, após perder o menino, em que imagina anjos por toda parte. Não há como explicar a existência dessa parte, talvez fosse uma decisão comercial, ou mesmo um contrapeso à tristeza das cenas anteriores. De qualquer forma, meu destaque fica por conta da presença de Lita Grey, a anjinha tentadora que seduz o Vagabundo. Nas filmagens ela tinha só 12 ou 13 anos, e aos 16 se tornaria a segunda esposa de Chaplin, prova que desde o início Hollywood tem problemas à la Harvey Weinstein.

Apesar disso, adoro o filme!

Mesmo com suas falhas, é um bom filme e seus méritos são muito maiores. A mulher da história foi abandonada e esse abandono se dá de um modo sucinto (e inteligente) na narrativa. Além disso, se mencionei um detalhe da edição mais ideológica, todos os demais cortes de ação e reação funcionam bem.

É, verdadeiramente, um clássico do cinema mudo. Diverte, consegue balancear muito bem o drama com a comédia e é uma delícia assistir à relação improvisada entre pai e filho. Como escreveu Alternate Ending: The Kid is never so sweet that the comedy suffers, and never so funny that the drama comes off as shallow.”

Em seu cerne está tudo o que Chaplin refinaria nas obras posteriores, como ator, diretor, produtor, editor, compositor, roteirista e, sobretudo, como um artista capaz de tirar de extremos de emoção a beleza inesperada da vida.

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Créditos:
Título: O Garoto / O Garoto de Charlot / The Kid;
Direção: Charlie Chaplin;
Elenco: Charlie Chaplin, Edna Purviance, Jackie Coogan…;
Roteiro: Charlie Chaplin;
Cinematografia: Roland Totheroh;
Edição: Charles Chaplin;
Música: Charlie Chaplin;
Produção: Charles Chaplin Productions, First National;
Ano: 1921;
País: Estados Unidos;
Gênero: Comédia, Drama.

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